Propostas para construir democracia nas escolas

A sociedade civil parece unir-se quando a causa é justa. A democracia na escola é e sempre será uma causa justa. Não sei o porquê de, quando os professores falam sobre o assunto e exigem mudanças (há já muito tempo) ninguém os ouve ou dá atenção… Se forem uns quanto “notáveis” a falar, passa a ser assunto de discussão ao café…

 

Propostas para construir democracia nas escolas

Três escritores e uma editora lançam quatro propostas concretas para tornar mais democrática a gestão dos estabelecimentos de ensino.

 

Autonomia e uma assembleia “em que a escola se ouvisse e falasse”

Em nome da real autonomia das escolas, o escritor Jacinto Lucas Pires sugere que todos os corpos da escola – do director aos alunos, passando por professores e funcionários – pudessem reunir-se numa espécie de assembleia, mensal ou semanal, “em que a escola se ouvisse e falasse”. “Não há melhor símbolo de democracia do que uma assembleia”, sustenta o autor, para quem a democracia nas escolas não se constrói se estas não dispuserem de “real autonomia” para que possam “organizar-se, pensando no território onde se inserem e com os professores que têm e no que pensam que é necessário para o futuro dos alunos”.

Um ensino a partir dos alunos

Avessa ao modelo que faz com que os alunos sejam sujeitos passivos do ensino, a editora da Tinta da China considera que os professores deviam dispor de uma flexibilidade de actuação que lhes permitisse ensinar a matéria a partir das vivências dos alunos e atendendo às especificidades de cada um. “Aquela coisa de o professor chegar e debitar a matéria e de os alunos ouvirem, fazerem os trabalhos de casa, estudarem e fazerem os testes faz-me impressão. Acho que os alunos deviam poder ser mais activos. Não é que sejam eles a decidir o que vão estudar, mas que as suas curiosidades naturais, que decorrem das suas vivências e que até vão ao encontro da matéria, possam ser mais usadas pelos professores no contexto da sala de aula”, preconiza, para lembrar que os filhos, que frequentaram um estabelecimento ligado ao Movimento Escola Moderna, “se calhar não sabiam a tabuada de cor mas sabiam como fazer para lá chegar e não trabalhavam menos, até trabalhavam mais” do que numa escola regular.

Acabar com a precariedade dos professores

Para a escritora Dulce Maria Cardoso “a medida mais urgente” para chamar a democracia às escolas é acabar que “a precariedade dos professores”. “Não é possível trabalhar bem sem segurança. Parece-me vergonhoso que os professores não possam decidir a sua vida e que tenham de ser desterrados de todo o lado, deixar as famílias longe, para conseguirem trabalhar. Pôr fim à precariedade dos professores parece-me uma questão da mais elementar justiça. O resto vem com isso e com uma maior transparência na eleição dos órgãos representativos da escola “, defende a autora de O Retorno.

Alunos a partir do 9º ano deveriam avaliar os professores

A escritora Inês Pedrosa considera que, a partir do 9.º ano de escolaridade, os alunos deveriam poder avaliar os professores. “Um dos problemas é que a escola é muito hierárquica. Os professores avaliam os alunos, mas estes não têm possibilidade de se expressar sobre a qualidade do ensino. Essa avaliação favoreceria a qualidade do ensino e conduziria a uma maior responsabilização dos próprios alunos que não se sentiriam apenas sujeitos a uma autoridade, mas participantes de uma comunidade”, preconiza, para defender ainda que “os directores deveriam ser não únicos, mas parte do conselho directivo eleito pela escola, ou seja, pelos docentes e pelas associações de estudantes”.

in Público

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2 comentários

    • Rui Gonçalves on 14 de Dezembro de 2016 at 15:29
    • Responder

    As propostas para a escola democrática, elencadas acima por quatro ilustres pensadores sobre o tema (afinal, quem não é hoje em dia um verdadeiro intelectual da educação?), são, para mim, verdadeiramente disparatadas – exceto a que diz respeito à precariedade das colocações, pois claro -.
    1. A escola não precisa de se ouvir e falar, a escola democrática precisa é de formar públicos de qualidade, pessoas/alunos que inequivocamente desejem e sintam que o saber é fundamental para as suas vidas… gente esclarecida e informada não precisa de fazer-se ouvir, públicos esclarecidos e informados são a escola democrática porque esses sabem participar e quando fazê-lo… É impossível que a opinião sábia emane da ignorância… Só pode participar quem sabe e quem sabe trabalha e estuda com afinco (que é o que não acontece nos dias de hoje… continuamos a ser um dos países que menos valoriza a escola e a escolarização…), logo o debate proposto não tem fundamento, porque não emana da garantia do conhecimento e é uma desconfiança grosseira (gratuita) sobre os que atualmente dirigem a Educação….
    2.Ensino a partir de alunos? Isto é, o aluno não sabe, adapta-se o programa às suas necessidades… aos seus interesses… que disparate! A escola deve oferecer um conjunto de saberes base para a construção de um cidadão esclarecido e informado, igual para todos… e, a partir daí, cada um desenha o seu percurso, tendo em conta os seus gostos e preferências… Não há criatividade sem conhecimento… ou há? se há, desconheço… Perguntem aos alunos que tiveram sucesso na escola se ele se deveu ao trabalho (imenso e diligente) ou ao facto de a escola, para eles, ser divertida…
    3. Alunos de 15 anos a avaliar os professores? Se são alunos, não deveriam avaliar… por isso são alunos. Ou melhor, se avaliam professores, que avaliem os colegas ou os pais (os pais chegavam a casa com o ordenado, colocavam as notas em cima da mesa e discutiam-se os gastos democraticamente – era a família democrática -, não acham isto também… ) ou as forças de segurança ou… é como colocar os réus a avaliar os tribunais ou os doentes os seus médicos… Os professores são uma autoridade dentro da sala de aula, com conhecimentos inequívocos e razoavelmente aprofundados para, à partida, garantirem uma qualidade do serviço que prestam… a serem avaliados, só por quem tem conhecimentos e capacidades para isso e esses não são, de todo, os alunos… que além de alunos são, genericamente, jovens… ou seja, não adultos, aos quais nenhuma lei reconhece autonomia para quase nada… e agora a avaliar professores!!!!

    É verdadeiramente indecente que a sociedade e os seus pensadores considerem que, se há alguma coisa a melhorar na escola de hoje, isso tem de estar dentro da mesma… Mas não está, está na sociedade, porque continuamos a ter pais/EE que a não valorizam minimamente (não acompanhando e educando os filhos em casa) e continuamos a ter uma sociedade que acha que a escolarização não é importante na hora de pedir/oferecer emprego (para se ser polícia não é preciso estudar muito, para servir hambúrgueres também não, para vender roupa, idem, mas é e esse é que é o grande drama)…

      • apoiado on 14 de Dezembro de 2016 at 19:25
      • Responder

      Apoiado.

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