O CONHECIMENTO-FANTASMA

 

Segundo Merleau-Ponty, os objectos só existem para nós por meio da afectividade, ou seja, é necessário que sejam reconhecidos por alguém como valiosos para sequer existirem.

Um dos problemas com que quase todos os professores se confrontam no início dos anos lectivos (e também no decorrer dos mesmos) é saber como responder à pergunta (explícita ou envergonhada) dos alunos: para que serve isto? Na verdade, não se devia avançar para o que quer que seja antes de tentar responder, com os alunos, à questão lançada — ou, ainda melhor, sem que antes se tenha devolvido essa interpelação inaugural aos interessados. E não por outra coisa senão por esta, muito simples: por ser este interesse o ponto de partida para qualquer verdadeiro conhecimento. Se se quebra este frágil fio de ligação entre a criança ou o jovem e aquilo que vai tomar o seu tempo de vida durante vários meses, adeus aprendizagem.

O que Merleau-Ponty nos diz com a sua tese quase inocente é que os conhecimentos disciplinares, à partida, são para muitíssimos alunos neutros (inexistentes: mas não porque os alunos não tenham qualquer noção prévia dos temas — preconceito quase sempre falso —, mas porque a atenção não se deteve ainda o tempo suficiente sobre eles para criar um interesse específico). Acontece, porém, que a introdução abrupta aos temas ou o retorno ressentido aos mesmos (ex.: alunos com más classificações no ano anterior a determinada disciplina de continuidade) apresentam os conhecimentos-a-haver da disciplina não como neutros mas como imposições. Ou seja, antes mesmo de qualquer afectividade poder estabelecer vínculo positivo de adesão com o tema a trabalhar — ou, havendo uma rejeição afectiva (como no caso de más classificações anteriores), antes de se tentar restaurar o vínculo de uma nova experiência, desta vez positiva — o conhecimento-a-haver impõe-se como dever, isto é, como uma “existência” não procurada, antes invasiva.

Neste quadro de relação, dificilmente o conhecimento-a-haver se afigurará para o jovem aprendiz como “corpo atraente”. Como a curiosidade não foi previamente activada, a incorporação existencial do conhecimento é rejeitada como se de uma violação (obrigação, diz o aluno, benevolamente) se tratasse. Alguns rejeitarão liminarmente essa imposição: “não querem aprender” diz-se nas salas de professores. A maioria, porém, melhor ou pior, porque se habituou a considerar que as notas são necessárias, aceita o sacrifício de “tirar notas” tanto quanto possível positivas, “estudando” mais ou menos para os testes e exames que, supostamente, testemunhariam o saber (a aquisição de conhecimentos). Sabemos que geralmente não testemunham, que apenas testemunham a apreensão superficial de noções vagas, não incorporadas no tecido existencial e afectivo de quem tinha a beneficiar com eles. Ou seja, não é conhecimento o que fica: são fantasmas que se aturam enquanto é forçoso lidar com eles, mas que, assim que de novo a vontade se torna senhora de si, os repudia e os esquece.

Mas, se assim é, são demasiadas horas das vidas dos professores e das crianças e jovens aprendizes que são deitadas fora. É demasiada a perda para não se fazer nada. Por que não se pára então com a farsa do saber-fantasma e, com coragem, tempo e paciência, não nos dedicamos (adultos e jovens) àquilo que é esperado fazer-se numa escola: aprender? Mas para tanto talvez seja necessário, de uma vez por todas, enfrentar (ou ignorar!) o dogma do cumprimento de Programas (ou, o que vem a dar no mesmo, o dogma das Aprendizagens Essenciais), acusando-o por ser o principal inimigo do verdadeiro saber…

Entender assim o saber teria consequências ao nível de tudo, incluindo a extinção de exames? Pois teria. Venham elas! De que temos medo?

 

Paulo Carvalho

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13 comentários

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    • maria on 3 de Julho de 2021 at 11:21
    • Responder

    Conhecimento? Isso dá muito trabalho! Para quê … se a passagem de ano está assegurada, diz o cábula do aluno.

