Voto (verdadeiramente) útil: na Educação
Não me lembro do dia exato em que, pela primeira vez, dei por mim a pensar (verdadeiramente) sobre o que é ser aluno ou professor, aprender ou ensinar, e para que serve uma escola ou um caderno. Recordo-me, contudo, que nesse dia estava a chover muito e que ao meu lado, encostadinhos à parede, debaixo dos últimos bocadinhos de telhado de zinco, estavam muitas crianças à espera que um professor chegasse e a porta da escola se abrisse. Lembro-me, ainda, de ver um menino a correr no meio daquela lama, com um sorriso enorme e um caderno na mão, cheio de vontade de aprender e que a chuva terminasse.
Naquele dia cheguei a uma convicção que permanece até hoje: apesar de tudo, é possível educar e ajudar a aprender, em qualquer lugar…
Kuasi pretu suma Karbon
(Quase preto como o carvão)
O verde forte da copa das árvores, a cor da terra do chão, a naturalidade e a autenticidade da vida daquelas pessoas foram deixando-me ainda mais contente pelo caminho.
Entrei numa das salas daquela escola feliz. Com energia e um sorriso, disse Bom dia! Responderam-me de igual forma, ou seja, com carinho. Gostaram de me rever e eu senti o mesmo em relação a eles. Por outro lado, é sempre bom saber que se lembram de nós, nos aceitam e estimam, mesmo que, aos olhos deles, sejamos alguém com o um “nome colorido”, que não sabem de onde vem, o que está ali a fazer, ou o que quer.
Depois de cumprimentar os professores que estavam a trabalhar com as crianças, circulei um pouco pela sala para conversar um pouco com elas e as ajudar no que estavam a fazer. Contudo, duas meninas que estavam a trabalhar a pares, sempre muito simpáticas, mas também muito estrategas em fugir às tarefas, metendo conversa comigo, nem sequer me deixaram aproximar de mais ninguém. Elas em crioulo e eu em português, foi mais ou menos assim:
– Branco, como é que estás? – sorrindo para mim e uma para a outra.
– Estou bem, obrigado. E vocês? Estão bonitas…
– Estamos bem. – responderam em conjunto e continuando a sorrir.
– Gosto muito do vosso desenho. O que é?
– Esta é a minha mãe, este é o meu irmão… – disse uma, enquanto ia apontando para cada uma das figuras.
– E como é que se chama a tua mãe?
– Fatu.
– E vocês sabem qual é o meu nome? – perguntei-lhes.
– Branco. – responderam as duas sorrindo, sem qualquer tom depreciativo.
– Não. Olhem lá para esta folha. Eu e ela temos a mesma cor? – disse eu com um sorriso, sem o mínimo sentimento de ofensa.
– Como é que te chamas? – perguntou-me uma delas.
– Chamo-me Rui. E vocês?
…
Conversámos mais um pouco e depois continuei a circular pela sala. Ao virar-me para outro lugar ouvi a mais pequenina dizer:
– Professor branco. – surpreendida e alegre por eu estar ali. Respondeu-lhe a outra:
– Não! O nome dele não é branco! O nome dele é Rui. O professor Rui é quase preto como o carvão.
Enquanto professores, agentes de mudança, está nas nossas mãos mudar os lugares onde estamos; dos quais fazemos parte. Temos essa capacidade, esse poder. A Educação, sim, faz efetivamente a diferença.
Professor Rui Tiago Filipe
Professor do 1.º Ciclo do Ensino Básico




2 comentários
Magnífico!
“O verde forte da copa das árvores, a cor da terra do chão, a naturalidade e a autenticidade da vida daquelas pessoas foram deixando-me ainda mais contente pelo caminho.”
A copa das minhas árvores é verde e piso a terra no meu chão. E, enquanto professor, não tenho nada a ensinar às copas das árvores – muito menos ao chão que admite ser pisado, farto-me de rir com estes ateus homocêntricos, crentes em serem gajas boas segundo Alfa Centauri no mínimo.