Mais um Relato

… no seguimento da notícia de hoje do Jornal de Notícias.

Muitas histórias de vida também impedem um docente de se candidatar para longe de sua casa e esta história é uma delas.

Dados ocultados a pedido da docente.

 

 

 

Tenho uma história “linda” para contar depois de ver os 5 relatos do JN.

 

Contratada há 20 anos, grupo de xxxxx, com pós-graduação e uma segunda licenciatura em Informática de Gestão, que ainda não pude concluir por ter deixado de ser possível financeiramente pagar propinas, embora não tendo parado de fazer formações como trabalhadora-estudante, desde os meus 18 anos de idade. Com 42 anos, 2 filhos de 5 e 8 anos, divorciada, uma mãe acamada com Parkinson galopante, colocada em horários muitas vezes incompletos, já passei por tantas escolas que a memória me atraiçoa.

Os ano transatos, dado que sendo contratada e não posso usufruir da lei de destacamento pela minha mãe, situação que me obriga a vir para casa todos os dias para continuar os seus cuidados uma vez que a não posso levar comigo, nem a irei abandonar nunca num lar, por valores morais que me enformam, pois falamos de uma mãe…

O ano passado fiquei colocada em xxxxxx, que dista da minha casa 96 km, uma vez que sou de xxxxxxxx. Quando falamos no trajeto até xxxxxxx desde xxxxxxx falamos de uma estrada nacional, a ENxx, cheia de trânsito e maioritariamente com o percurso a ser feito a 50 km/hora ou pouco mais, e uma pequena parte do percurso numa estrada menos congestionada, conclusão 1,30 h para cada lado, ou seja, 3 horas diárias de trajeto em estrada nacional. O horário em que fiquei colocada era de 19 horas, sem hipótese de ser aumentado, o que me dava de vencimento cerca de 900 euros.

Por semana, gastava cerca de 88 euros em gasóleo, uma vez que não há transportes públicos para ir até lá, não contando pneus, revisões de pouco em pouco tempo para continuar a ter carro para trabalhar. Pagava 100 euros de almoço. Para trabalhar tive que contratar uma funcionária para tratar da minha mãe, cujo valor restante do salário não lhe chegava para pagar, mas estava fora de hipótese perder tempo de serviço. Não vivo, sobrevivo, cansada de 20 anos de dúvidas sobre como será o meu próximo ano, desgastada pelo cansaço de acordar de madrugada e chegar à noite a casa, sem oportunidade de tratar devidamente e de forma responsável dos meus, procurando dar o meu melhor à família dos outros. A vinculação que esperava por ter mais de 5 anos de serviço está comprometida pelos horários incompletos, pelas alturas de colocação definidas pelo Ministério de Educação mais tardia, por todas as alíneas que muito poucos conseguem atingir.

Este ano, lamentavelmente aguardo colocação porque um erro informático na submissão da candidatura, sobre o qual me desculpei com a DGAE não foi atendido. Depois de ver o ano passado o ministro a pedir desculpas parlamentares e a ficar impune e todos os anos continuar a ver erros sobre os quais não existem consequências a não ser para os peões que como eu tapam buracos do Ministério da Educação há 20 anos. Estou em concurso em 19 agrupamentos na BCE, sou a próxima candidata a ser colocada, mas nunca vi nenhum agrupamento a abrir uma vaga, desde o início abro de manhã o computador na esperança e volto a ver a aplicação sem um único horário, um espaço branco que me persegue desde o início do ano letivo. Foram me atribuídos 210 dias de desemprego, até Março de 2016, depois não sei como irei viver e sustentar a minha mãe e os meus filhos. Parece-me que este ano não precisam de tapa buracos e fui deitada ao lixo, depois de ser avaliada como professora muito boa. Tantas histórias a relatar, tanto sacrifício e uma vida passada para ser arrumada a um canto como lixo, sem saber como sobreviverei amanhã, eu e os meus.

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2015/10/mais-um-relato/

5 comentários

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    • Do Contra on 19 de Outubro de 2015 at 21:36
    • Responder

    Parei logo aqui: “Uma segunda licenciatura em Informática de Gestão, que ainda não pude concluir por ter deixado de ser possível financeiramente pagar propinas”… Ora bem, eu estou a pensar ‘tirar’ uma 2ª licenciatura. “Pensar em” também conta como uma licenciatura, certo?

    • torradeira on 19 de Outubro de 2015 at 21:45
    • Responder

    Eu queria deixar um comentário de apoio, mas até aqui começo a sentir que as forças faltam para lutarmos e conseguirmos algo de bom. O desespero leva a muita coisa. Estes dias na minha nova escola uma colega aceitou 6h, (em que o horário se situa à 2ª e à 6ª) vinda de 300kms de distância. Não dava aulas há 3 anos. Vai ganhar para ter que por dinheiro do bolso no final de cada mês. Situações pelas quais ninguém deseja passar…

    • Cristina on 19 de Outubro de 2015 at 23:09
    • Responder

    Só pude ficar consternada pelas imensas semelhanças com a minha situação durante anos a fio(menos nos 2 filho_) e deixar uma palavra de conforto e compreensão. Não desista apesar da vontade não lhe faltar. FORÇA

    • maisuma on 20 de Outubro de 2015 at 0:15
    • Responder

    Sou licenciada em História desde 2000. Apesar de estar no
    ensino há 15 anos e de quase sempre me ter candidatado a todo o país (exceto
    durante dois anos em que decidi ser mãe), possuo pouco mais que 5 anos de tempo
    de serviço. Ao longo de 15 anos tenho sacrificado muito do meu tempo familiar e
    paguei para trabalhar a fim de buscar alguma estabilidade profissional mas
    nunca a encontrei. Também percorri o país sempre em horários incompletos e cheguei
    a fazer mais de 1000 km por semana. A culpa? Atribuo-a às sucessivas políticas
    errantes do Ministério da Educação.

    Após a primeira profissionalização decidi requalificar-me no
    sentido de ganhar habilitações para outro grupo. Fiz uma Licenciatura em
    Línguas e secretariado visando dar aulas de secretariado, grupo que viria a ser
    integrado no grupo 530. Contudo, no decorrer do último ano da dita licenciatura
    o nome do curso é alterado e deixa de constar na lista dos cursos que conferem
    habilitações para o grupo 530. Dinheiro deitado ao lixo! Depois faço uma
    pós-graduação em Administração e Gestão Escolar e pretendia fazer o mestrado
    nessa área mas um outro mestrado chamou a minha atenção: Mestrado em Ensino do
    Inglês e do espanhol no Ensino Básico. O objetivo era lecionar Espanhol e
    Inglês. Mais uma vez o Ministério da Educação fez borrada e considerou inválido
    esse mestrado. Conclusão: não posso lecionar nem ao grupo 350, nem ao grupo
    220, nem ao grupo, nem ao grupo 120! Sim, 120! O Ministério considera que eu,
    ainda que possua o Mestrado em Ensino do Inglês e do Espanhol no Ensino Básico
    não estou habilitada para lecionar no grupo 120 porque a minha formação inicial
    é no grupo 400. Qual é a formação que possuo a menos que os outros candidatos?
    Assim continuo, à espera de uma colocação no grupo 400, eternamente….

      • AC on 20 de Outubro de 2015 at 21:51
      • Responder

      Devia ter tirado a 2ª licenciatura para trabalhar numa outra área. Conhecendo o ensino desde 2000, como disse, e foi tirar outra licenciatura para dar aulas???? Pelo amor da santa!!!!!!!!!!!!11

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