Telefonei à Ministra da Educação – João André Costa

 

Num futuro não muito distante, daqui por um ano, ou no ano a seguir, quem sabe:
– Estou, está lá?
A Ministra, do lado de lá: – Está sim?
O professor: – Bom dia, está a ouvir-me bem?
– Estou sim, estou a ouvi-lo perfeitamente.
– Óptimo, é porque estou a ligar de Paris através da net e queria ter a certeza.
– Através da net? Ora vejam lá!
– Sim, tem de ser, é mais barato quando se vive cá fora para podermos ligar para casa mas também outros números fixos.
– Tem piada, veja lá, o que eles inventam hoje em dia. Mas então, diga lá, em que posso ser útil?
– Estava a ligar por causa das colocações e da falta de professores.
– Estava? Mas já não está?
Silêncio do lado de lá da linha. A Ministra prossegue:
– Desculpe, não me consegui conter… agora a sério, pode continuar, por favor.
– A culpa é minha, ainda para mais quando se passa metade do tempo a falar em Francês e a outra sem saber muito bem o quê. É uma algaraviada. Sim, mas como dizia, liguei-lhe por saber nas notícias dos milhares de horários por preencher e quero saber se posso ser colocado numa escola.
– Quer ser colocado numa escola? Mas isso são óptimas notícias! Você nem sabe como isto anda, parecem as aulas do antigamente, os miúdos na rua contentes da vida com furos a toda a hora, o Primeiro-ministro com Bruxelas à perna sempre a bater-me à porta, eu nem lhe conto! Mas adiante, que isto são outras conversas. Então diga lá.
– Lá. Agora sou eu que não me consegui conter.
Os dois a rir ao telefone. A Ministra, ainda a sorrir:
– A culpa é minha. Então diga.
– Claro, e eu continuei. Mas sabe-me dizer se posso ser colocado na Escola Secundária de Palmela?
– Palmela? Com certeza! Vou já tratar disso! Mas posso perguntar porquê Palmela? É bem bonito! Já foi ao castelo?
– Sim, claro. É porque sou de lá e quero ficar ao pé de casa. Aliás, como aqui.
– Com certeza. Olhe, eu faço o mesmo, moro já ali na Lapa e venho todos os dias a pé. Qualidade de vida, não é? E em que grupo?
– Electrotecnia, se faz favor.
– Já está colocado! E desculpe perguntar, é para quadro de escola, não é? É porque agora os professores estão sempre de um lado para o outro, hoje querem ensinar, amanhã não, ou então compram casa e querem mudar outra vez, eu sei lá, isto não pára. E dinheiro? Olhe, o orçamento para a defesa já foi!
A Ministra rebenta em gargalhadas. Eventualmente a Ministra contém-se, coloca a mão à frente da boca como se procurasse desculpar-se e acrescenta:
– Desculpe outra vez, sabe como é, temos de rir para não chorar e até eu já estive mais longe de voltar ao ensino. Aliás, é o que eu vou fazer quando sair daqui, voltar para a Primária e até já falei com o Primeiro. Mas lá estou eu em conversas! Quer ficar em quadro de escola?
– Não há problema, compreendo perfeitamente. Sim, em quadro de escola, por favor.
– Excelente! Vou já tratar disso!
– E já que falou em dinheiro, pois claro, sabe-me dizer se têm mais escalões para além do décimo? É que aqui um professor de início de carreira já ganha mais que o décimo.
– Eeeh, não, isso não… mas já reformulámos os escalões para o dobro cada um! E mesmo assim continuamos com falta. Até lhe digo mais, já não sei se são os professores que ganham demais se os ministros que ganham de menos!
– Bem sei, vi nas notícias. Mesmo assim continua abaixo dos vencimentos aqui. É pena, mas não estou interessado. Bom dia e com licença.
Desliga a chamada. A Ministra fica do lado de lá com o telefone na mão a olhar o vazio. Cai o pano.

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15 comentários

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    • sardanisca on 3 de Setembro de 2023 at 12:02
    • Responder

    !! ??????

    • Pobre Povo on 3 de Setembro de 2023 at 12:32
    • Responder

    Só um parvo ignorante que vive fechado no seu casulo tuga, consumindo news tuga, é que acredita que os profs da UE além fronteiras têm condições de vida e de trabalho deploráveis como cá no burgo.

    Não é fenómeno único do nosso sector, mas a isto acresce uma desonestidade intelectual e manipulação de factos dirigida à nossa classe que é inqualificável.

      • Anónimo on 3 de Setembro de 2023 at 21:07
      • Responder

      Nem mais.
      Aqui ao lado, na Espanha, onde os salários dos professores também não são grande coisa, um professor ganha quase o dobro do que ganha cá.
      Não é de admirar que vários professores portugueses tenham ido para lá dar aulas.
      Ganham mais e, em várias situações, até têm menos custos, já que lá os produtos são mais baratos em média.

  1. Os “Educateurs Sans Frontières” são bem-vindos a Palmela.
    Especificamente, os Cristãos do agrupamento “Corner of Hope” no Quénia demonstraram que sabem reunir uma comunidade em torno da sua Escola. Bem-vindos a Lisboa, mesmo os que não são Católicos.
    Alguém encontrou, de entre as Bibliotecas de Porugal, alguma cópia da “Antropologia Pedagogica”, reunida pela 1.a médica de “La Sapienza”, por altura que os portugueses acabaram com a sua Monarquia?

