A (des)União Docente…

pobrema

De cada vez que surge um “problema” na educação, nova legislação, ou alguma outra luta que os sindicatos entendam enfrentar, a palavra União, vem como bandeira na frente. Mas a união é muito complicada…

Infelizmente, a nossa classe profissional não é unida, mas isto, todos sabemos.

Mas porquê?

Quando ouço apelos à união, geralmente, é mencionada a classe dos médicos, uma “comparação incomparável” com a nossa classe. É que, como um médico uma vez me disse, nós somos muitos, logo, nunca nos uniremos. A nossa “separação” em ciclos de ensino é, por si só, um entrave. Cada um defende o seu quintal com unhas e dentes.

O Pré-escolar reivindica o ano letivo a iniciar e a acabar nas mesmas datas com os outros ciclos. Pelo 1º ciclo fala-se das aposentações, monodocência, horários, entre outros. Os colegas do 2º e 3º ciclos, reclamam turmas com excesso de alunos, burocracia a mais, horários com furos e sem dias ou tardes livres, indisciplina… No secundário contesta-se porque, têm muitas turmas, os horários, o número de alunos por turma, a exigência que têm de ter, os exames e sua consequente correção… Todos têm as suas especificidades dentro das próprias especificidades.

Os exemplos dessa desunião são imensos e alimentados pelos responsáveis governamentais, mas nós, também responsáveis e os primeiros a alimentar essa desunião. “Cada um puxa a brasa à sua sardinha”… são os professores de Português a reclamar mais tempo letivo para a sua disciplina, porque as metas assim o exigem. São os professores de Educação Física a desaprovar que a sua avaliação não tenha o peso que as outras têm, são os professores contratados a ter que realizar a PACC… É o olhar para o lado e apenas encher a boca com a palavra união quando nos convém. Mas não fica por aí. Depois há a crítica que, na maior parte das vezes, nada tem de construtiva. Os professores do 1º ciclo dizem que no pré-escolar a motricidade não foi bem trabalhada. Os professores do 5º ano reclamam, que as matérias do 1º ciclo não foram bem consolidadas. No 7º ano, não entendem como os alunos chegaram “ali”. No 10º ano, porque deviam ter ficado no 9º ano. Entre colegas a crítica fácil, está sempre na ponta da língua. Nós, professores, somos os transmissores de cultura, mas com este tipo de atitude, que cultura se transmite? Estamos prontos a apontar o dedo ao colega do lado, para provar aos outros que somos bons, não, melhores do que eles, mas afinal não somos todos professores? Não temos todos, o mesmo objetivo? Ainda ninguém reparou que, com este tipo de atitude, estamos a dar razão àqueles que fazem do ataque à profissão, um desporto? Acima de tudo, como professores, temos de ser pedagogos, se queremos “criticar” temos de o fazer de forma construtiva, para nos destruir, já temos o MEC.

A nossa desunião resume-se à competição a que nos submetemos entre pares e à defesa do indefensável. Enquanto não respeitarmos as diferenças entre ciclos de ensino, não conseguiremos a dita união. Enquanto não olharmos para o lado para ver um colega e não um professor contratado ou um do quadro, não nos uniremos. Sejamos realistas, só nos unimos quando a causa é transversal a todos. Exemplo disso foi a manifestação dos 100 mil professores mas, até nessa altura, havia quem divergisse da causa.

Não se iludam, a desunião da classe é a força que move a bola de neve que tem descido a encosta. O MEC espera-a e fomenta-a. Aos sindicatos, de certa forma, interessa…

 

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42 comentários

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    • gerimbeco . on 24 de Junho de 2015 at 20:32
    • Responder

    A desunião entre os professores tem muitas causas. Mas começa, por exemplo, com a distinção entre “colegas” e “contratados”. Sou contratado e, depois de 15 anos de trabalho, ainda não consegui ver a diferença entre estas duas “realidades”.
    Cada um defende o seu quintal, puxa a brasa à sua sardinha. Concordo, e isso está errado, devíamos ser corporativos.
    Não somos, e, neste aspeto, tenho pena.
    Gente que não faz mais nada para além de infernizar a vida aos outros, viver em função deles, é triste. Utilizar os cargos nas escolas como trampolim para outros cargos na política, na politiquice, na politicazinha de vão de escada, porque não sabem ser mais, não conseguem ser mais.
    Devíamos ser unidos, mas nunca o seremos.
    É Portugal…

      • Pois on 24 de Junho de 2015 at 21:22
      • Responder

      A distinção entre contratado e quadros é de uma arrogância extrema! Há os dois estatutos, claro, mas eu sei que há escolas que tratam os contratados como cães.