    Com muitos professores passa-se o mesmo (viva o ECD) : para quê valorizar-me se tenho o dinheirito garantido e a subida de escalão assegurada – seja Licenciado ou “licenciado” ; seja doutor ou possuir o ensino básico ; domine, em profundidade, o conhecimento específico ou fique pela rama; domine com mestria a Língua Portuguesa ou tropece numa simples acta ou “relatório” .

      • Pensador on 3 de Julho de 2021 at 18:17
      • Responder

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      Cara maria,

      Veja este caso paradigmático da dita “Carreira Unica”

      Conheço uma BÁBÁ (ex-Ama, agora educadora das infâncias) licenciada por uma dessas Tascas e/ou ESEs que chegou ao 10º escalão com um vencimento de 3.374, 72 Euros por Mês + Subsidio de Alimentação + Cartão da ADSE…… esta menina outro diaa disse-me que tinha um mestrado tirado em Fafe numa Tasca Privada.

      Eu perguntei de forma inocente se era um mestrado em “Mudança de Fraldas” ou “Como rapar a Merda das Fraldas” ou coisa equivalente….

      E dizem alguns energumenos que existe falta de professores!…eu rio-me á fartazana……o que há EXCESSO de PROFESSORES e de candidatos a este FORROBODÓ………….

      Tudo isto é fruto da ABRILADA e ainda não acabou.

      Com a “Carreira Unica” os mais prejudicados são aqueles que possuem Cursos Universitários e que Lecionam o Ensino Secundário e que se viram metidos nesta dita “Carreira Unica”…nes Javardice….neste NOJO!….

      Acrescento que existe no Setor Privado gente de Muita qualidade com formação Universitária e que não ganham Mensalmente metade daquela BÁBÁ que muda fraldas e ensaca quase 3.500,00 Euros por Mês.

      Isto é uma Javardice do pior que se viu….só neste País onde os resquicios da ABRILADA ainda subsistem….

      VERGONHA!…NOJO!….

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      ……………………………………………………..

        • Zoroastro on 3 de Julho de 2021 at 21:12
        • Responder

        Caro “pensador”
        Pela finura do seu texto e pela pertinência do conteúdo, calculo que tem Doutoramento em dor de cotovelo.

          • Pensador on 4 de Julho de 2021 at 11:12

          ………..
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          Caro Zarolho

          eu tenho Doutoramento em colocar os dedos na ferida e em denunciar a JAVARDICE que vai na dita “Escola Pública”.

          Acabar com a dita “Carreira Unica” é um designio para melhorar aquilo que ainda designam de escola publica e que eu designo de BANDALHEIRA PUBLICA ou Latrina a Céu Aberto.

          Isto vinha a propósito da suposta falta de professores. Podem vir a faltar professores, mas não são com toda a certeza as BÁBÁS/AMAS (agora educadoras das infancias), professores primários, professores do 910 – especialistas na Tanga Especial e professores de ginástica. Esta gente há aos Montes e candidatos a Mamar nas Têtas do Estado (digo, CONTRIBUINTES) tambem ha ás Montanhas.

          O que pode vir a faltar são pessoas com Cursos Universitários (a sério) e que poderiam lecionar disciplinas do Ensino Secundário porque não estão para se misturar numa dita Carreira Unica que é, como disse, uma Latrina a Céu Aberto.

          O governo parece que ja detetou que grande parte dos candidatos a sitôres e sitôras da dita escola publica não tem o minimo de vocação para a coisa, apenas tem é sentido de oportunidade de Mamar nas Têtas do Estado com o minimo de esforço possivel. Tira-se um Curseco de 3 anitos numa ESE e/ou Tasca Privada e vai-se para a dita escola publica com ordenado garantido ao dia 23 de cada mês. Porreiro Pá!…..

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          • Zoroastro on 4 de Julho de 2021 at 12:29

          O Camões era zarolho, mas era um grande português!
          Conseguia ver melhor ele sem um olho, do que o “pensador” com os três….

