Opinião – Tiago Luz Pedro

Os bons e os maus professores

 

 

Esta proposta vem de um Governo que fez do combate à precariedade um desígnio. Mas esta proposta significa tão-só a legitimação dessa mesma precariedade como modo de vida — e com o alto patrocínio do Estado.

 

 

 

Há um pequeno grande detalhe que merece a nossa atenção nos recentes relatórios internacionais que puseram Portugal mais perto dos melhores na educação: para os alunos de dez e 15 anos que passaram com distinção no TIMSS e no PISA, não foram os ministros nem as suas políticas que lhes permitiram chegar aos formidáveis resultados alcançados. Foram sim os professores (leu bem: os professores), que os ajudam no trabalho diário nas aulas, que adaptam as aprendizagens às suas necessidades e em quem mais confiam para se conseguirem superar. Faltosos, enfadonhos, desmotivados? Esqueçam tudo o que aprenderam sobre os professores portugueses.

Ou talvez não. A verdade é que os bons professores que os alunos agora elogiam continuam a ser os maus professores na perspectiva de quem os controla — e falamos da implacável máquina burocrática do Ministério da Educação e da sua infatigável tendência para reduzir as escolas a meras extensões administrativas dos corredores do poder educativo.

Vem isto a propósito das novas regras dos concursos apresentadas aos sindicatos e, em particular, da tremenda injustiça imposta aos professores contratados, essa espécie de subclasse docente que todos os anos é chamada a garantir que muitos milhares de alunos não ficam sem aulas e que todos os anos é deixada para trás, ou longe de casa, ou de escola em escola.

Acontece que Tiago Brandão Rodrigues e a sua equipa propõem que só com 20 anos de serviço estes professores possam aceder à vinculação — um eufemismo para entrada nos quadros, a única garantia de estabilidade para milhares de pessoas que vivem de contrato em contrato à espera dos amanhãs que cantam.

O Governo PS (e a esquerda que o suporta) fez de 2017 o ano em que os precários do Estado vão finalmente conseguir um lugar ao sol. Não se sabe quem, não se sabe quantos, não se sabe com que dinheiro. O que se sabe é que destes precários uma parte significativa são professores. O líder da Fenprof, quiçá inebriado pelo ar dos tempos, estimou em 22 mil os que vão entrar nos quadros. Não, Mário Nogueira, não serão. Se a cláusula dos 20 anos se mantiver, serão 554.

Esta proposta vem de um Governo que fez do combate à precariedade um desígnio. Mas esta proposta significa tão-só a legitimação dessa mesma precariedade como modo de vida — e com o alto patrocínio do Estado.

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2016/12/opiniao-tiago-luz-pedro/

2 comentários

    • Fernanda on 10 de Dezembro de 2016 at 18:16
    • Responder

    Estamos dispostos a debater e a nos preparar para isto? É que, a não ser que as coisas mudem muito a nível externo, tapa-se de um lado e destapa-se do outro.

    “É incompreensível que todos os anos se assistam às ameaças e chantagens em torno do défice das contas públicas, quando o verdadeiro e real problema do país é o facto de Portugal ter uma das maiores dívidas públicas e externa do mundo. É impensável prolongar por muitos mais anos uma dívida pública insustentável, recusando iniciar a sua renegociação, nos seus prazos, juros e montantes (…) e que pode e deve ser articulada com a libertação do país da submissão ao Euro.
    Jerónimo de Sousa, 4 de Dezembro de 2016.”

    Estamos nesta ou vamo-nos lamentando sucessivamente, sem coragem e rendidos ao “inevitável destino”?

    • Fernanda on 10 de Dezembro de 2016 at 18:20
    • Responder

    Interessante a ler aqui:

    http://ladroesdebicicletas.blogspot.pt/2016/12/tiveram-e-tem-razao.html

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