Da normalidade

 

Por fora é tudo absolutamente normal.

Mas só agora é que me dou conta que fui bem enganada.

Os pais vêm deixá-los à porta da escola nos seus bêémedablius e mercedes de último modelo, os gaiatos sorriem aparentemente felizes, e na sala de aula o ambiente até é tolerável e, depois, assim do nada, num dia como outro qualquer, a diretora de turma percebe que está tão tramada como o jota cristo pregado na cruz.

E o principal problema é que a diretora de turma sou eu.

Ante toda a normalidade, chego à escola e o que descubro? Vejamos: três faltas disciplinares (2 de violência entre pares, outra de desrespeito para com uma professora), mais uma resma de justificações de faltas, acresce 4 reuniões com encarregados de educação que não compareceram à reunião noturna, soma mais dois, repito, dois pedidos de informação da comissão de proteção de menores e, para espanto meu, ainda vou a tempo de saber que, em Educação Física, desapareceram uns belos ténis de marca e um dos miúdos desmaiou de inanição num aula porque passa fome.

Tudo na minha turma. Normal. Uma turma absolutamente normal num simpático ambiente urbano.

E quanto tempo tenho para cumprir a benfazeja função de diretora de coisa alguma? Dois tempos. Dois miseráveis tempos semanais para averiguar um roubo, tirar faltas, justificar faltas, contactar pais, reunir com pais, instaurar procedimentos disciplinares, redigir relatórios pedagógicos, descobrir uma forma de um garoto sem SASE comer refeições à borla porque os pais estão ambos desempregados, apesar do bêémedabliu com que o despejam diariamente à porta da escola.

E quando estou quase, quase a finalizar todas estas tarefas que não podem, em circunstância alguma, ser adiadas, assoma-se à porta a funcionária e, com um sorriso comprometedor, profere as palavrinhas mágicas que me estragam o resto da semana:gun

– A professora desculpe, mas era só para saber que está lá em baixo a escola segura por causa do seu aluno André.

Bolas, esqueci-me que também tenho mais um caso de violência doméstica para resolver…

 

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12 comentários

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    • Pois on 27 de Outubro de 2015 at 15:08
    • Responder

    Queriam horas e horários. Todos queriam (a ainda querem) entrar para os quadros…

    Agora que o acesso à escola é universal, que a escolaridade vai até aos 18 anos, querem que os alunos se vão embora!

    Vamos lá agora entender isto…

    A violência é resultado da escola inclusiva, que passa a incluir quem antes andava perdido no mundo. Nunca poderemos ter os dois mundos (universalidade e qualidade) além de que este é o nosso trabalho, por muito que nos custe. Lutem antes por turmas pequenas, isso sim. Lutem pela redução do nº de alunos e não contra os alunos, que pagam o vosso salário e com quem devemos trabalhar!

    Este artigo é quase como um enfermeiro se queixar das necroses mais impressionantes quando elas fazem parte do seu trabalho e o enfermeiro não ter outro remédio que as tratar!

      • Ámen on 27 de Outubro de 2015 at 16:19
      • Responder

      Pois… até parece que o/a colega se excluiu deste universo. A lutar, lutemos TODOS!

      • Manuela on 27 de Outubro de 2015 at 18:12
      • Responder

      Que disparate! O enfermeiro tirou um curso para curar necroses e outras maleitas. É essa a sua função. É essa a sua formação. Os professores tiraram um curso para ensinar português, história, ciências, matemática… Não foi para serem enfermeiros, polícias, detetives, gestores de conflitos, assistentes sociais, psicólogos, etc.
      “A violência é resultado da escola inclusiva”? Outro disparate! Não fosse a escola inclusiva e o papel que tem desempenhado, muitas situações de violência só se iriam agravar fora das escolas. Felizmente há comunidades educativas com professores excelentes, extremamente dedicados e empenhados, que ajudam a resolver este tipo de situações. Não podem é ser sobrecarregados desta maneira. O caminho é este, mas é preciso termos condições para o fazer.

        • Pois on 27 de Outubro de 2015 at 21:19
        • Responder

        Que disparate! Então um professor só pode ensinar a quem se comporta bem e não perturba?!? Só em escolas de meninos bem comportados? Em que país é que isso existe?

        E a mediação de conflitos, a pedagogia?!?

        Onde vocês aprenderam?

        O problema no caso que levou a este artigo está num aluno que tinha muito provavelmente uma doença mental, não estava acompanhado e estava inserido numa turma de 30 alunos. Esse é o problema…

          • Pois on 27 de Outubro de 2015 at 21:20

          E pois claro, os apenas 2 tempos para a DT! Que é isso? Que se faz em 2 horas semanais?

      • J Filipe on 27 de Outubro de 2015 at 18:24
      • Responder

      Antes pelo contrário, este artigo é quase como um enfermeiro que se queixa de ter passar receitas e tomar decisões sobre o estado clínico dos pacientes porque isso não faz parte do seu trabalho…

    • Catarina Mrques on 27 de Outubro de 2015 at 15:13
    • Responder

    Concordo com a Diana, ter apenas 2 tempos para a direção de turma é ridículo. O MEC tem de rever esta situação. É um trabalho horroroso no qual despendemos imenso tempo. As situações avolumam-se hoje em dia, não é só tirar faltas, nem reunir com os pais… Prefiro mil vezes ter + turmas a ter direção de turma…

    • Paulo on 27 de Outubro de 2015 at 17:37
    • Responder

    O problema é transversal, começa na sociedade e é catapultada para a escola! E concordo que 2 horas para o dt é manifestamente pouco na grande generalidade dos casos e em turmas com demasiados alunos por metro quadrado.

    • Fafe on 27 de Outubro de 2015 at 21:29
    • Responder

    A parvoíce está em insistir-se numa parvoíce que não funciona; a não ser, e está acima a prova de não se resolver a parvoíce com queixinhas parvas, que se entenda: ou se é ou não.
    Mas lamento.

    • Fafe on 27 de Outubro de 2015 at 21:37
    • Responder

    “E o principal problema é que a diretora de turma sou eu.”
    Não me compreendo assim tão extremista, mas…

  1. redução do nº de alunos – a solução é esta.

    • Maria on 28 de Outubro de 2015 at 23:52
    • Responder

    A colega acaba de descrever fielmente o meu arranque do ano letivo, só falta acrescentar as oito turmas e mudar a marca dos veículos para outros bem mais acessíveis…

  1. […] Não sei se este aluno terá chegado à escola num bêémedabliu. […]

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