Pacientemente, deixei o tempo atirar para o passado um momento inesquecível. Hoje, tenho por tarefa, o dever de partilhá-lo convosco.
Aconteceu num desses meses de setembro, numa sala dos professores, durante um almoço do «clube» da marmita. Estávamos a felicitar uma colega que ficara colocada no quadro do agrupamento. Agradeceu-nos com um sorriso agridoce alagado de lágrimas. Poderíamos supor que eram lágrimas de contentamento, mas depressa nos apercebemos que, por alguma razão, estas revelavam muito mais. Fomos inundados por um dilúvio de emoções que desabou diante dos nossos olhos. A alegria de, finalmente, depois de tantos anos a percorrer escolas do país, ter conseguido colocação na área de residência, foi largamente suplantada por um regresso onde encontrou a sua casa vazia. As paredes, as portas, os móveis e as pessoas que sorriam nos retratos espelhados pela casa, permaneciam iguais como antigamente, mas faltava algo. De resto, o silêncio ensurdecedor daquele ninho vazio demonstrava que não estava ali o mais importante – faltavam as filhas. As duas já não habitavam aquele lar, tinham ido para a faculdade. Não conseguia compreender como é que o tempo andara tão devagar e as filhas cresceram tão depressa…
Foi o momento terrível em que, realmente, se apercebeu qual tinha sido o preço a pagar por ter optado por abraçar esta profissão; um momento em que alguma coisa morreu dentro de si.
Roubaram-lhe as filhas e retiraram-lhe o direito de as ver crescer e de terem uma mãe presente. Extorquiram-lhe o melhor da vida e, nesse momento de reflexão, apercebeu-se que tudo o que foi perdido, já não voltaria mais, desaparecera para sempre. Compreendeu que não havia dinheiro no mundo capaz de pagar ou de reparar aquela perda.
O substrato que irradiava daquele vazio nada mais era do que a crueldade de reconhecer que lhe haviam amputado um bocado de si. Revelava-lhe quem, na realidade, nós somos; somos, tão somente, o resultado das nossas escolhas.
Nesse dia, sentiu tristeza e revolta por não ter tido a coragem de colocar a família em primeiro lugar. Experimentou o sabor amargo de ter sido usada e abusada na sua dignidade, no seu direito à família e no direito a ser feliz. Com a obtenção do lugar naquela escola, sentiu que, depois de violentada, lhe tinham dado um mero rebuçado para a compensar; que foi o fim de uma ilusão e que todo o sacrifício não valera a pena. Era a constatação de que, da vida de professor, eles não sabiam nada.
Mas, o que mais a entristecera, foi ter-se apercebido da violência afetiva que isso causara nas suas filhas. Compreendeu que, pior do que o inferno da solidão, só mesmo o insustentável peso do arrependimento.
Foi quando deixou a alma em fuga escapar-lhe pela boca sob a forma das palavras que pudemos escutar: “Se ao menos eu pudesse fazer o tempo voltar para trás…”
Queríamos dizer alguma coisa, mas deixou de ser possível, pois não sabíamos como lhe dar o que ela mais precisava – devolver-lhe o passado. Mergulhámos o olhar nos tupperwares, enchemos as bocas com garfadas de silêncio e, durante longos instantes, partilhámos aquela dor, que também era nossa, numa mesa onde se tornaria impossível esconder as cicatrizes de uma vida, porque todos nós, em algum sítio e de alguma forma, também estávamos amputados. Todos conhecêramos um preço que só cada um sabia. Uns suportaram, outros procuraram ajuda e outros, pura e simplesmente, já não estavam mais connosco, porque não conseguiram aguentar. Encheram-nos de esperança, depois, de medo tornando precária a nossa existência e, sem darmos por isso, levaram-nos a vida.
À volta daquela mesa, estropiados, despidos das máscaras de sorrisos forçados, nus e emudecidos, revelámos a um mundo cheio de indiferença para connosco, um dos principais motivos pelos quais já «ninguém» quer ser professor.
Carlos Santos




10 comentários
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Texto brilhante e elucidativo do que é a vida de um professor. Um professor tem de ter direito á sua estabilidade emocional e familiar.
Excelente texto. Informa muito bem a vida de um professor e as consequências familiares.
Pior é a situação dos contratados precários aqueles que têm pouco tempo de serviço, estes últimos nunca sabem quando vão voltar a trabalhar. Nem nas férias têm o merecido descanso psicológico pois a preocupação de não ter colocação, abafa qualquer forma de “descanso” em tempo de férias, é sempre uma preocupação, um desgaste mental constante…
Dá vontade de dizer um palavrão…”porra”…
O que dirão os nossos pais que passaram o “diabo” para conseguirem estabilidade e para conseguirem organizar a sua vida.
Muitos de nós somos filhos de quem esteve longe durante anos e nunca ficámos traumatizados ou alguma vez se cobrou aos nossos pais a sua ausência!
Fazia parte da vida…porque a vida não é fácil!!
Que raio de discurso miserável, sempre a queixarem-se e a vitimizarem-se.
É demais”!
Geração rasca….
Venham lá os insultos, as ofensas e as ameaças ao que eu escrevi.
Venha de lá o discurso do “coitadinho”…
É por isso é que lá fora, somos mal vistos. É esta atitude “miserabilista”, sempre de queixume, que nos torna uns fracos.
Ninguém tem respeito por nós.
Porra!
Sacrifícios fizeram muitos e continuam a fazer!!!
Porra, porra, porra!
Apresentem ideias do que se pode fazer para melhorar e não se andar sempre a criticar e com este discurso do coitadinho.
Partilha da dor, também faz parte da vida. Deixe mais que críticas, onde estão as suas sugestões?
A maioria de nós passou pelo mesmo. Quando fui vincular à Madeira em 1996, encontrava sempre no avião, nas interrupções letivas, uma mãe sozinha com dois filhos muito pequenos, de idades do pré escolar. E lá estavam sempre os três no avião, crianças que não perturbavam com barulho, ou falar alto. E foi assim até final do ano. Atualmente a situação é a mesma . Quem tira un curso para ser professor, atualmente sabe muito bem o que vai passar.
Quase todos da minha idade passamos o mesmo. Os professores que foram dos nossos pais tinham que ficar nas aldeias a semana inteira e muitos casavam e faziam a sua vida na mesma escola até à reforma.
Esta história dos filhos já enjoa, sinceramente…
Toma um comprimido.
Sempre o mesmo discurso vitimizante, o mesmo choradinho de sempre. Em que realidade paralela vivia esta gente quando optou por esta profissão? Não tinham, já, bem presentes, algumas características inerentes à escolha desta profissão? Sempre a reproduzirem este discurso miserabilista. Que maçada! Que falta de paciência!
Tínhamos presentes todas as características e um ECD muito mais humano, que ainda hoje nos devia reger!