A vida desta professora dava um filme. “Se o professor tem filhos é um problema arrendar quarto”

Desde 2004 que Susana Duarte tentava entrar para os quadros. Conseguiu este ano, mas para trás, ficam anos e anos de quilómetros, quartos onde não eram permitidos os filhos, e colocações em escolas que distam 200 quilómetros da sua área de residência. O desgaste e o receio permanecem.
Sempre quis ser professora desde pequenina, “era algo que queria mesmo”, recorda Susana Duarte, a viver no Fundão e colocada este ano no Agrupamento de Escolas A Lã e a Neve, na Covilhã, passando a estar vinculada ao Ministério da Educação.
Apesar de o momento ser de alegria pela conquista que desejava desde 2004, Susana confessa que não pode apagar todo o rol de experiências vividas desde 2004.
“O nosso ordenado não chega para fazer face às despesas, talvez um suplemento para as deslocações a partir de uns certos quilómetros, um apoio para a renda para os deslocalizados, como existe para os ministros, ajudas de custos”, começa por sublinhar a docente que acredita estar a dar a voz por muitos colegas.
“Estou a dar a voz por esta situação e a representar muitos colegas, espero não ter consequências”, afirma Susana Duarte, lamentando que muitas colegas já tenham desistido da profissão. “Conheço muitas colegas que tiveram de deixar o ensino. Foram para empresas de peças, por exemplo, horários certos, sem deslocações, sem ouvir comentários de encarregados de educação”, conta, destacando que o professor “tem vindo a perder poder”.
“Não temos autoridade sobre eles, qualquer ação tem de ser pensada várias vezes, porque podem vir consequências maiores, os encarregados da educação vêm à escola confrontar-nos”, assume Susana Duarte.
Da Pampilhosa até à Meda é um saltinho ou 177 quilómetros
É mais uma viagem para a professora Susana Duarte, que desde 2004 lutava por ficar vinculada ao Ministério da Educação. Este ano consegue e pela primeira vez, ficar perto de casa, do Fundão para a Covilhã, muito menos quilómetros, do que no ano letivo passado, em que conseguiu horário em duas escolas, Mêda e Pampilhosa da Serra, 177 quilómetros de distância.
“A nossa vida não é fácil, no início da minha carreira, sempre com horários incompletos, fiz um part-time de 11 anos para a Sonae. E nunca desisti da carreira, gosto de ensinar. Faço de tudo também para estar presente na vida dos meus filhos”, explica sobre a conciliação do trabalho com a vida pessoal.
O carro novo que comprou em 2018, e que está a pagar, já tem 180 mil quilómetros. “Faço revisões de dois em dois meses e mudo de pneus constantemente. Espero que o Ministro se coloque no terreno, a escola pode estar a 30km, mas é curva contracurva ou atrás de serra e em vez de demorarmos 30 minutos, demoramos uma hora. Mêda podia parecer próximo de Pampilhosa da Serra, mas não é”, adverte.
Crianças nos quartos arrendados? Nem pensar
Terminou o curso em 2004, e com 44 anos, só neste ano que se inicia, vinculou. Ainda não está estável, garante, e na história de vida desta professora, está também na memória a dificuldade em arranjar quarto onde pudesse permanecer com os dois filhos menores.
Em Loures, por exemplo, há três anos, teve de insistir.
“Foi a segunda vez que tive de levar os meus filhos. Procurei sempre um espaço em que os meus filhos se sentissem em casa. Era uma cama de casal e eu tive de pedir à dona da casa para arranjar um colchão mais pequenino que não tinha estrado, nem a espessura necessária. Eu dormia com a minha filha com 8 anos, e o meu filho, 11 anos, um pouco mais crescido, dormia no colchão, no chão. Pagava por aquele quarto 350 euros, sem recibo verde e vivia com a dona da casa. Se um professor tem filhos é um problema arrendar quarto, eu dizia sempre que era eu mais duas crianças, e não queriam porque perturbavam o ambiente. Há senhorios que não nos permitem levar os filhos. Vi-me sempre complicada para arranjar quarto para os meus filhos. Depois de me apresentar nas escolas ia sempre a chorar para casa”, recorda, emocionada, Susana Duarte.
