Os duplicados do voo Paris-Nova Iorque e as duplicadas políticas educativas – Paulo Prudêncio

Por vezes, dá a sensação que haverá fenomenais que ainda não estão ao alcance da ciência.


Os duplicados do voo Paris-Nova Iorque e as duplicadas políticas educativas

 

Antes de mais, a actualidade, com mais uma vaga de casos de corrupção, exige recordar que Portugal tem uma posição média na história das nações que falham. Não sejamos pessimistas. Somos Europa. Isso ajuda nestas hierarquias, embora o mundo pré-pandemia desse sinais da transformação do velho continente num museu a céu aberto para o turismo planetário. Mas a média será a fatalidade portuguesa. Adequa-se ao que existe. Depois de três décadas de numerosos fundos estruturais, vinte por cento da população vive na pobreza, a nação ocupa o último lugar europeu na conclusão do ensino secundário e o primeiro lugar (Teachers in Europe: Careers, Developmente and Well-being; Eurydice Report, Março 2021) na sobrecarga de inutilidades administrativas dos professores quando a falta estrutural destes profissionais se agudiza.

Mas já se sabe: argumentar-se-á que podia ser pior e que o destino das desigualdades também se impôs ao longo da história. Por vezes, dá a sensação que haverá explicações fenomenais que ainda não estão ao alcance da ciência. Vi uma qualquer luz ao fundo do túnel das explicações quando me chegou às mãos o desconcertante e absurdo romance “A Anomalia”, de Hervé Le Tellier (Prémio Goncourt 2020).

Repare-se na trama. Um acontecimento estranhíssimo mudou a vida de centenas de pessoas dum voo Paris-Nova Iorque. O avião que aterrou em 21 de Junho de 2021, era o mesmo que aterrou em 21 de Março de 2021. Para além do avião, coincidiam os meta-dados e um fenómeno atmosférico desconhecido antes da aterragem. Mas mais: as pessoas que vinham no avião eram as mesmas. Ou seja, 200 e tal humanos duplicados e um alerta máximo nas nações mais poderosas. A imediata investigação das altas instâncias dos EUA confinou todos: originais e cópias. Desde logo, nomeou-os como, por exemplo, Maria Março e Maria Junho ou José Março e José Junho. Claro que ambos conheciam toda a vida do duplicado, com uma excepção: a Maria Junho desconhecia o que se passou entre 21 de Março e 21 Junho com a Maria Março.

E foi esse hiato que me levou a relacionar os duplicados com as duplicadas políticas educativas. Designemos os duplicados amnésicos (os de Junho, recorde-se) como DA e usemos casos inteligíveis.

Como se sabe, as turmas numerosas mantêm-se. Claro que o fenómeno DA explica essa imutabilidade de forma simples. Quem toma posse, desconhece o exercício do DA antecessor e duplica a política. A falta estrutural de professores é outro exemplo óbvio. Para além do lugar cimeiro europeu na burocracia ou do afastamento dos alunos do secundário das Letras, Artes, Humanidades e Ciências Sociais, contribuem factores mais do que conhecidos: carreiras precárias, avaliação kafkiana e autocracia na gestão das escolas. Mas como são políticas aplicadas depois do voo inaugural para o caso português, algures na primeira década do século XXI, não se poderá exigir que os DA intervenham em matérias desconhecidas e não dupliquem as políticas.

Mas será legítima a interrogação: sendo assim, os DA não governam? Claro que governam. Não só governam, como até desviam a mediatização do essencial. Governam com a variante lusitana (VL), que faz com que os DA dupliquem inutilidades (não são as da “Utilidade do Inútil” de Nuccio Ordine, note-se) como se fossem políticas essenciais e alternativas.

Expliquemos com dois exemplos da actualidade. Em meados do século XX, o universo escolar percebeu que as aprendizagens não se remetiam ao inscrito nos programas escolares. Por isso, nasceu o abrangente conceito de currículo com a menção das aprendizagens essenciais que se sistematizou já no século XXI. Lá está. Essa progressão só não se tornou inquestionável para os sucessivos DA da VL que desenvolvem uma repetição circular de equivalências que designam por batalha entre metas curriculares e aprendizagens essenciais. Algo de semelhante ocorre na transcendente contenda entre cidadania como disciplina ou transversal. São processos amnésicos infernais, com inúmeros procedimentos burocráticos inúteis. E assim também se explica a burocracia dos professores, a “fuga” à profissão e a posição média do país no indicador referido inicialmente.

E é evidente que o fenómeno dos duplicados amnésicos parece caracterizar o universo, muito mais abrangente, dos tais casos de corrupção. O Le Point terá lido bem o romance de Hervé Le Tellier: “A Anomalia trata da realidade contemporânea. Manipulação, brutalidade, jogos de influências, serviços secretos, histórias de amor e vigilância tecnológica. O romance é sobre a verdadeira anomalia do mundo actual – literalmente absurdo e desequilibrado.”

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