Vender a Alma ao Diabo…
Quando a solidariedade é ilusória e efémera, ninguém se importa de vender a Alma ao Diabo…
Quando a luta se torna séria, vende-se a Alma ao Diabo…
Quando a luta se torna séria, a solidariedade desaparece e vende-se a Alma ao Diabo…
Quando a luta se torna séria, olha-se para o lado, ignora-se quem a trava, a solidariedade desaparece e vende-se a Alma ao Diabo…
Quando a luta se torna séria, ninguém quer ser associado a quem a trava, a solidariedade desaparece e vende-se a Alma ao Diabo…
Quando a luta se torna séria, quem a trava passa a ser visto como um leproso, a solidariedade desaparece e vende-se a Alma ao Diabo…
Quando a luta se torna séria, deixa de haver “amigos”, a solidariedade desaparece e vende-se a Alma ao Diabo…
Quando a luta se torna séria, ninguém arrisca comprometer-se com apoios públicos, a solidariedade desaparece e vende-se a Alma ao Diabo…
Quando a luta se torna séria, prevalecem os interesses pessoais, a solidariedade desaparece e vende-se a Alma ao Diabo…
Escusamos ter ilusões: na realidade, a solidariedade nunca existiu…
Escusamos de ter ilusões: no nascimento, na morte e no confronto com Direcções está-se, efectivamente, sozinho…
E é fundamental ter consciência disso…
Coitados dos que ainda se deixam enganar, acreditando que seja possível observar-se, em algum momento, a solidariedade dos seus pares…
Os pares preferem, quase sempre, vender a Alma ao Diabo…
Claro que esses mesmos pares também serão, provavelmente, alguns dos que, na próxima Manifestação em que participem, registarão todos os momentos, publicando muitas fotografias nas redes sociais…
“Reparem na minha rebeldia”, talvez queiram afirmar… Mas no dia seguinte estarão prontos para voltar à escola e obedecer escrupulosamente a todas as ordens e, até, em alguns casos, para voluntariamente, ir além das mesmas…
E nem as Férias que se aproximam, ajudarão a esquecer tamanha falta de coragem e de pensamento crítico…
Afinal, talvez dê muito menos trabalho obedecer e remeter-se ao conformismo…
A hipocrisia parece não ter fim…
Lutar de forma séria não é para cobardes…
Este “desabafo” é dedicado à Professora Anabela Magalhães, que não conheço pessoalmente, mas a quem reconheço uma enorme tenacidade, muita coragem e uma assinalável recusa em vender a Alma ao Diabo…
“No Inferno, os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempos de crise moral”…
(Discurso de John Fitzgerald Kennedy em Berlim Ocidental, Junho de 1963, aludindo a Dante Alighieri)…
Sei muito bem qual é o preço a pagar pela recusa da neutralidade e pela luta, explícita e assumida, contra um certo Poder discricionário, pautado por atitudes persecutórias e retaliativas… Mas remeter ao silêncio seria ainda pior…
Jamais me arrependerei de o ter feito… Em 2007, também fiquei sozinha, mas acabei por vencer…
Sim, já passou muito tempo, mas há coisas que nunca se apagarão da memória de quem as viveu…
Estou contigo, Anabela Magalhães.
(Paula Dias)




4 comentários
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Excelente análise! Partilhada!
Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.
Brecht
Não é de Brecht. O texto é erradamente atribuído a Brecht.
Toda a gente conhece o poema, erradamente atribuído a Brecht, que começa com o verso «primeiro levaram os comunistas». Há versões, também elas assacadas a BB, principiando com um «primeiro levaram os negros». Todavia, a versão mais conhecida – «Primeiro levaram os judeus, // mas não falei, por não ser judeu. // Depois, perseguiram os comunistas, // Nada disse então, por não ser comunista. (…)» – foi publicada em 1933 e é da autoria de Martin Niemöller, o pastor luterano alemão antinazi que um dia interpelou pessoalmente Hitler e por isso pagou elevado preço.
Existe ainda uma versão do poeta brasileiro Eduardo Alves da Costa, erradamente atribuída a Vladimir Maiakovski…
Não é de Brecht. O texto é erradamente atribuído a Brecht.