A insustentável “lotaria” dos Exames Nacionais…

 

Acredito que a variável que mais influencia e determina os resultados obtidos pelos alunos nos Exames Nacionais, em qualquer Disciplina sujeita aos mesmos, é o grau de dificuldade dos próprios Exames, associado às particularidades anuais dos respectivos critérios de correcção…

 Admito que esta afirmação possa ser qualificada como uma “verdade de La Palisse”, de tão óbvia que é, mas corresponderá a uma realidade que, por vezes, parece ser escamoteada e ignorada…

 Em notícia veiculada pelo Jornal Público em 26 de Dezembro de 2020, afirmava-se, em relação ao modelo de Exames aplicado em 2020 e ao que se preconizava, nessa data, para o ano de 2021, pelo IAVE, o seguinte: “O presidente do Instituto de Avaliação Educativa (Iave), Luís Pereira dos Santos, reconhece que o modelo usado nos exames nacionais do ensino secundário no último ano lectivo contribuiu para que fossem dadas notas demasiado elevadas”.

Mais se refere na mesma publicação que: “As provas do 9º, 11º e 12º anos vão manter perguntas opcionais, como no ano passado, mas o nível de dificuldade das alternativas será semelhante para evitar classificações acima do normal”.

 No ano de 2020, como consequência directa do modelo de Exames adoptado nesse ano pelo IAVE, bem como os respectivos critérios de correcção, verificou-se uma subida de praticamente 3 pontos na maioria das Disciplinas sujeitas a Exame Nacional, que muitos consideraram como uma “escandalosa” e artificial melhoria dos resultados obtidos pelos alunos…

 Em 2021, e ao que tudo indica após a realização da 1ª Fase de Exames, os resultados que vierem a ser obtidos pelos alunos serão mais baixos do que os que se verificaram no ano anterior, por força do notório aumento do grau de dificuldade das provas e por força das alterações introduzidas ao nível dos critérios de correcção, que não parecem ser tão benevolentes nem tão “beneméritos” quanto os do ano anterior…

 Se assim for, acentua-se a existência de uma “regulação” assumida e efectiva do grau de dificuldade dos Exames e dos critérios de correcção, regulação essa, realizada anualmente pelo IAVE… Assim sendo, não pode deixar de se considerar que os resultados obtidos pelos alunos dependerão significativamente dessas duas variáveis e que as mesmas estão fora do controle e da responsabilidade dos alunos e das respectivas escolas…

 E essa forma, “forçada”, de “regular” os resultados que vão sendo obtidos nos Exames não pode deixar de ser considerada como potencialmente enganosa e ilusória…

 No limite, a discricionariedade é evidente, na medida em que os resultados obtidos pelos alunos parecem estar sobretudo dependentes da vontade de quem decide o modelo dos Exames a aplicar em cada ano, estatuindo e regulando a dificuldade e os critérios de correcção das provas…

 Da forma anterior, os resultados obtidos pelos alunos nos Exames Nacionais podem ser considerados como relevantes e significativos na avaliação do próprio Sistema de Ensino, nomeadamente no reporte desses dados estatísticos à OCDE?

 Da forma anterior, quando os resultados obtidos pelos alunos nos Exames Nacionais num determinado ano são significativamente superiores aos de outros anos, é lícito considerar que os alunos fizeram mais e melhores aprendizagens nesse ano? Ou se, pelo contrário, obtiveram piores resultados nos Exames Nacionais, é lícito considerar que nesse ano não fizeram tão boas aprendizagens?

 Por muito que custe a alguns, fazer depender a “qualidade” das aprendizagens, mas também a dos professores, das classificações obtidas pelos alunos nos Exames Nacionais parece, no mínimo, discutível e duvidoso, assim como também o será extrair conclusões válidas e justas acerca da evolução longitudinal desses mesmos resultados…

 Pelo seu grau de imprevisibilidade e de aleatoriedade, os Exames Nacionais têm vindo, nos últimos anos, a tornar-se numa espécie de “lotaria” ou “jogo de sorte ou azar”, apesar de, e paradoxalmente, os seus resultados poderem ser determinantes no acesso ao Ensino Superior e de serem utilizados como critério para avaliar o (in)sucesso de cada escola…

A importância atribuída, por muitos, de forma quase dogmática, aos Exames Nacionais, sobretudo justificada pelo seu suposto rigor e imparcialidade, não parece ser compatível com o grau de imprevisibilidade e de aleatoriedade dos mesmos, ainda que as estatísticas decorrentes dos resultados obtidos sejam anualmente apresentadas com grande eco na Comunicação Social, como se se tratasse de algo absolutamente inquestionável e irrefutável…

 Apesar de não me opor à existência de Exames Nacionais, torna-se difícil, no momento actual, acreditar no seu suposto rigor e na imparcialidade dos mesmos, pelos motivos já apontados…

 Por outro lado, a artificialidade e a manipulação dos índices de sucesso escolar, bem patentes nas pressões exercidas dentro de muitas escolas no sentido da inflacção das classificações internas e da inexistência de retenções, parecem indiciar que a confusão entre tais procedimentos e os conceitos de flexibilidade curricular e de inclusão está instalada… A flexibilidade e a inclusão não são isso, nem poderão ser isso…

 Mas a entrada em vigor de todos os Normativos Legais relativos à flexibilidade curricular, às aprendizagens essenciais e à inclusão, sem esquecer o recente Despacho Nº 6605-A/2021 de 6 de Julho, também contribuíram e “abriram portas” a esse equívoco e a essa ambiguidade, uma vez que, de forma explícita ou implícita, o permitem e o fomentam…

 Se os Exames Nacionais, sob a capa do seu pretenso rigor e da sua suposta imparcialidade, servirem apenas como tentativa para “branquear” um Sistema Educativo obscuro e à deriva, ficarão irremediavelmente desvirtuados e vazios de qualquer sentido ou significado…

 A ser assim, restará à Escola a função do entretenimento…

 

(Matilde)

 

 

 

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3 comentários

    • Alecrom on 19 de Julho de 2021 at 10:48
    • Responder

    Mais uma vez concordo com praticamente tudo o que a Matilde vai dizendo/escrevendo.
    Ainda assim, e sabendo que não diz coisa contrária…
    Nunca os exames tiveram ou terão, de ano para ano, o mesmo grau de dificuldade. E isso nunca foi não é, nem será um problema. Se foi mais difícil, foi mais difícil para todos. Nesse ano as classificações dos últimos a entrarem serão mais baixas. Ou seja, entram os mesmos que entrariam se o exame tivesse sido mais fácil.
    O mesmo raciocínio se aplica ao “ranking das escolas”.

    • João Branco on 19 de Julho de 2021 at 12:50
    • Responder

    Sendo os exames nacionais uma ferramenta cada vez mais utilizada para o acesso ao ensino superior, deveria ser responsabilidade de cada universidade e de cada politécnico a sua realização, deixando para os estabelecimentos de ensino secundário a responsabilidade das provas de equivalência à frequência. São as universidade e politécnicos que devem definir o perfil dos alunos que querem e que já realizam, de resto, algumas das provas de admissão. Deveriam assumir a plenitude da admissão dos candidatos. Como consequência colateral, acabava-se de vez a polémica dos rankings das escolas, determinados pelos exames nacionais de algumas disciplinas.

  1. Só falta dizer que nos países anglo Saxónicos os exames de acesso ás universidades tem conteúdos nas matrizes bem definidos. Os alunos sabem que matéria vai sair e não se torna uma lotaria.
    O que acho bem.

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