Qualquer um desistia da ideia…

Um dia também eu desistirei, mas esse dia ainda não chegou.

Os últimos 20 anos de educação em Portugal foram de um desgaste imenso para a classe docente. O mundo acelerou a fundo e tornou-se diferente, mais avançado e menos tolerante.

Os professores que se estão a aposentar por estes tempos, são professores que começaram a sua carreira durante os anos 80 do século passado. Quando um computador era uma coisa de que se tinha ouvido falar na televisão e era tão caro que não se podia comprar com o vencimento de um professor. Dos telemóveis, ainda não se ouvia falar e a maior parte ainda tinha um telefone fixo que quando tocava  acordava o prédio inteiro que ficava à escuta para ouvir quem telefonara. Smartphones? Nem nos filmes de ficção cientifica se vislumbravam. Já se previam os smartwhatch e carros que falavam e com condução autónoma, mas não passava de um futuro longínquo.

Na altura, ainda todas as salas de aula tinham um quadro de lousa negra com um crucifixo pendurado por cima deles. O giz era branco e apenas branco, porque não se fabricava de outra cor. Aos pés do quadro existia o estrado que permitia ao professor disfarçar a sua pequena estatura e, mesmo sendo baixo, parecia um gigante. Havia salamandras e fogões a lenha nas salas das escolas primárias que populavam os montes e vales de um país que mesmo dentro de si próprio distava muito de si mesmo. O chão das salas de aula era em madeira tratados a cera…

O trabalho dos professores era duro, isento de meios, dispensáveis para a época, mas era previsível. De um ano para o outro pouco mudava. Os alunos iam e vinham, passavam, ficavam durante uns anos e seguiam caminho, uns mais cedo que outros, uns perdiam-se, outros achavam o sentido da vida. Amontoavam-se dentro das salas de aula até não caberem mais, calados enquanto o professor falava e usavam da palavra quando lhes era solicitado ou permitido.

Os livros passavam de irmãos para irmãos, só os cadernos se iam trocando, quando as folhas estavam todas ocupadas pelo que se copiava do quadro negro em que os professores rabiscavam, dia após dia… Fotocópias? Coisa de luxo de algumas escolas de cidade, mas nem todas tinham essas máquinas complicadas de usar.

Esses professores(as), têm vindo a reformar-se, depois de terem passado por quatro décadas de mudanças. O novo milénio trouxe-lhes de tudo. Desvalorização social, desvalorização profissional, desrespeito, os filhos e os netos dos seus primeiros alunos, ou dos que poderiam ter sido. Novas regras, novos currículos, novas funções, novas matérias, novos métodos, novos projetos do que a escola deve, ou pode, ser… novos problemas. Para muitos, até a tecnologia, que devia servir como auxiliar, passou a ser mais um entrave.

É aos professores que se formaram e começaram a trabalhar na década de 80 do século e milénio passado que, agora, se pede para continuar, para voltar e para se voluntariar. Cansados, desiludidos, envelhecidos, mas pede-se-lhes para que continuem.

Está mais que provado que eles não vão voltar, não vão continuar e já foram voluntários e voluntariosos durante tempo demais. Quando começaram a dar aulas, acordaram com eles, muito menos anos do que aqueles que deram à escola, aos alunos e à sociedade. Apelam, para que fiquem, voltem e se voluntariem àqueles que tudo sofreram. Eles não vão continuar, não vão voltar e não se vão voluntariar.

Eles sabem-no, e a mim, disseram-mo eles, com o carinho e o sorriso que os caracteriza quando me falam dos seus tempos  como professores(as), do que passaram e não desejam que eu passe. Eles disseram-mo, mas eu já o sabia. Sabia-o porque os ouvia, ouço e tomo atenção ao que me dizem os professores(as) que andaram e andam pelas escolas.

Há ideias que por mais interessantes que possam ser, não passam de utopias. E, perante utopias, as pessoas desistem de ser tudo aquilo o que poderiam ser.

Desistam lá dessas ideias…

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20 comentários

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    • Anonimo on 24 de Dezembro de 2024 at 9:34
    • Responder

    Há uns que voltam.
    São os que andaram a gozar com todos os outros. Os que andaram a mandar, que não fizeram nada e estão fresquinhos para ganhar 750 euros sem fazerem nada na mesma.
    São os que andaram a mamar à conta e querem continuar a mamar.
    Os que foram filhos da p. com os outros e agora continuam a sê-lo com quem prejudicaram e ridicularizaram.
    Esse voltam sempre. Mas nunca foram Professores.

