Eu gostava de ir para a escola. Tinha um propósito, entrar para Biologia, um curso superior e, quem sabe, num futuro não muito distante, trabalhar com animais, pelos animais e para os animais.
Tinha o incentivo dos professores e com o incentivo a relação de proximidade, o seu tempo e atenção, o cuidar, as dúvidas esclarecidas, alguém com quem falar, a confiança de saber ter na escola quem nos ajude pelo simples gosto de ajudar, ajudar as crianças, pelas crianças e para as crianças.
Em casa não havia a necessidade de gritar aos ouvidos deste petiz a ordem de ir para a escola, como se fosse um castigo, uma sentença, uma obrigação e a pergunta na ponta da língua de todas as crianças diante de tais preparos é inevitável: porque é que tenho de ir para a escola?
Invariavelmente, os pais e adultos não têm resposta, eles próprios ignaros do porquê de terem ido à escola e o resultado à vista num ciclo vicioso de gerações de insatisfeitos e obrigados a uma escolaridade sem sentido ou objectivo apenas porque sim, porque é preciso ir para escola, por terem de ir para a escola.
“Para aprender” é normalmente a resposta e aprender o quê se as crianças já sabem tudo e as discussões inevitáveis entre lágrimas sem fim e os pais a repetir sem querer as suas infâncias das quais tanto quiseram fugir até ser tarde demais e um novo ciclo começa.
Ciclo esse passível de ser quebrado conquanto haja um querer e num mundo ideal as crianças querem ir para a escola em oposição a terem de ir para a escola.
E não tanto pelo porquê mas pela relação com os professores e a relação é o alicerce não só da escola mas de toda e qualquer criança.
Sem relação não há confiança e sem confiança não há segurança e uma criança insegura é uma criança com medo e com medo ninguém quer ir à escola.
Por tal, na nossa escola dedicamos logo à partida não menos de uma hora a conhecer a criança e respectiva família numa reunião de boas-vindas essencial para conhecer não apenas o percurso da criança mas também os seus gostos e interesses sem esquecer os anseios e desejos de cada família.
O resultado é imediato quando o outro do lado de lá deixa de nos ver, a nós e à escola, como uma ameaça, a guarda baixa e um sorriso vislumbra nos lábios de uma criança a permitir-se criança outra vez.
Daqui para a frente é tudo uma questão de tempo, cuidado e atenção para com a criança para conhecer a criança, como se comporta, quais os seus receios, aconteceu alguma coisa no caminho para a escola, em casa ou mesmo na escola e este pequeno rebento aos poucos e poucos a querer ir para a escola e o carinho pelo outro é inato.
Está inscrito nos genes e nutrir o carinho e atenção tem sido a chave constante para esse mundo ideal onde as crianças querem ir à escola não tanto pelos professores, os professores estão lá sempre, mas pelos amigos, pela brincadeira, pela consciência de se poder ser criança apenas uma vez e agora é a vez e pela brincadeira a aprendizagem e só depois da brincadeira a aprendizagem: afinal, trabalhamos com crianças todos os dias e todos os dias pelas crianças e para as crianças.




3 comentários
Pede a um professor que te ajude a pontuar o texto.
Ao ler o seu comentário (antes de ler o texto), apressei-me a ler o texto, confesso que na diagonal, mas estou habituado a ler, e não encontrei motivos óbvios para o que disse.
Os jovens de hoje não são felizes na escola. Não têm prazer em ir à escola. A situação agrava-se à medida que sobem de ciclo de ensino. Perdem a sua espontaneidade. Andam deprimidos, isolados uns dos outros, mesmo que aparentemente em grupo, não fossem os telemóveis e as redes sociais em que estão imersos. As razões podem ser várias, mas a escola também se tornou enfadonha, uma vez que ainda não descolou do século XX, quando os nossos jovens pertencem ao século XXI. Se fosse um país a sério, os políticos debruçar-se-iam, efetivamente, sobre esta problemática. A escola, neste momento, serve para ocupar as crianças e os jovens, enquanto os pais trabalham horas sem fim, para poderem sobreviver, qual proletariado. Os horários da escola adaptam-se aos horários dos pais, dos trabalhadores e dos patrões, tudo menos aos interesses superiores desta futura geração dopada pela Internet e/ou pela medicação para depressão, ansiedade, fobias ou hiperatividades. Sabe-se que os alunos têm horas excessivas nos seus horários e ninguém faz nada ou quer saber. Já repararam bem num horário de uma criança do 3.º ciclo ou secundário? Que tempo lhes sobra para a criatividade, para a evasão, para o convívio, para as artes ou para o desporto ao longo de um ano? Porquê é que não se reduz a carga horária destas crianças? Porquê é que não se reduzem programas e horas de disciplinas? Qual seria o problema disso? Não seria menosprezar nenhuma área do saber, antes valorizar todas. Menos seria Mais. Fala-se tanto na semana dos 4 dias para trabalhadores, mas ninguém aplaude reduzir em 5 horas, por exemplo, um horário de uma criança ou jovem, que acaba por ficar na escola mais tempo que um trabalhador? Fora ainda os tpc físicos e virtuais (a pandemia já acabou, mas enfim).