Alunos e professores mais frágeis – Santana Castilho

Alunos e professores mais frágeis

1. As sucessivas interrupções do ensino tradicional e o recurso intensivo aos computadores, para o promover de modo remoto, trouxeram o perigo real de o desumanizar e de fragilizar, ainda mais, a dignidade profissional dos professores. Só há uma via para proteger alunos e respeitar docentes: tê-los como mediadores únicos de um processo, onde as interacções humanas não podem ser substituídas por inteligência artificial. À calamidade que nos tocou não se deve juntar a calamidade de transformar a educação num problema técnico especializado, solucionável em parte por algoritmos. A possibilidade de os professores deixarem de ser, com os pais, os actores primeiros do processo, não é de agora. Mas tem agora razões para ser intensificada. Cabe aos mais atentos a denúncia e a oposição ao risco de vermos a Educação tragada pela distopia digital, com as escolas transformadas em depósitos geridos por plataformas informáticas.
2. Nos primeiros dias deste mês, numa conversa com o filósofo José Gil, sobre as consequências da pandemia, o ministro da Educação disse que nas escolas de acolhimento houve aulas presenciais para cerca de 17 mil alunos. Mas não houve. Esses 17 mil alunos foram às escolas para tentar ter aulas à distância, porque não tinham meios para tal em casa. E boa parte deles, porque a Net nas próprias escolas tão-pouco o permitiu, passaram o tempo enfiados numa sala, com um só professor. Foi um pouco melhor que nada, mas não foram aulas presenciais. O ministro ou mentiu ou, como é seu timbre, falou sem saber o que dizia. De qualquer modo, passou para a opinião pública a ideia errada de se terem protegido os mais desfavorecidos. Fora ele competente e estaria a apresentar ao país um programa para ajudar a recuperação da aprendizagem de todos, particularmente a de cerca de 80 mil com necessidades educativas especiais e mais de 350 mil apoiados pela Acção Social Escolar.
A escola já era um local de desigualdades. Agora é um local de desigualdades mais acentuadas e de muitos medos, carente de uma acção profunda para tratar os traumas emocionais que por ela entraram. O sistema de ensino devia aferir as consequências do encerramento das escolas e desenhar, com base nisso, um plano para recuperar as perdas acumuladas nos dois calamitosos últimos anos. Entre tantas iniciativas possíveis, poder-se-ia criar já um programa nacional, para operar durante as férias de verão, com as escolas a sinalizarem os alunos com maiores dificuldades, que seriam convidados a participar em colónias de férias, com uma componente fortíssima lúdica e desportiva, de ar livre, em paralelo com actividades tutoriais de reforço curricular. As estruturas hoteleiras, sem turistas, poderiam ser utilizadas e certamente que apreciariam o apoio financeiro daí resultante.
3. Vão encerrar os concursos para contratação de docentes, externo e interno, que decorrem desde 11 de Março. Uma interpretação nova sobre a aplicação da chamada Norma-Travão, suscitada por uma decisão judicial já quase com um ano, mas surpreendentemente acolhida pelo ministério um dia antes do início do respectivo concurso, vai provocar consideráveis problemas. Com os atropelos que se têm amontoado, com as injustiças que se têm acrescentado às injustiças anteriores, havia que ter a coragem de reconhecer que, no actual contexto, o mais adequado era voltar ao princípio, isto é, assumir uma lista graduada, única, nacional, como o instrumento central de colocação de professores. No plano teórico é fácil apontar inconvenientes à ideia, eu sei. Mas pior é ver a que nos conduziram as prioridades que foram sendo acomodadas nos regulamentos dos concursos, os abusos desregulados das mobilidades criadas, os processos de renovação de contratos e a desumana dimensão dos QZP.
A contratação e a remuneração são duas causas para que apenas 1,3% dos jovens queiram tornar-se professores. Recordo-me, a propósito, do destaque que a imprensa deu, em Janeiro de 2020, à circunstância de terem chegado ao topo da carreira seis mil professores. Mas não vi uma só linha a esclarecer que são precisos, no mínimo, 34 anos para alcançar esse topo, que valia, afinal, uma fortuna arredondada de 1.900,00 € líquidos e que jazia a meio de uma grelha remuneratória da função pública, que tem, significativamente, 58 níveis acima dele.

