A juventude, sempre a juventude, em pleno período estival, entretêm-se há 20 anos a pichar as paredes de Vila Nova de Milfontes com imagens de índole sexual.
É caso para dizer: e só agora é notícia? Mas continuemos. Entenda-se por imagens de índole sexual falos do comprimento de paredes inteiras, os mesmos falos desenhados no quadro à chegada à sala de aula em inúmeras manhãs, tantas como as turmas e os anos de ensino às costas. E os alunos a rir.
Porque a juventude, sempre a juventude, precisa de atenção. Independentemente da sua origem social ou económica. Porque, e por incrível que pareça, a juventude precisa de se sentir parte de algo, idealmente uma família, a segurança de um lar onde o afecto anda de mãos dadas com a educação, longe de preconceitos e juízos de valor, longe da rua e das centenas de jovens responsáveis por anos de danos e distúrbios em todas as Vilas Novas de Milfontes deste mundo.
Convenhamos, a existirem responsáveis pelas pichagens ordinárias, esses responsáveis são os pais e são as mães, são as famílias e tudo o que dentro das famílias se passa para levar a que, num sopro de liberdade, centenas de jovens descarreguem nos outros, nos inocentes, a fúria, os sentimentos, as frustrações e abusos, a violência de anos, a rejeição, a ausência, a solidão, a falta de apoio, de carinho, um abraço que seja, uma palavra amiga, a distância do pai, o silêncio da mãe, o desamparo. A criança, quando nasce, nasce predisposta ao amor. Tudo o resto advém da aprendizagem. E o jovem aceite incondicionalmente nunca terá a necessidade, a vontade, o desejo, o sonho ou o desejo sequer de destruir, partir, pichar, insultar, agredir. Não está, não pode estar nem alguma vez estará na sua natureza.
Coloquemos então a questão: onde estão os pais destes jovens? O que lhes aconteceu? O que aconteceu aos pais destes jovens? E estarão os mesmos capacitados para educar, explicar o porquê do respeito mútuo mais a necessidade premente de viver em sociedade e a razão de viver em sociedade se queremos sobreviver e progredir como espécie? A pergunta começa a ser repetitiva, e por repetitiva também preocupante: que sociedade queremos para o futuro? E que investimento, ou falta dele, tem ocorrido na educação deste país ao longo dos últimos 47 anos para chegarmos a este ponto onde a liberdade não é senão a liberdade de agredir gratuitamente? A resposta? A resposta começa pelo ignorar do comportamento. Com humor: “Pichaste a parede? Muito bem. E parabéns, o falo está excelentemente bem representado, com testículos e tudo! Mas, e agora a sério, o que é que se passa? Desculpa (porque é preciso pedir desculpa) se não estive aqui para ti, se porventura não estive presente. Mas agora estou e igualmente peço desculpa por ter sido preciso chegar a este ponto e se alguém deve ter vergonha pelo que aconteceu esse alguém sou eu. E eu, neste momento, preciso da tua ajuda.” A resposta passa por parar, parar tudo antes que seja tarde demais, para ouvir o jovem cujo comportamento não é senão um pedido de ajuda. E começar de novo. Não é complicado. É uma questão de hombridade. De honestidade e admissão do erro. Do nosso erro quando todo o comportamento é uma mensagem, mensagem essa tão ruidosa como a dor que vai no peito de quem ainda é demasiado novo para deitar cá para fora todas as palavras. E por não ser complicado, mãos à obra. Caso contrário, meus caros, o tamanho do falo será apenas o princípio e eu não quero cá estar para ver o fim.




3 comentários
Excelente texto, como eu me identifico em todas as palavras escritas.
Enquanto mãe e professora.
Muito obrigado!
Desde o tempo da arte rupestre , os autores destas gravuras murais, aparentemente espontâneas, usam este tipo de comunicação não verbal para expressar uma desejo pessoal ou coletivo de aquisição de um determinado objeto para consumo próprio ou da sua comunidade… Há coisas que nunca mudam.
O articulista referiu apenas uma perspectiva da questão, senão vejamos:
Se bem que é amplamente consensual que a Educação deva ser dada em primeiro lugar no seio familiar, como muito bem foi referido no artigo, também é verdade que, em grupos de adolescentes, o efeito de “manada” ou de “tribo” contribui excessivas vezes para comportamentos altamente censuráveis, aos quais nem os filhos bem educados são imunes.
Na sociedade contemporânea é difícil ser-se um bom pai/mãe, pois os nossos rebentos não são criados em redomas de vidro ou em estufas assépticas, isolados do Mundo que os rodeia e entra pelos lares a dentro com a facilidade que as actuais tecnologias propiciam. A vigilância pelos progenitores aos seus rebentos nunca foi tão difícil de realizar como nos dias de hoje. Particularmente quando tem de se monitorizar os grupos e as companhias com quem os nossos filhos andam.