Uma árvore não faz a floresta- Carlos Santos

É recorrente virem para as redes sociais levantarem suspeitas sobre colegas, umas vezes pela mobilidade por doença, outras por colocações, outras por horários, outras…
Tão português este clima de suspeita. Tivessem essa coragem de afrontar de forma dura governos que nos têm roubado dinheiro e direitos, criado injustiças entre professores, humilhado e abusado de todos nós, isso seria de louvar. Mas, como interessa mais andarem entretidos com a bola, novelas e reality shows em vez de lutarem, preferem vir para a internet acusar e levantar suspeitas, sem provas, sobre outros colegas.
Uma classe autofágica que, na ausência de coragem de lutar contra quem nos tem afetado a todos, anda por aqui escondida atrás do anonimato proporcionado por um ecrã, a atacar outros colegas, levantando suspeitas e fazendo aquilo que o governo quer – pôr professores contra professores.

Levantam-se suspeitas sobre a veracidade das situações clínicas de Mobilidade por Doença, pondo em causa o trabalho clínico que o atesta, assim como as vidas pessoais que só a cada um diz respeito.
O caso da minha esposa (28 anos de carreira), com rutura total de ligamentos do joelho, com dores de coluna que vão aparecendo de ano para ano que a vão obrigando a fazer fisioterapia e, por mais que os médicos considerem que não devesse andar diariamente a fazer cerca de 70km ao volante, reconhecem nada poderem fazer para que possa beneficiar de MPD perante as doenças consideradas incapacitantes numa legislação desadequada que remonta a 1989. E como ela, tantos outros professores que se vão arrastando durante toda a carreira.
Tantos colegas que têm problemas reais, físicos e psicológicos que não pedem ou não têm direito a MPD. Alguns autenticamente dopados nas aulas, que não dizem coisa com coisa e que ali andam, mas com esses, ninguém se preocupa. Outros com filhos ou pais doentes e que ainda não pediram MPD. Com tantos colegas com doenças graves a serem enviados para as escolas, com cancros, a suicidarem… e pouco ou nada se diz numa classe que é muito mais expedita a criticar do que a defender.
Que não haja reconhecimento por parte da tutela e da sociedade do nosso esforço e desgaste profissional, já estamos habituados. Agora, este crescente atirar de pedras entre professores começa a ser excessivo e deplorável.

Preocupem-se, isso sim, em reivindicar para todos nós, aquilo que é da mais pura justiça, como:
-encurtar a nossa carreira, por ser considerada de elevado desgaste psicológico devido à enorme exigência intelectual e emocional que acarreta, além do desgaste físico das décadas a que somos obrigados a percorrer estradas causando mazelas físicas;
-à imagem do que acontece em alguns países, exigir que, ao fim de alguns anos de serviço, se limite o número de quilómetros no raio de colocação dos professores;
-limitar o trabalho letivo atribuído os professores a partir de certa idade;
-repor o tempo de serviço arduamente cumprido e que nos foi roubado e o respetivo reposicionamento na carreira [em vez de andarem a criticar os colegas que, justamente, foram colocados nos devidos escalões; o problema não é o que lhes fizeram a eles (nossos colegas), mas o que nos estão a fazer a nós retirando o que é nosso por direito];
-comparticipar a formação que somos obrigados a fazer durante a nossa vida profissional;
-tanto para reivindicar e anda-se de bico calado…

Em vez disso, como são uma classe cada vez mais conformada e medrosa, vêm para as redes sociais perderem-se em fait-divers, levantando um clima de suspeição sobre todos, perdendo-se em críticas sobre a forma como cada um escreve (muitos deles limitados pelo uso de um telemóvel), fazendo o trabalho que os governos querem.

Claro que haverá fraude, tal como em todas as profissões (o ensino não é um mundo à parte), assim como haverá professores que também são uma fraude a trabalhar. Mas há de tudo como em todo o lado, a começar pela nossa classe política fraudulenta e corrupta. Mas não é com a insistência até à exaustão este género de atitudes que vamos a algum lado. Se há provas de alguma coisa, é comprovar e utilizar as vias legais para o denunciar, em vez de vir para aqui atiçar a suspeição sobre tudo e sobre todos.
Coitados dos colegas que estão realmente mal (e que dariam tudo para voltarem a ter saúde) e que, ainda, são obrigados a escutar tanta verborreia que por aqui se dissemina. Tantos dramas familiares e tanto professor no limite à beira do desespero a ter de levar com toda esta má-língua em cima.

