“Não abdico dos meus filhos e da sua segurança emocional”

“Não abdico dos meus filhos e da sua segurança emocional”

 

 

Quinze anos de profissão, um grande investimento no percurso formativo que a levou a poder concorrer para três grupos de recrutamento (1º Ciclo, Educação Especial e Ed. Moral) e dezenas de escolas e muitos quilómetros de estrada. Este é o resumo do percurso da professora Ana Margarida Antunes, “cansada de tanta instabilidade”. Uma instabilidade que poderia ter acabado agora, se tivesse concorrido à Vinculação Dinâmica. Os motivos que aponta para ter recusado essa opção são muitos, mas na base estão sobretudo os filhos. A morar em Amarante e a dar aulas em Lousada, a docente consegue conciliar a vida pessoal e profissional, o que poderia não acontecer se tivesse optado pela VD. “Tenho direito a escolher e não quero viver onde trabalho, mas sim trabalhar onde vivo. Quero garantir estabilidade emocional aos meus filhos. Quero ser eu a acompanhá-los, a orientá-los. Não quero que sejam criados por familiares, nem ter de os inscrever em escolas diferentes todos os anos, em diferentes localidades, para me acompanharem, não deixando de respeitar quem o faz por opção”.

Ana Margarida Antunes tomou esta decisão sabendo que arrisca “não ter colocação (oferta de horários a contrato ou os que existirem serem temporários e incompletos)” e a ser “forçada a desistir da área” em que “tanto” investiu “ao longo de duas décadas”. “Ao longo destes anos tenho sentido que a minha vida profissional é uma roleta da sorte, em que as regras estão constantemente a mudar. Os normativos legais que regem os concursos mudam com frequência e, quando acredito que conquistei uma maior estabilidade que me permite garantir uma vida digna para mim e para os meus filhos, eis que existe uma reviravolta no jogo cujas consequências são uma incógnita. Não posso abdicar dos princípios pelos quais me orientei até agora e aceitar este presente envenenado”, sublinha.

A professora diz que os filhos “têm direito a ter uma mãe presente e que exerce a função parental em função do seu superior interesse”. E acrescenta que, mesmo que estivesse disposta a separar-se dos filhos, “o salário seria insuficiente para fazer face a todas as despesas implicadas nas deslocações ou o pagamento de duas rendas”.

 

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2 comentários

    • Maria Isabel Rodrigues on 3 de Junho de 2023 at 13:56
    • Responder

    Subscrevo na íntegra.
    Encontro-me numa situação semelhante.

    • Gracinda Leão on 3 de Junho de 2023 at 15:43
    • Responder

    Exatamente a minha posição.
    No ano letivo anterior estive a 300 Km de casa, deixando em casa um filho no 9º ano. O meu filho mais velho entrou para a universidade nesse mesmo ano letivo.
    De Setembro a Julho fomos uma família de quatro pessoas distribuídas por 3 casas, logo, financeiramente foi um “buraco”.
    Viagens semanais, com duração de quase cinco longas horas de autocarro ou de comboio.
    As muitas horas de videochamadas com os meus filhos nunca compensaram a ausência. A consciência de saber que, se alguma coisa acontecesse, eu demoraria a chegar, mesmo que fosse de carro causou-me enorme intranquilidade.
    Gastar metade do salário em alojamento, viagens e, sobretudo, desgastar a vida, a família, a saúde não é solução, é ser escrava de um sistema que não valoriza esse esforço.
    Não pedi recondução e voltei para a minha família e casa, no Interior, onde há muito menos escolas, horários e alunos. Este ano letivo, o meu primeiro horário incompleto e temporário não durou até 31 de Dezembro, logo eu não reunia as condições para concorrer a VD. Mesmo que pudesse, não me/nos sujeitaria a tal suplício novamente. Vivo na Beira Alta Interior, aqui quero trabalhar.
    Definitivamente, não desisto da vida profissional digna a que tenho direito como professora. Mas, abdicar da família para ser professora, não.

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