In “Público” de 17.3.21

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10 comentários

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    • Alecrom on 17 de Março de 2021 at 13:30
    • Responder

    “falou sem saber o que dizia”

    Sem saber o que dizia?????????

    Ora…

    Vá,
    Santana,
    não desculpabilizes o rapazinho.

    • Atento on 17 de Março de 2021 at 14:34
    • Responder

    …………………….
    ……………………………………….

    Caro Santana dos Kasquilhos!

    Então! afirmas tu (meu rapaz) que:

    “Cabe aos mais atentos a denúncia e a oposição ao risco de vermos a Educação tragada pela distopia digital, com as escolas transformadas em depósitos geridos por plataformas informáticas”

    Com que então “escolas” … “transformadas em depósitos”

    Meu caro Santana dos Kasquilhos aquilo a que chamas “escola”, mais concretamente aquilo a que chamas “escola pública”. é um “DEPÓSITO” / ARMAZEM / CANTINA SOCIAL……..

    Esta é a VERDADE….SIM!…Santana dos Kasquilhos…..aquilo a que chamas de “ESCOLA” é identico a um HOSPICIO…..a unica diferença é que os filhos dos Desgraçados desta vida não dormem na dita infraestrutura a que chamas “ESCOLA”………….

    “As escolas não podem fechar porque a sua função assistencial se tornou tão grande que se sobrepôs à educativa.”

    Haja Lucidez!……SETÔRAS e SETORES deixem-se de ser Otárias e Otários!………

    Hoje aquilo a que chamam “ESCOLA” não passa de um enorme “ARMAZEM” onde os progenitores colocam os seus rebentos para poderem desenvolver as suas atividades ludicas, profissionais ou outras…….

    Hoje aquilo a que chamam “ESCOLA” não passa de uma enorme “CANTINA SOCIAL” onde se dá de comer aos FAMINTOS desta vida (Filhos de Desempregados; Filhos daqueles que vivem do Rendimento Social de Insersão (RSI); Filhos de Prostitutas; Filhos de Delinquentes; Filhos de Presidiários; Filhos daqueles que auferem o Salario Minimo Nacional no valor de 635 Euros e que levam para casa á volta de 500 euros…….

    Hoje aquilo a que chamam “ESCOLA” não passa de uma enorme INTRETEM onde os designados professores dão umas TRETAS de que são exemplo as “cidadanias”, “educação ambiental”, “educação sexual”, “desporto escolar/toma lá uma bola para dares uns chutos”………..

    Hoje aquilo a que chamam “ESCOLA PUBLICA” não passa de uma enorme FRAUDE onde os pobres são acolhidos…..Sim!….porque os filhos da classe média e alta são colocados em Escolas de Bandeira e em Colegios Privados onde possuem uma boa preparação para a Vida Futura.

    Ao que a ESCOLA PUBLICA chegou!…….Não!….isto não merece ser chamado de “ESCOLA”…………A ESCOLA é um local de ENSINO-APRENDIZAGEM e não um HOSPICIO para os Desgraçados da Vida.

    VERGONHA!……..NOJO!……………….

    É isto o trabalho do Partido Socialista e do seu Grande Lider António Bosta. Não esqueçamos que o Santana dos Kasquilhos defende a mesma filosofia XUXALISTA ……

    Sinto Tristeza, Nojo e Repulsa por grande parte do professorado não ter discernimento para enchergar o que se passou no Ensino e, em particular, na ESCOLA PUBLICA, a qual foi transformada num CENTRO ASSISTENCIAL.

    ……………….
    ………………………………………………

      • Luís Miguel Cravo on 17 de Março de 2021 at 17:12
      • Responder

      Aprende a escrever Português, filho! Tem vergonha!