    • KT on 3 de Setembro de 2023 at 18:21
    • Responder

    Cai o pano. E não houve aplausos nem nada?
    Já não há sentido de humor?

    1. Depois de observar o “Parque Tejo”, será interessante a “ponte da amizade” Jesuíta entre o Colégio Pedro Arrupe e o empreendimento imobiliário da Sociedade Anónima Alves Ribeiro. Depois de estudar «Laudato si’», Lisboa terá finalmente uma cópia da «Antropologia Pedagogica» para junar à «Pedagogia Cientifica», numa nova Biblioteca Nacional? A atual é aterrorizada por cada avião que a sobrevoa, de 3 em 3 minutos.
      Qual foi a cota que o maremoto de 1/Nov/1755 atingiu em Sacavém?
      O tempo não esá para brincadeiras. Procura-se “Arte de Ser Feliz (conselhos de um professor)” (1917) do Professor-Inspetor Ricardo Rosa y Alberty, nascido em Viana do Alentejo.

        • Anónimo on 3 de Setembro de 2023 at 21:10
        • Responder

        Quem tem dinheiro, paga e repaga.
        Enquanto isso, a Escola Pública é impedida de ter os melhores profissionais, pois quem pode sai para outros sítios ganhar justamente, em vez de ficar num local de trabalho onde a pobreza é o presente e a miséria o futuro.

        1. A miséria de um teclado em que falha a letra “t”…
          Mas Lisboa tem um Engenheiro Civil especialista em Hidráulica, com MBA de Harvard.
          O pai foi o comunista, que no Diário do Alentejo dedicou esta coluna do “Vento Suão”:
          «Olha, Carlos: depois de amanhã não é outro dia, é muito mais do que domingo, é um outro ano que começa e, por isso mesmo, estou hoje a falar contigo. Depois de amanhã, Carlos, as coisas não deveriam estar como estão hoje, como decerto vão estar amanhã. Depois de amanhã, que é domingo, quando tu acordasses, quando acordassem todos os meninos, as coisas deveriam nascer diferentes. Não falo, está claro, das árvores, dos montes, dos rios, dos mares, das estrelas, da lua, do verde das searas, do cheiro dos aloendros e das estevas, muito menos da passarada chilreando de galho em galho. Não falo das coisas da natureza nem das outras coisas igualmente belas e puras que são os animais. Depois de amanhã, as coisas que deveriam amanhecer diferentes eram os homens. Depois de amanhã, Carlos, quando tu acordasses, nenhuma criança, tua vizinha, ou de muito longe, deveria ter fome ou frio nem os pais sem ganho suficiente de lhes dar pão. Mais: quando tu acordasses, nenhum homem deveria estar em guerra, nenhuma arma deveria ter gatilho para disparar. Depois de amanhã, Carlos, deveria nascer um mundo novo, em que não houvesse meninos ricos e meninos pobres, porque os pais de todos os meninos tinham decidido unir-se numa só palavra, abraçar-se num só gesto. Depois de amanhã, que é domingo, deveria ser o ano primeiro da criação de um mundo diferente, aquele com que os poetas (ainda) sonham mesmo os que nunca foram meninos. Mas se não puder ser depois de amanhã, Carlos, que seja no outro dia, quando tu fores homem, quando forem homens todos os meninos de agora. Luta por isso, pá!»

    • 362 on 3 de Setembro de 2023 at 19:44
    • Responder

    “Telefonei à Ministra”

    No futuro não será uma ministra. Nem um ministro. Será uma espécie de arco-íris.

    1. Eu prefiro uma Troika da Educação. Pelo menos um homem e uma mulher. Um dos elementos não é português.

        • Topei-te on 3 de Setembro de 2023 at 21:11
        • Responder

        Se é troika, são três.
        Óh Alexandre, seu malandreco.

        1. Também pode ser uma Trindade.
          Católico, Hindu e Muçulmana?
          A mulher da Índia é Hindu e não tem nacionalidade portuguesa.

    • Francisco on 4 de Setembro de 2023 at 1:03
    • Responder

    Este texto é um absurdo. Nem verosímil consegue ser. Este rapaz não sabe do que fala. E vem para aqui com palermices para entreter o tempo.
    Cresce e aparece.
    Mas a principal culpa é de quem o divulga. Tem tanto juízo como ele.

      • Adidas on 4 de Setembro de 2023 at 12:33
      • Responder

      Eu considerei-o original e ilustrativo do estado da educação neste cantinho, plantado a beira mar…

      O Sr ainda vive num mundo de fantasia em que por cá o ensino é extraordinário!

      Hahaha, de extraordinário, nada tem…

      Enfim…

    • Luís Miguel Cravo on 4 de Setembro de 2023 at 13:49
    • Responder

    Muuuuito bom!!! Ainda não me tinha rido, hoje. Muito obrigado! 🙏
    No dia em que entreguei a minha carta com o pedido de exoneração do vínculo à Função Pública, isto rematou a manhã.
    Obrigado!

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