  1. Eu comecei a trabalhar nos anos 80, só vou ficar mais um ano porque quero chegar ao 10º escalão, após a recuperação do anos que me roubaram! Depois vou-me EMBORA!!!

      • Aposentadoria on 24 de Dezembro de 2024 at 17:41
      • Responder

      Passas para o 10.⁰ escalão e de que isso te serve?
      Os descontos para a CGA já foram feitos, não é agora por chegares ao 10 que vais com mais reforma.
      Fica até aos 70 anos, para levares uma reforma maior

        • LD on 24 de Dezembro de 2024 at 17:51
        • Responder

        Ficar até aos 70?
        Não serve de nada também, pois o que conta são os últimos 10 anos.
        Mais dois ou três anos não fazem diferença quase nenhuma. São um logro.
        Quem está bem foi quem andou a mamar à conta.
        Eu não ficarei nunca para além da idade “normal” da reforma. Não compensa o desgaste.

          • Reformas on 24 de Dezembro de 2024 at 18:57

          Errado. Desde 2005 que isso mudou. O calculo da sua reforma tem duas componentes. Uma até 2005 e outra a partir de 2005.. Na parte a partir de 2005 é a média de todos os anos, pelo que qto mais trabalhar maior vai ser a reforma

          • Esclarecimento on 24 de Dezembro de 2024 at 21:56

          Informe-se melhor, Reformas.
          Com a penalização que foi introduzida no ano em que chegou a Troika, ainda com Sócrates e o PEC3, verá que não é assim.
          Aliás, conheço vários casos de colegas que foram penalizados porque sairam sem terem os 10 anos no último escalão, mas já não podiam mais.
          O que conta é terem os 10 anos no último escalão, o que, convenhamos, já nao será para muitos e, futuramente, não será para quase ninguém.
          Contentem-se por estarem no 8.º ou no 9.º. Quem dera a muitos um dia chegarem aí, o que não vai acontecer.

        • Descamisado on 28 de Dezembro de 2024 at 15:18
        • Responder

        Eu tenho 70 e levo, 45 anos de serviço e estou no 2° escalão (motivo, abuso de poder do DT da escola, assédio, etc., etc,. etc. ) e dizem-me que isto é viver em democracia, a direção que está hoje só me quer ver pelas costas.
        3 cartas para a PR espaçadas em 4 ou 5 a pedir audiência e respondem-me, – questões de trabalho não é com o PR, é na 24 julho.
        Na AR já nem me atendem o telefone.

    • Francisco João Batista da Graça Abrantes on 24 de Dezembro de 2024 at 16:38
    • Responder

    Concordo plenamente.

    • Telmo Bértolo on 24 de Dezembro de 2024 at 16:43
    • Responder

    Eu comecei a trabalhar nos nos 80. Daqui a 2 anos cumprirei o tempo necessário para a aposentação. Estive 16 anos no mesmo escalão. Mesmo assim, no próximo ano chegarei ao 10.o escalão. Ao chegar a altura da aposentação partirei para uma nova etapa na minha vida.

      • Aposentadoria on 24 de Dezembro de 2024 at 17:36
      • Responder

      Passas para o 10.⁰ escalão e de que isso te serve?
      Os descontos para a CGA já foram feitos e com esses 16 anos no mesmo escalão.
      Fica até aos 70 anos, para levares uma reforma maior

        • LD on 24 de Dezembro de 2024 at 17:53
        • Responder

        Não, não leva.
        Tinha de ficar uma década para isso fazer algum efeito razoável.
        Não é por 2 ou 3 anos que vai fazer diferença.
        Mais vale sair ainda com saúde, do que estar mais 3 anos a desgastar até ao limite.
        Pelo menos é o que penso e é o que farei, quando chegar a minha vez.

    • Joaquim on 24 de Dezembro de 2024 at 23:47
    • Responder

    Eu, com 39 anos de serviço iniciados na década de 80, pedi a reforma, para novembro e ainda aguardo, por idade legal. Sem nada recuperar não espero por isso. Vou me embora no sétimo feliz, por sair. Farto de ser roubado e de injustiças. Não vale a pena . O ensino já foi, a escola já foi, só políticos e sua influência.

