O encerramento das escolas e os interesses inconfessáveis
As vacinas certificam o avanço da ciência e abrem espaço ao optimismo. Mas enquanto não se consegue a tão desejada imunidade de grupo, é crucial que se aprenda. Não apenas para se evitar uma 4.ª vaga, mas para se pensar num futuro mais inclusivo no pós-pandemia.
Desde logo, tem sido estranha a argumentação a propósito do encerramento das escolas. Convenço-me que há alguma explicação no isolamento físico imposto pelo vírus. As pessoas não estão bem. Só pode ser. É até oportuno recordar um “sociólogo da comunicação”, o alemão Niklas Luhmann, que nos interrogou sobre os motivos que levariam um indivíduo a ser honesto no escuro. Nesta fase, nem teremos que equacionar uma flagrante desonestidade. É suficiente, por exemplo, imaginar um adulto em teletrabalho com crianças e jovens em casa. É provável que seleccione e manipule os argumentos favoráveis à sua condição, como terá tendência para o fazer um professor justificadamente temeroso. E foram exactamente essas inscrições que me transportaram para os interesses inconfessáveis a que voltarei no fim do texto.
Dito isto, sublinhe-se que para além das incertezas inerentes ao processo pandémico, há surpreendentes e persistentes incursões mediáticas. Repare-se: quando Angela Merkel diz que um educador de infância ou um professor do 1.º ciclo deve ser vacinado antes dela porque não consegue manter uma distância de segurança, é porque está bem informada em relação aos riscos de se frequentar uma sala lotada de crianças que são em regra assintomáticas. E decerto que a chanceler não partilha da grave epifania a “escola é segura”.
E a perplexidade aumenta porque um cidadão medianamente informado ouviu, desde Julho, Filipe Froes, da Ordem dos Médicos, defender que os assintomáticos são uma das maiores preocupações e que o país teria de aumentar a testagem nos lares e escolas — sectores mais expostos — para evitar uma segunda vaga e mais confinamentos. Também se sabe, desde 9 de Dezembro, que epidemiologistas australianos (terão um sistema semelhante ao do Reino Unido que, e de acordo com João Paulo Gomes do Instituto Ricardo Jorge, tem uma rede de detecção epidemiológica 20 vezes superior a qualquer país europeu) escreveram que a reabertura das escolas foi uma das decisões mais relevantes para a 2.ª vaga pandémica na Europa e na América do Norte. Concluíram que as crianças não são menos susceptíveis nem menos transmissíveis nos contágios permanecem assintomáticas e que, em estudos mais aprofundados, são frequentemente falsos negativos não detectados pelos testes de antigénio.
Mas, por cá, os números também foram elucidativos. O encerramento das escolas foi determinante nos confinamentos. E, olhe-se mais em detalhes, nos 15 dias decorridos entre 28 de Novembro e 12 de Dezembro passado, as escolas fecharam oito dias por causa das pontes e isso reflectiu-se na redução de infectados. E a ciência dá-nos mais dados concludentes: a abertura das escolas em Setembro fez o risco de transmissibilidade (Rt) subir cerca de 20% a 25% logo nas primeiras semanas; grande parte da transmissão fez-se através de pessoas assintomáticas ou com poucos sintomas (que quanto mais jovem mais se está nesse estado), sendo esse “o grande perigo da doença”; as escolas serviram para transmitir o vírus de agregado familiar para agregado familiar; e se o Rt ficar acima de 1,2 é quase garantido que poderá haver uma 4.ª vaga.
E percebe-se o receio tal a inércia registada no que levamos de pandemia nas medidas simples e eficazes que reduziriam os 3 c’s (distanciamento físico, espaços lotados e aglomerações de pessoas) dentro e fora das escolas: turmas mais pequenas ou por turnos semanais, horários desfasados, pequenas interrupções a cada quatro ou cinco semanas de aulas, desconcentração de intervalos e redução temporária da carga curricular. Esta última variável seria até crucial na passagem para o ensino remoto de emergência. E, para além de tudo, perde-se também uma preciosa oportunidade para se investir na redução das turmas numerosas que é um factor determinante nas nações que falham historicamente; como é o nosso caso.
E, para finalizar, há mais dois aspectos críticos relevantes:
No primeiro, nem o Papa Francisco se lembraria de o sugerir aos seus ministros, já percebemos que em epidemiologia há estudos, avanços e incertezas; mas não é assunto dado a esoterismos ou aparições. Pelo que se vê nas nações historicamente inclusivas, o Rt é uma das medidas do estado da pandemia. Por cá, a ordem de grandeza é a Páscoa, qual Rt. Desconfinar-se antes ou depois da Páscoa é o quebra-cabeças. Foi o Natal, desta vez é a Páscoa.
No segundo, recorde-se o saudoso Eduardo Prado Coelho: “Uma ideologia é sempre um conjunto de interesses inconfessáveis.” Qualquer que seja o significado ou a concepção que se tenha de ideologia (historicamente inquestionável no desenvolvimento humano), o leque existente não tem escapado ao desfile de interesses inconfessáveis para comprometer os descomprometer quem governa ou quem se opõe. O país, as pessoas e a pandemia mereciam mais. Resta-nos desejar que a Europa consiga acelerar o envio de vacinas, e, já agora, de mais fundos a fundo perdido, porque uma 4.ª vaga projectaria a crise para o domínio do insustentável.