Cada vez mais me convenço de que o maior problema que nos tem arruinado enquanto classe, não foi obra dos governos, nem dos sindicatos, mas, sobretudo, dos próprios professores, fruto desta desunião constante, desta cobiça, desta crítica fácil entre si.
É todo este sentimento de mesquinhez, inveja, suspeita e maledicência gratuita, que nos tem prejudicado a todos enquanto classe.
Tomados pela cobardia, somos muito mais lestos a apontar o dedo uns aos outros do que em afrontar a tutela pelas enormes barbaridades que nos tem imposto nos últimos 16 anos.

Carlos santos

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6 comentários

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    • Maria Silva on 15 de Julho de 2021 at 10:03
    • Responder

    Já não é o que era!…

    É a luta pela sobrevivência….
    Cada vez será pior, a solidariedade desapareceu.
    Noutras profissões com menos qualificações, as pessoas são mais solidárias.
    Cada um por si….

    • weewr on 15 de Julho de 2021 at 10:08
    • Responder

    Sou professor com 24 anos de serviço vinculado a um agrupamento de escolas. A minha esposa é professora contratada com 20 anos de serviço e a muitos km de casa. No meu tempo de estudante os professores eram um exemplo para a sociedade, bem vistos por todos e alguém que toda a comunidade respeitava. Atualmente a nossa profissão passou a ser olhada de forma completamente diferente. E porque será? Não tenho dúvida nenhuma, por culpa nossa! Falta de profissionalismo, ganância, laxismo, imoralidade, ….abuso.
    Tanto eu como a minha esposa nunca colocamos sequer a possibilidade de concorrer em mobilidade por doença, porque, graças a Deus, não temos problemas de saúde. Atualmente temos colegas a concorrer em mobilidade por doença estando colocados a 10 km de casa e sem terem qualquer doença!!! É lamentável! E o que vai fazer o MEC? Prejudicar os alunos, esses professores vão ficar colocados em escolas sem componente letiva para eles, logo vão ter que gastar crédito impedindo os alunos de usufruir de apoios essenciais.
    E porque não o MEC ordenar inspeções rigorosas e castigar exemplarmente os abusadores??

    • Susana on 15 de Julho de 2021 at 10:21
    • Responder

    Ora, nem mais…

    Um dos docentes que merecia ser investigado é o próprio autor deste post, Rui Gualdino Cardoso, que há anos beneficia de MPD para fugir ao qzp 1 e aproximar-se da sua residência.
    Quanto à doença dele ainda não tem aceitação pela OMS…. chama-se preguicite e ambições políticas…

    Fica a verdade!

      • Mirtha on 16 de Julho de 2021 at 6:53
      • Responder

      Coitados daqueles q a rodeiam… Vc não presta mesmo… Como pode um exemplar destes estar no ensino!?! Como alguém pode ter a moral de transmitir valores e ser uma mal-criada pura e dura!?! Lhe faltou umas boas palmadas a tempo e horas nesse rabiosco!!! Shame on you!!!

  1. Parabéns pelo texto que reproduz exatamente o que penso e sinto. Apesar dos meus quase 66 anos e de ter que me reformar
    no 4o escalão, (com 33 anos de serviço e obter excelente) se não sair da lista este ano, considero que temos que ser exigentes e criativos, persistentes com quem nos colocou neste pesadelo de carreira m vez de nós colocarmos contra colegas que não têm culpa de estarmos mal. A classe está acomodada e anestesiada, facto para o que o governo trabalhou com sucessivas e eficazes estratégias e nós, como bichinhos fiéis e amestrados obedecemos e ainda nos pomos uns contra os outros. Entretanto Tiaguito e João Costa batem palmas pelo seu sucesso e estão tão bem vistos pelo governo que, enquanto uns saem, eles ficam.

  2. ABSOLUTAMENTE CORRECTO.

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