    • Reformas on 25 de Dezembro de 2024 at 9:32
    • Responder

    Esclarecimentos leia e aprenda (retirado do site da CGA)

    Grupo C – Subscritores inscritos até 1993-08-31 sem condições para aposentação até 2007-12-31 (sem salvaguarda de direitos)

    A pensão de aposentação dos subscritores inscritos até 1993-08-31 sem 37 anos de serviço em 2007-12-31 é calculada da seguinte forma:

    Fórmula de cálculo: P1 + P2

    em que:

    P1 é a primeira parcela da pensão, calculada com base no Estatuto da Aposentação e no tempo de serviço que podia ser contado até 2005-12-31;

    Fórmula de cálculo de P1: R x T1 / 40

    em que:

    R é 80% da remuneração ilíquida auferida até 2005-12-31 revalorizada (limitada a 12 IAS, salvo se a pensão, calculada como o P2 da Lei n.º 60/2005, de 29 dezembro, com base na remuneração mensal média desde 1993, for superior);

    T1 é a expressão em anos do número de meses de serviço (contados nos termos do Estatuto da Aposentação) passível de ser considerado pela CGA em 2005-12-31, com o limite máximo de 40 anos;

    P2 é a segunda parcela da pensão, determinada por aplicação das regras do regime geral de segurança social, à semelhança do que sucede relativamente aos subscritores inscritos a partir de 1993-09-01, com a especialidade de não haver limite mínimo (30%) de taxa de formação da pensão, e corresponde ao tempo de serviço posterior a 2005-12-31 estritamente necessário para, somado ao da primeira parcela, perfazer a carreira completa de 40 anos.

    Fórmula de cálculo de P2: RR x T2 x N

    em que:

    RR é a remuneração de referência

    Fórmula de cálculo de RR: TR /(n x 14)

    em que:

    TR é o total das remunerações anuais revalorizadas mais elevadas registadas a partir de 2006-01-01 correspondentes ao tempo de serviço necessário para, somado ao contado até 2005-12-31, perfazer a carreira completa de 40 anos;

    n é o número de anos civis com registo de remunerações

    T2 é a taxa anual de formação da pensão, entre 2% e 2,3% em função do valor do valor da remuneração de referência e do serviço após 2005;

    N é o número de anos civis com densidade contributiva igual ou superior a 120 dias com registo de remunerações completados a partir de 2006-01-01, para, somados aos anos registados até 2005-12-31, perfazerem a carreira completa de 40 anos.

      • Ilidia on 25 de Dezembro de 2024 at 15:46
      • Responder

      Se o qu erefere aqui é verdadeiro, quem entrou depois não tem reforma quase nenhuma.
      Andamos a descontar para o boneco.
      Grande país de treta este.

    • Antonieta on 25 de Dezembro de 2024 at 21:58
    • Responder

    Hahahahaha eu nem tenho cga, tive até à 2 anos, mudei de escola e por engano começaram a descontar para a SS. Não reparei até agora…. Estou a aguardar que me voltem a inserir.

    • Jm on 26 de Dezembro de 2024 at 7:00
    • Responder

    As pessoas ainda pensam que por chegarem ao 10º escalão no ultimo ano antes da aposentação isso vai ter relevancia? Pararam nos anos 90 do ano passado?

    • Jm on 26 de Dezembro de 2024 at 7:02
    • Responder

    *século

    • Ricardo Almeida on 26 de Dezembro de 2024 at 23:09
    • Responder

    Foi pena, com tudo o que passaram e poderiam agora transmitir, não terem criado uma ordem profissional. Ficaram, a partir de certa altura, reféns de um sindicalismo terrorista. Que os usa sem pudor.
    O que mais choca, e é injusto para muitos professores, é observar diálogos e comentários como os que se vêem neste blog e sobre este texto em particular. Parece uma tasca mal cheirosa. E não se compreende como anda gente desta a dar aulas . O

    • Ana silva on 27 de Dezembro de 2024 at 8:49
    • Responder

    *até há 2 anos, ai, ai…

    • João on 30 de Dezembro de 2024 at 15:05
    • Responder

    Assinei o 1.° contrato a 1 de Outubro de 1980, com 23 anos, licenciatura do ramo de formação educacional, FCUL. Reformei-me em 2023, com 66 anos, com 43 de serviço. O único cargo que ocupei foi DT, nunca gostei de cargos decorativos. Se não fosse leccionar no privado durante 30 anos teria desistido muito antes. Os últimos 13 anos começaram por ser surreais, até tinha piada, -uma escola pública surrealista é engraçada-depois, com a entrada dos diretores, irracionais, já sem piada. Talvez o recente estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos seja um violento indicador da falência do ensino publico:40% da população portuguesa é analfabeta funcional. Penso que a percentagem peca por defeito, mas é significativa.

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