Já teve outros trabalhos em part-time, para fazer face às despesas, e apesar de finalmente estar vinculada, Susana Duarte não acredita que possa respirar de alívio.
“Tenho agora a sorte de estar perto de casa, mas para o próximo ano letivo, provavelmente vou ter de concorrer para todo o país, se o Governo não mudar o que decidiu neste ano letivo. Quem entrou na vinculação dinâmica vai ter de concorrer a todo o país”, alerta a docente.
Susana Duarte recusa desistir da profissão, mas admite que tem sido uma aventura. “Quando entro na sala, esqueço a minha realidade, vi-me e desejei-me para aqui chegar. Conheço o nosso país e conheço todos os miradouros e passadiços. Mas espero que agora acalme aos 44 anos, já preciso de um bocadinho de paz e serenidade na vida. Já chega”, desabafa.




13 comentários
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Não é caso único. Eu tenho estado a 400 e 500 km da morada fiscal. Habituei me a tentar arranjar casa sempre que possível perto da escola.
Quem paga o gasóleo e o desgate do carro? Abrem os olhos enquanto não houver apoio financeiro para deslocação e estadia, CONTRATADOS deste país não concorrem! Não se sujeitem ao mediocre nem à vossa família que acaba por levar por tabela as consequências das vossas decisões . Exigem condições dignas ou não há aulas! O Sistema Educativo sem os contratados NÃO FUNCIONA!!! Então se os contratados são indispensáveis, estes devem ter condições para terem uma vida digna! Unidos têm a FORÇA capaz de mudar isto!
O amor não vence tudo.
À custa de ficar colocada longe de casa… divorciei-me! E conheço mais casos que não aguentaram anos e anos longe!!!
Já não há paciência para este tipo de discurso. Continuam a insistir neste miserabilismo tão tipicamente portuguesinho. Felizmente, o título poupou-me à sua leitura.
Com todo o respeito mas a sua situação não vai acalmar aos 44 anos como desejava pois se vinculou pela dinamica a sua aventura começa agora …esse é o problema
Tanta discriminação! tanta injustiça! Tanto sofrimento em silêncio estes anos todos. Coitados.
Os sindicatos deviam pôr a Maria de Lurdes Rodrigues, Isabel Alçada, Nuno Crato e o outro tonto de quem já nem me lembro o nome, e agora a este ministro uma ação reparadora, de indemnização por danos psicológicos, morais e económicos nos tribunais europeus. Por aqui a” justiça” só existe para os que a podem pagar a advogados famosos e malabaristas.
Tribunal europeu com eles!
Deixem as escolas/agrupamentos contratarem os seu professores, tal como fazem as universidades, e acaba-se com esse problema.
É verdade, veja-se nos colégios, acaba-se o problema onde começa a cunha, o compadrio, a escravidão e a falta de democracia. Na sua perspetiva o salazar resolvia todos esses problemas e impunha medidas fantásticas para a sua resolução, como aquela medida em que os professores tinham de pedir autorização ao estado para casarem.
Santa paciência…
Seria o ideal as Escolas contratarem diretamente os docentes e até propô-los a efetivação mas infelizmente neste pais onde a Ética não impera seria um desastre. Mesmo agora em OE houve alguns horários feitos à medida para os “amiguinhos” com 0 ( zero) tempo de serviço, ou seja, nunca deram aulas e ficaram colocados apesar de existir outros candidatos com tempo de serviço e não publicaram a lista de ordenação.
Em tudo na vida temos que pesar as prioridades… Eu compreendo o que é fazer esforços e também já fiz muitos pela profissão, mas pela profissão sacrificar filhos, a meu ver é das maiores estupidezes.