          • maria on 4 de Julho de 2021 at 12:52

          Caro Pensador

          Não posso estar mais de acordo com o que diz. Com essas, ou com outras palavras. Para o caso, dá igual.

          • Pensador on 4 de Julho de 2021 at 13:05

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          Carissimo Zarolho

          já não tenho os três desde os nove anos de idade, altura em que dei uma valente queca numa matrona.
          Por isso, não vejo com os três olhos, penso apenas com a cabeça da pissa pois fica mais rápido para enrabar zarolhos (alguns deles sitôres da dita Bandalheira Publica).

          Iniciei-me cedo e ainda hoje quando trespasso os portões da escolinha gosto de conhecer o Estado da Arte.

          ………………
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  1. Finalmente, alguém que põe o dedo na ferida (supondo que a ferida está no seu próprio buraquinho traseiro)!
    Ó homem, sabe o que é uma criança ou adolescente na sociedade de consumo actual, subordinada ao imperativo da gratificação imediata e do entretenimento? Por que é que os putos passam horas a eito a jogar estúpidos jogos no telemóvel (em casa, e também nas aulas, seja em período de E@D ou não)? Será que os joguitos activam uma “incorporação existencial”, ao passo que os conteúdos escolares não? Por que é que, quando o docente desenvolve uma actividade introdutória, que deveria funcionar como estímulo, os alunos desligam?
    Os alunos, ó Paulo Carvalho, são crianças e jovens, isto é, seres que NÃO são autónomos. A função da escola, ao introduzi-los num universo de saberes que exigem descentramento, a suspensão dos interesses próprios e imediatos, é criar as condições para uma AUTÊNTICA autonomia.
    A maior parte dos professores precupa-se em estimular os alunos, em despertar o seu interesse pelas matérias. Acontece é que se trata do tipo de interesse que é estruturalmente diferente, mesmo oposto, àquilo que é o campo de objectos de entretenimento que têm constantemente à disposição, fruto também da falência das funções parentais.
    Na sua cabecinha desonesta, ou simplesmente estúpida, as condições institucionais da acção educativa, desde o número de alunos por turma à estrutura organizativa das escolas, não são sequer equacionadas.
    Quanto à ignorância a respeito do teor do pensamento do fenomenólogo francês, não me vou pronunciar, pois é óbvio wue “testemunha a apreensão superficial de noções vagas”, e nada mais.

  2. Ó Paulo Carvalho, do Merleau não percebes a Ponty de um corno!

    Vai cantar “Os meninos à volta da fogueira”, que sempre fazes melhor figura!

    Dixit.

    • Alecrom on 3 de Julho de 2021 at 18:52
    • Responder

    O conhecimento fantasma.
    Os sindicatos fantasma.
    A democraticidade fantasma.
    As pedagogias fantasma.
    A coligação fantasma.
    A pré-reforma fantasma.
    A progressão fantasma.
    Os aumentos fantasma.

    Também há a asma.

    • Isabel Sousa on 3 de Julho de 2021 at 19:19
    • Responder

    Tenho um exemplo no meu agrupamento. Um professor primário formado por uma ESE privada com um curseco de 3 anitos tirado sabe-se lá como. Está no 7º escalão e pronto para seguir até ao 10º.
    Conheci um rapaz com Doutoramento por uma Universidade Publica e que é Contratado como Professor do Ensino Secundário.
    Está tudo dito.

  3. Sinto vergonha pelo nível dos comentários. Opiniões mais ou menos desalinhadas não podem manter a cordialidade, civilidade e elevação?

      • Zoroastro on 5 de Julho de 2021 at 19:56
      • Responder

      “Pensador”
      Se ao menos falasse mal mas em bom português, ainda, ainda…
      O pior é que fala mal e em péssimo português….
      Percebe-se por que é que sabe tão pouco sobre a escola, deve ter lá andado muito pouco tempo…

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