No começo de um novo ano escolar, pareceu-me que podia fazer sentido falar de coisas que, sendo essenciais, vão passando ao lado do debate político. Com efeito, a vertente forte da contestação dos professores tem-se cingido à recuperação do tempo de serviço e a outros temas relacionados com a carreira.
A Educação é um serviço público e o direito de todos à Educação é um dos pilares fundamentais do Estado de direito. Mas o Estado tem falhado na regulação da Educação, particularmente no que à sua qualidade respeita e na protecção daqueles que têm mais vulnerabilidades socioeconómicas.
Tenho escrito repetidas vezes que educar é uma arte, que não uma ciência. Métodos e doutrinas pedagógicas não são cientificamente demonstráveis como correctos ou incorrectos, em termos absolutos. O que resultou num determinado contexto, com determinados alunos, professores ou escolas, pode não resultar em contexto diferente. É por isso que está errada a actual imposição de uma “pedagogia de Estado”, que tem vindo a transformar professores em agentes funcionalizados de ensino, quando eles devem ser autores, sublinho autores, de ensino. O voto confere legitimidade democrática. Mas não confere autoridade pedagógica.
O Currículo Nacional não pode continuar a ser esquartejado. Obrigatoriamente deve conter conhecimentos estruturantes (Língua Materna, uma ou várias Línguas Estrangeiras, Literatura, Filosofia, História, Geografia, Matemática, Ciências Naturais, Música, Artes e Educação Física e Desporto). A estas áreas acrescerão disciplinas “qualificantes”, consoante a diversidade dos diferentes cursos.
Os responsáveis têm promovido a “inovação” a uma espécie de Deus ex machina. Ora o que interessa não é se a intervenção é tradicional ou inovadora, mas sim se resulta ou não. Vivemos num autêntico vórtice de “inovações” não testadas, impostas centralmente a quem sobre elas devia decidir, isto é, o professor. Só que os clássicos teoremas matemáticos tanto se ensinam usando os modernos quadros digitais interactivos, como usando o velho quadro negro e um pau de giz.
Em contraste com os erros enunciados, imagine que reduzíamos o número de alunos por turma, digamos que a um máximo de 20. É minha convicção que melhorava substancialmente a aprendizagem e a disciplina. Do mesmo passo, se diminuíssemos a carga horária global dos alunos, libertando tempo para o estudo acompanhado por professores e para o desporto organizado, melhorávamos a sua saúde, protegíamos as actividades socializantes próprias da infância e da adolescência, que agora não têm, e defendíamos os que não podem pagar explicações, promovendo o verdadeiro sucesso escolar. Por outro lado, se o actual Estatuto do Aluno, indutor de facilitismo e de direitos sem deveres, fosse substituído por outro, assente na promoção de princípios éticos e morais, que consagrasse o aprender como o primeiro dever do aluno, reforçaríamos vigorosamente o processo de construção de cidadãos íntegros e devolveríamos a autoridade aos professores e às escolas.
Se libertássemos os professores da alienação burocrática em que vivem e extinguíssemos o kafkiano modelo de avaliação, desadequado e pejado de grosseiros erros técnicos, o corpo docente rejuvenescia. Se reformássemos radicalmente os concursos de recrutamento e colocação de docentes, com uma intervenção corajosa e tecnicamente possível, mas nunca até hoje assumida, pôr-se-ia fim à decantada instabilidade profissional e familiar de quem ensina, com incomensuráveis benefícios para os alunos.
Se as escolas passassem a ser governadas por um novo modelo de gestão, verdadeiramente democrático, e jamais fosse possível atribuir-lhes uma só nova tarefa sem o reforço dos recursos humanos e materiais necessários, a produtividade aumentava e removeríamos a politização perniciosa, o centralismo asfixiante e a conflitualidade desagregadora.
Por fim, tal como não se pode outorgar aos professores responsabilidades sem lhes conferir autoridade, tão-pouco se pode dispensar os pais do dever de educar os filhos. A vida dura dos pais e os seus absorventes deveres laborais não os podem alhear do valor mais alto a que devem responder: educar os filhos. O Estado tem de responsabilizar os pais pelos comportamentos dos filhos, sempre que estes geram a indisciplina e prejudicam a paz nas escolas.
In Público de 13.9.23




10 comentários
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Santana a ministro, JÁ!
Magnífico (em todos os aspetos: forma e conteúdo)!
Concordo plenamente com tudo o refere.
O problema é que o Estado não responsabiliza os pais negligentes na educação dos filhos. Limitou-se a criar uma lei, o Estatuto do Aluno que, para pouco serve, só para aplicação ao trabalho dos professores! Assim, eis que vemos determinados enc. de educação a bradarem nas escolas contra os professores, porque não aceitam os comportamentos indisciplinados dos seus filhos, desculpabilizando-os e descarregando a sua impotência sobre os “ceguinhos”, neste caso, os (as) professores(as)! Tão triste!
Concordo, o estatuto do aluno, não é mais do que um conjunto de tretas para dar mais trabalho e burocracia para o stor@s.
Depois, qual é o Profess@r que consegue pagar um segundo alojamento, ou viagem diária com centenas de kms????
Desde 2005 que a inflação subui quasr 100%, sendo que a “actualização” salarial liquida fica-se por 1 digito significativo.
Vale mais trabalho ao pé de casa com o SMN, do que longe, e andar a pagar para trabalhar.
Depois não há Professores….
Este senhor é que devia estar LÁ! Costa para a RUA já!
Desta vez é que foi. Disse tudo o que era necessário e com uma visão correta.
Muito bom artigo. Enviem aos Costas em carta registada.
Em termos de rendimento líquido, recebo bastante mais a trabalhar como repositora no Pingo Doce lá da terra do que a ir aturar canalha em Lisboa. Esquece…
GRANDE Santana Castilho!!!! Ao pé deste homem, qualquer pedagogo da treta é um verme, uma bactéria infecciosa.
Tudo aquilo que me levou a abandonar esta grandessíssima treta da Deseducação Nacional descrito eximiamente.
Obrigado!
Se o Governo quisesse, tudo seria melhor e quase o ideal, mas não quer !
Assim sendo, continuamos neste pantanal de mediocridade.