      • Fernando, el peligroso de kas verdades. on 18 de Março de 2021 at 1:11
      • Responder

      Olá Atento! Então lê, investigação feita para ti.
      O Atento é um chamado de Fernando Santos. No facebbok, o artista diz que trabalhou no ministério da educaçao e que vive no Porto. No facebook está de camisola verde. É meio russo de cabelo e deve rondar os 58 e tal embora pareça ser mais velho. Deve ser da velhacaria que tem no corpo.
      O homem tem focinho de acordo com as bacoradas que aqui escreve. Aliás, escreve sempre da mesma maneira. Por isso, foi fácil apanhar esta rês manhosa.

  1. Grito em tom bem alto : como é desumana a dimensão dos QZP. Não deixem isto acontecer …. não se justifica. Este era tempo de para para pensar qual a melhor solução. Ninguém pode estar bem de saúde a fazer 100 a 150, 200 Km diariamente para ir trabalhar pu estar anos longe da família, ano após ano. Mas que escola queremos para os nossos filhos ? gente stressada, cansada, desgastada. Expliquem à comunidade educativa qual a razão da dimensão destes QZP- como se justifica o seu tamanha ? porquê ? a quem interessa ? qual a melhoria para o ensino ?

    • Luís Miguel Cravo on 17 de Março de 2021 at 17:10
    • Responder

    Viva Santana Castilho! Tivesse eu como colegas homens como este e a profissão de professor seria novamente uma profissão séria e à séria! Espero, um dia, vê-lo como MINISTRO da EDUCAÇÃO.
    Quanto aos ressabiados e -adas do costume, vocês não prestam e são a vergonha desta profissãozeca de que tanto me envergonho.
    Obrigado, Santana Castilho! Clarividência sempre e Português exemplar que é algo que os Doentes (vulgo, docentes, desconhecem).

      • orquídea on 19 de Março de 2021 at 9:34
      • Responder

      Concordo plenamente com Luís M Cravo. Por uma escola Mais competente ,eficaz, eficiente e humana. Sem cães de fila.

      • orquídea on 19 de Março de 2021 at 9:44
      • Responder

      Por uma escola sem cães de fila. Por uma escola mais humana, eficaz, eficiente e competente. Uma verdadeira escola em todas as suas dimensões.

    • Calves on 17 de Março de 2021 at 23:45
    • Responder

    A redação do texto começa mal: “ interrupções do ensino tradicional”? O ensino tradicional, talvez não queira significar para o autor o ensino simultâneo, aquele que ensina a todos como se de um aluno se tratasse” e que há muito devia estar ultrapassado em todas as salas de aulas do país e não apenas nas dos professores que tão bem fazem já a diferenciação pedagógica. Se aceitamos as plataformas digitais para realizar consultas médicas e até dar continuidade à relação terapêutica na psicoterapia (entre tantas outras situações) não há e não houve calamidade absolutamente nenhuma nem perda de relação nas videoconferências que asseguraram, no estado de pandemia, o processo de ensino e de aprendizagem. Tudo depende (tal como no ensino presencial) da arte e do empenho do professor. Um dos aspetos positivos que eu pude verificar ao longo das cinco semanas de E@D foi a diversificação das formas de comunicação e uma maior empatia
    que muitos professores desenvolveram com os encarregados de educação dos seus alunos e com as suas efetivados condições de aprendizagem. Por outro lado, não faltaram testemunhos muito positivos de EE sobre a dinâmica que puderam observar e acompanhar que, de outra forma, nunca chegariam a compreender e a respeitar tão bem – falo sobre o 1.º CEB. Não consigo perceber o receio do autor da distopia digital e quanto à IA não a encontrará de certeza na casa dos professores que passaram o E@D com os recursos possíveis, tal como os seus alunos, e, muitos deles, com portáteis do tempo do PTE e do e-escolas… Eu diria até que os alunos e professores estão bem mais fortes porque foram capazes de se reinventar, sair das suas zonas de conforto e autorregularem-se para enfrentar os desafios com saber e com muita humanidade.

      • H. Ant on 23 de Março de 2021 at 11:27
      • Responder

      Concordo quase em absoluto…!

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