      Uma vez entrei numa escola e uma colega tratava-me com distância. Um dia percebeu que eu era dos quadros e disse-me: “Não sabia que eras dos quadros”! Depois disso começou a comportar-se de maneira diferente mas claro, nunca mais lhe dei muita importância. Só falava com ela o essencial…

        • Do Contra on 24 de Junho de 2015 at 21:27
        • Responder

        Vou ser sincero: como contratado, nunca notei muito essa distanciação. Existe tratamentos diferentes, mas acho que se baseiam noutros fatores que não o do regime contratual. Sempre me dei bem com colegas do quadro e contratados e, na maior parte das escolas, fui tratado com respeito.

  1. O MEC sabe que o pior inimigo de um professor é … outro professor.

      • Fafe on 24 de Junho de 2015 at 20:50
      • Responder

      Não, é ele próprio!

        • Do Contra on 24 de Junho de 2015 at 21:28
        • Responder

        Concordo!

      1. Sim, também tem razão. Não tinha pensado nesta perspectiva.

    • Nuno Miranda on 24 de Junho de 2015 at 20:40
    • Responder

    Muito bem!!! 🙂

    • Fafe on 24 de Junho de 2015 at 20:45
    • Responder

    Todos sabemos que a classe docente é um mito – já nem interessa se é urbano, porque nem uma Ordem conseguem ter.

    É um mito por se arrogarem da educação, ao invés do ensino e pelos helpes que grassam por aqui, os geadas apregoados maiorias até reconhecem não entender um simples Fafe.

    1. Não entendem ou não estão interessados em histórias. As tuas, de tão antigas, mais parecem hieróglifos. mereciam estar num museu.

      Tu armado em Ginete mas eu guino as tuas palavras como um guinolas veloz enquanto guinchas.

        • Fafe on 25 de Junho de 2015 at 19:51
        • Responder

        Tens um problema não resolvido. Sou professor, sei qual; não sou médico, não te tratarei.

    • Fafe on 24 de Junho de 2015 at 21:04
    • Responder

    “Aos sindicatos, de certa forma, interessa…”

    Não interessa até que se active a célula.

    • Maria on 24 de Junho de 2015 at 21:08
    • Responder

    O texto retrata bem o que há muito tenho referido, não com esta clareza. Basta estarmos atentos à forma como, alguns intervenientes, tratam alguém que expõe a sua situação, bastando que colida com a sua. Tenho este espaço como muito bom, mas entendo que, sobretudo nas conversas online, devia haver “censura”. São arrepiantes certos ataques e ofensas. Lamento imenso e tenho vergonha pelos Professores que, tenho a certeza que não se identificam que tal palavreado. A união faz a força, alguns sindicatos agitam as águas…

    • Pois on 24 de Junho de 2015 at 21:15
    • Responder

    A desunião começa na formação! Há professores que são oriundos de Universidades públicas, outros de politécnicos, ainda outros das ESECs e para terminar, ainda outros vindos das privadas que lançam licenciados a saldo!

    A partir destas origens tão diferentes, são todos colocados no mesmo saco. Como podem então pedir união! Como pode um professor licenciado numa das melhores universidades do país unir-se em e tentar ser igual com um que sai duma privada sem qualidade! Falem-me na experiência e na pedagogia… tá bem tá… NUNCA haverá união!

    Depois, há a questão de contratados, QZPs, QEs e escalões! Como alguns não tem competências, agarram-se a estes rótulos para se sentirem superiores. Mas esquecem-se que a única razão que os coloca em determinada posição é, muitas vezes, a política de sala de professores, de cargos na direção. sindicatos e, na maioria das vezes, de deixar o tempo passar!

    Por isso, duvido que alguma vez haja união.

    Nos médicos, não há este problema porque a formação é de excelência, não existem ovelhas negras em maioria na classe! Todos funcionam como um só e é apenas a competência que os distingue… O mais fraco sabe que o é, não o consegue esconder e respeita o mais forte, porque também sabe os porquês de este ter mais mérito! O mais forte, por sua vez, como é respeitado, protege o mais fraco.