7 comentários
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Concordo com a maioria do artigo. Destaco a afirmação de Eduardo Prado Coelho, que tive o privilégio de conhecer: “Uma ideologia é sempre um conjunto de interesses inconfessáveis.”
Espero que os diretores , docentes, pais e encarregados de educação não andem a pressionar o governo para a abertura das escolas, considero razoável e prudente que se aguardasse todo o mês de março e só depois da Páscoa é que se começaria a desconfinar gradualmente as escolas, iniciando-se pelas creches e o 1.º ciclo. A prudência fala mais alto e o caos vivido em janeiro e uma parte de fevereiro (há bem pouco tempo!) pode estar mesmo ao “virar da esquina”.
Não denigram o ensino à distância e era bom que o ME começasse a pensar em fazer ensino misto (presencial e não presencial) no secundário, para que os alunos não viviam em função da imagem e da palavra do professor, e consigam trabalhar autonomamente.
Deve haver testagem nas escolas e de forma regular. Vacinas também são importantes, mas prefiro, no meu caso, que a minha avó seja vacinada primeiro e só depois eu.
Nada substitui o ensino presencial para o 1° ciclo. É impossível ensinar a ler e escrever em aulas online.
Além de todos os erros do governo, temos também de nos responsabilizar mais a nós. Descontrolou-se porque no Natal e no Ano Novo fizemos tudo o que queríamos sem máscara, ou distanciamento social. O que dizemos ser necessário nas escolas (e que é mais do que necessário) não o fazemos na nossa vida social.
Muito mais cedo se deveria ter colocado em ensino misto o 3° ciclo e secundário, e sim, as escolas abertas depois das festividades contribuiram para uma maior disseminação do vírus, mas essa disseminação começou com os nossos comportamentos no Natal e Ano Novo.
“A disseminação começou com os nossos comportamentos no Natal e Ano Novo.”
Isto não é verdade. Grande % da disseminação começou desde o início do ano letivo, com um ensino presencial sem as mínimas condições de segurança sanitária, quer dentro das salas de aula, quer nos recreios (pela enorme falta de funcionários para assegurar o cumprimento das regras), quer nos transportes e acessos pedestres e imediação das escolas, ou já se esqueceu do “distanciamento de 1 metro, se possível”? A grande maioria dos casos de infeção nas escolas não foram detetados, porque as crianças são assintomáticas na sua grande maioria e por não haver testagem, e aqueles que foram testados positivos não tiveram um rastreamento responsável, por culpa do governo, de forma a se poder conter os surtos. A política foi de testar apenas os contactos próximos, muito próximos, quase, tipo, apenas os siameses. Depois, nos 15 dias antes do Natal, a quantidade de testes que foi feita, baixou ainda mais, rondava cerca de 75% do que vinha a ser feito, fazendo parecer que havia menos infetados. Passados 15 dias do início das férias do Natal, é que se juntaram os dois principais fatores que tiveram o maior peso para o galopar das infeções em janeiro: os milhares de alunos, professores e funcionários infetados assintomáticos, não testados + os convívios de Natal permitidos pelo governo. Estes 2 fatores constituíram uma bomba relógio prestes a rebentar. É lamentável que a Sofia ainda não tenha percebido isto, assim como muitos portugueses. Porque, bastou fecharem as escolas, para se verificar uma queda abrupta nos registos de infeção, que já estão praticamente ao nível dos números que se verificavam antes do início do ano letivo. Acredite que, se abrissem as escolas hoje, daqui a 7/10 dias iriamos entrar numa nova vaga. Vá analisar os gráficos da DGS, curva de novos casos, casos por faixa etária e curva de testes ao covid 19. informe-se primeiro, antes de dizer disparates. Não faça como o PM que está sempre a culpar os portugueses, quando devia era assumir a péssima gestão da pandemia, a péssima disponibilização de recursos e planeamento sanitários e logísticos e o descalabro que provocou no nosso país, elevando-nos ao top + dos piores países do mundo.
Que mal fiz eu e os meus colegas professores para levar com uma zaragatoa pelo nariz acima até ao cérebro, de 15 em 15 dias? Não me estou a ver… só se o teste for de saliva…
so faço teste se for de saliva
alias o documento de autorizacao que se entrega na escola para testes ja o coloquei com a cruz no “nao autorizo” para mim e para filhos
Todas as semanas? Não. Ainda por cima sofro de sinusite.
E já agora alguém me sabe dizer o que resolve fazer testes todas as semanas????Para confinar metade da turma outra metade na escola. Os professores de quarentena. Os alunos sem aulas….
Numa empresa ou instituição com outro tipo de trabalho entendo. Numa escola não.
Não há vacinas ainda para toda população.
É melhor aguardar e ter calma. Quando tivermos vacinas aí sim até se deve fazer o teste antes.
Em Espanha os professores já estão a Ser vacinados…. Isso sim