Uma escola para adultos excluídos

 

É condição sine qua non ter uma história e uma história para contar quando o destino e fim de alguém se resume a trabalhar em prol de alunos excluídos numa escola de alunos excluídos e o Luís não é excepção.
A começar pelo desemprego de canudo na mão, a vergonha de estudar em vão, como se fosse possível estudar em vão e o saber ocupasse lugar, mas o saber não paga contas mais o sacrifício familiar e o resultado para além do óbvio quando o Luís se decidiu por uma Licenciatura em Filosofia.
O olhar de lado do irmão mais velho e o “eu não te disse para não estudares” ainda hoje nos ouvidos, uma memória auditiva, uma cicatriz, uma tatuagem e a tatuagem não sai, a cicatriz também não, um disco riscado cuja mensagem é a mesma, é a mesma, é a mesma e eu não te disse não te disse não te disse para não estudares?
E depois o discurso do pai a apontar para o exemplo do teu irmão a fazer entregas e hoje é tão fácil arranjar trabalho, está tudo nos telefones e tivesse eu a vossa idade e faria o mesmo e fazer o mesmo o tanas para não dizer pior, nos intervalos o irmão ainda faz de conta ser PT e ao fim de semana faz de Uber com o carro do pai e portanto escravatura na ponta dos dedos sem quaisquer direitos mas como os direitos não pagam contas o povo verga as costas sem tempo sequer para reclamar e o Luís de fora a ver de fora a viver lá fora.
E viver lá fora significa aceitar qualquer emprego, qualquer trabalho e qualquer trabalho é esta falta de auto-estima no espelho e ensinar onde os outros não querem ensinar e ensinar quem não quer ser ensinado, razão pela qual o Luís começou por trabalhar com alunos excluídos e acabou a trabalhar pelos alunos excluídos e para os alunos excluídos.
Excluídos por problemas mil a começar pelo comportamento e a acabar no contexto familiar e social, um emprego relevante e afinal valeu a pena estudar e o saber não só não ocupa lugar como paga as contas e o Luís já não é, ele próprio, um excluído mas os seus colegas são, os outros professores são entre registos criminais, despedimentos por justa causa, vítimas de violência doméstica, imigrantes desterrados e igualmente desempregados dos países de origem e nenhum com excepção feita para a senhora directora é autóctone ou nacional.
Significa isto ser o dia do Luís tantas vezes dedicado à gestão das emoções de adultos sem pai nem mãe, meninos perdidos da Terra do Nunca mas em ponto grande e igualmente necessitados de colo e o Luís é a perfeita almofada psicológica enquanto nos corredores os alunos correm à solta ou não estivesse o professor agora com o Luís a fazer de terapeuta dia após dia e onde estão os alunos do Luís senão a correr igualmente lá fora.
Tudo porque um aluno chamou um nome a um professor e o professor não se ficou e chamou um nome ao dito aluno e afinal estamos na presença de duas crianças e não apenas uma, a original, ou então o professor desatou num pranto e dentro da sala a histeria total enquanto o professor chama a polícia e aí estão as luzes e sirenes à porta e o entretenimento total para os alunos em geral.
E isto quando não é o professor a accionar propositadamente o alarme de incêndio e a escola toda na rua porque o professor precisa de atenção e alguém com quem falar e não há com quem falar quando se vive só fruto de divórcios litigiosos para não dizer mais e os fins de semana são passados sem abrir a boca e por conseguinte toca de accionar o alarme e outra vez o gáudio geral da criançada.
Trabalhar em prol de alunos excluídos requer resiliência. Mais, requer os melhores professores para os alunos mais carentes e necessitados. O contrário é uma distopia onde os autóctones se recusam liminarmente a resolver um problema social cuja génese é da sua total responsabilidade, delegando a mesma responsabilidade para quem tantas vezes tem histórias por contar sendo o resultado um conjunto de supostos adultos igualmente carentes e necessitados incumbidos de educar e criar as crianças que um dia foram.
E o Luís já perdeu a conta aos dias perdidos de volta dos colegas sem sequer se lembrar da existência das crianças a seu cargo senão chegado o fim do dia e as crianças, então e as crianças?
A escola do Luís é um vale dos caídos mas não devia ser, dos petizes aos adultos e o apoio psicológico essencial tanto para uns como para outros acrescentando-se a isto a importância de reter quem na escola do Luís quer trabalhar, apesar das suas histórias e independentemente das suas carências.
E portanto o Luís lá continua a colecionar peripécias até por não haver outra alternativa e o regresso a uma escola secundária uma visão cada vez mais distante: por não ter experiência no ensino secundário, já lhe disseram, ou não estivesse a sua carreira cingida aos currículos alternativos.

João André Costa

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1 comentário

    • Aprender a escrever on 28 de Maio de 2024 at 13:29
    • Responder

    Vai mas é para o ensino Recorrente aprender a construir um texto por módulos.

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