    Simples, não é!

      • Do Contra on 24 de Junho de 2015 at 21:23
      • Responder

      Gostei do que li! “Chapeau”.

    1. Ai os médicos são unidos? Tem a certeza disso? Olhe que a carreira é única e também há muita trapaça….

      1. Comparados connosco são! 🙂 Mas claro que não há seres perfeitos…

          • concordo on 25 de Junho de 2015 at 2:00

          Basta pensar o que significa ser chefe de serviço. Todos querem consultas com eles e são, por norma, extremamente competentes (as excepções são a minoria).

          Agora pense nos diretores das escolas. A maioria são repugnantes e chegaram ao cargo sem percebermos muito bem porquê.

    • Porfírio on 24 de Junho de 2015 at 21:17
    • Responder

    Penso que os professores não estão desunidos. Podem ter pensamentos e ideias diferentes, o que é bom. Noutras profissões e na sociedade acontece o mesmo. A união ou não, não tem a ver com ciclos diferentes. Não tem a ver com contratados, até porque me parece e pela experiência que tenho que os professores contratados são aceites na escola e as pessoas não fazem qualquer distinção por isso, são iguais aos outros.

    • Do Contra on 24 de Junho de 2015 at 21:21
    • Responder

    Quando não fala dos seus interesses, tendo a concordar com o redator do texto.
    Somos, de facto, uma classe desunida, mas uma das mais plurais e democráticas e uma das menos corporativistas… Tais factos nem sempre são maus, mas, no nosso caso, até o são.

    • Paula Gil on 24 de Junho de 2015 at 21:58
    • Responder

    A desunião é tal que já chegou à guerra aberta.

    Quanto aos diversos ciclos de ensino não superior e as suas diferenças, muito poderia ser dito.

    Na minha opinião não se justifica uma separação rígida entre o ensino superior e não superior, designadamente no que refere o horário lectivo e a remuneração.

    Esta separação é um real factor de discriminação e humilhação dos professores do ensino não superior em Portugal.

    1. Acho que também não havia de haver separação entre o cirurgião e os funcionários que limpam a sala de operações.É um disparate haver disparidade nos ordenados.Sinceramente quando a senhora quiser ser operada pelos dignos funcionários da limpeza diga-me qual o hospital para eu não ir para lá.

        • Paula Gil on 25 de Junho de 2015 at 9:15
        • Responder

        Governados por gente que nunca trabalhou nem estudou,
        sem obra científica,
        licenciaturas esquisitas que afinal não eram licanciaturas,
        omitem do currículo que foram professores do “ensino primário”,
        ofendem todos os professores do ensino não superior

        https://twitter.com/jfilipev/status/605726856843825152

        https://twitter.com/jfilipev/status/605727370478256128

        https://twitter.com/jfilipev/status/605729041862291457

    • Fafe on 24 de Junho de 2015 at 22:12
    • Responder

    “A nossa desunião resume-se à competição a que nos submetemos entre pares e à defesa do indefensável.”

    A desunião é notória porque?

    Porque, mesmo que contratado há vinte anos,não irei admitir ser “avaliado” por um “quadro” inferior.

    • Paula Gil on 24 de Junho de 2015 at 22:28
    • Responder

    Encontrei isto na NET

    http://www.jn.pt/blogs/paiva/archive/2009/05/12/com-que-ent-227-o.aspx

    • Paula Gil on 24 de Junho de 2015 at 22:38
    • Responder

    ******************* A omissão da lógica ***********************************

    na NET

    “[…] fez o curso do Magistério Primário […] Omitindo estes factos, o «curriculum» oficial revelava-nos […]”

    http://aventar.eu/2010/07/02/a-formidavel-derrota-de-maria-de-lurdes-rodrigues-balanco-de-um-mandato/

      • caracol on 24 de Junho de 2015 at 22:55
      • Responder

      Só precisou de 6 ANOS 2 MESES e 12 DIAS para encontrar!!!!

    • Vírgula ofendida on 24 de Junho de 2015 at 22:59
    • Responder

    Sinto-me tremendamente maltratada neste texto, sr. professor. Há por aqui muitos sujeitos e predicados que não me admitem pelo meio… Creio que no primeiro ciclo já consto do programa. Também sou factor de (des)união entre professores?!

    • Isa Bel Lou on 24 de Junho de 2015 at 23:41
    • Responder

    Enquanto tratarem funcionários públicos ou contratados pelo estado MEC- bacharéis ou licenciados – como professores só por aturar canalha, a guerra entre colegas não vai terminar..!

    • Professor anónimo on 24 de Junho de 2015 at 23:47
    • Responder

    Quem ouve os professores julga-os a todos com muita moralidade, mas quem analisa as suas práticas, no seu dia-a-dia nas escolas, conclui que há muita falta de ética. A dependência, geradora de medos, tornou muitos professores egocêntricos, egoístas e hipócritas.

    • Nuno Couto on 25 de Junho de 2015 at 0:02
    • Responder

    Eu como tenho uma mentalidade moderna e até porque já há muitos anos antevia estes cenários todos (quase todos) Digo o que sempre disse:
    NÃO às classes!
    Trabalho igual salário igual – isso sim!
    Enquanto houver indíces de vencimento na nossa profissão e em todas as outras profissões geridas pelo estado, nunca pode haver união, porque a regra é sempre a mesma: passar por cima de tudo e de todos para subir de escalão….

    1. Claro e as nossas auxiliares devem ter o mesmo ordenado que nós, em boa verdade muitas até podem dar exemplos de civismo a certos professores do “tu camarada pá”.

    2. Trabalho igual, salário igual é um excelente fator motivacional… Todas as empresas usam esta estratégia para motivar os seus funcionários a trabalhar mais e lutar por subir na profissão!

      Pensou mesmo no que disse?!?

      Há cada um…

      1. Pensei sim, o ministério nos anos 80 até deu um curso de 9 meses ás responsáveis de creches e jardins de infância desde que tivessem o antigo 5ºano.As jovens educadoras saídas das Escolas do Magistério(com 11º ano+3 anos de curso) tiveram de esperar para entrarem para o quadro e tem hoje muito menos tempo de serviço e ordenado.Lindo foi também o exemplo da equiparação desses educadores e outros professores do Magistério a bacharéis para prosseguimento de estudos.E ainda se atrevem a gozar com as licenciaturas do Relvas e do Sócrates……os/as ditos/as docentes anteriormente mencionados deviam ter vergonha na cara.Para não falar nas educadortas a avaliar todas as colegas do grupo de Expressões (essas desgraçadinhas do grupo 910, que dão mais erros que o merceieiro de Campo de Ourique, esse ao menos ninguém o engana nas contas)

          • Ruy on 25 de Junho de 2015 at 18:12

          Desculpe Pois não era a si que eu queria responder, mas ao Nuno Couto.

          • Pois on 25 de Junho de 2015 at 18:25

          Deu para perceber! 🙂

          • Corvo Mon on 26 de Junho de 2015 at 18:10

          Essas do 910 que dão muitos erros eram colegas do Relvas no PRIVADO, não sabia??? Pois o problema da Educação são os políticos e os seus “politiqueiros”!

    • eu próprio on 25 de Junho de 2015 at 9:04
    • Responder

    Para sermos Professores e nos elevarmos à importância do tema e estarmos TODOS no mesmo patamar deveria o texto também contemplar a guerrilha entre os Professores do Público e os do Privado confundindo cada sistema por si com os Professores (pessoas) de cada Escola/sistema.

    • AOliveira on 25 de Junho de 2015 at 12:06
    • Responder

    É triste, mas é verdade… até mesmo entre professores do mesmo grupo de ensino… assim não vamos a lado nenhum e o MEC aproveita, claro…

  2. Basta ler os comentários expressos aqui para ver que os professores são demasiado desunidos….

    • mario silva on 25 de Junho de 2015 at 23:15
    • Responder

    esta perspetiva mostra que a classe docente é um refúgio laboral…

    • mario silva on 26 de Junho de 2015 at 12:45
    • Responder

    O número tanto pode ser vulnerável como invulnerável. Se sofre divisão, o número é vulnerável; se mantém coeso, é invulnerável.
    A aceitação natural das especificidades (que estão pouco discriminadas) seria o caminho para a invulnerabilidade.

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