“Acho que já passou tempo suficiente para eu poder falar disto em público.
Há mais de 10 anos, trabalhei com a Inspeção Geral de Educação num programa de avaliação de escolas. Conheci gente muito profissional com quem calcorreei dezenas e dezenas de escolas públicas em quase todos os distritos do Norte.
Nunca me esquecerei da primeira escola que visitei, a pouco mais de 50 km do Porto. Uma criança que só tomava banho nos dias das aulas de Educação Física. Tinha vergonha e o professor mandava-a para o balneário 10 minutos mais cedo para ela se lavar. Quem levava a roupa suja da criança e lha trazia lavada e passada no dia seguinte era uma contínua da escola.
Depois vieram outras histórias que fui amealhando. Meninos cuja única refeição quente era o almoço da cantina. Miúdos que à tarde levavam os restos do almoço escolar para casa para servirem de jantar para a família. Miúdos que ao fim de semana se alimentavam de bolachas Maria. Miúdos que aprenderam a gostar de ler na biblioteca da escola, que em casa nunca tinham visto um livro. Escolas que no inverno acabavam as aulas às 4 da tarde para que os pais das meninas não as vendessem por meia hora aos senhores dos Mercedes pretos parados à porta a coberto do escuro. Crianças alcoolizadas. Professores e funcionários à beira de uma exaustão horrível porque tinham de fazer de pais, mães, psicólogos, médicos, confidentes, assistentes sociais. Crianças que nunca tinham ido mais longe do que à vila lá da terra.
A merda dos rankings, a cloaca dos rankings, a vergonha dos rankings serve para quê? Qual é o espanto em constatar sadicamente que os miúdos de casas sem pão ficam em último e os das fábricas de notas em primeiro? Ponham-me a jogar à bola com o Ronaldo e não é preciso vir nenhum ranking dizer-me que nunca lá chegarei.
As escolas que se dão ao luxo de escolher à partida os seus alunos, que recebem os alunos que em casa comem e leem e viajam e falam inglês não têm grande trabalho a fazer. Todos nós, professores, sabemos que trabalhar com bons alunos é fácil. Difícil, desafiante (e apaixonante) é fazer dos fracos bons.
O resultado de uma escola não se mede só pelas notas a Inglês e a Biologia. Há escolas em que o sucesso é alimentar e lavar os miúdos e isso não passa no radar dos filhosdaputa (pardon my French, mas o vernáculo é para ocasiões destas) dos rankings, cuja única função é apontar ainda mais a dedo aqueles que já são estigmatizados, excluídos, ridicularizados todos os dias, e fazer publicidade enganosa aos colégios “do topo”.
Conheço paizinhos com filhos problemáticos que acham que transformariam os seus filhos em génios se os inscrevessem de repente numa dessas escolas. Acreditam que há algo nessas escolas, uma varinha mágica impermeável ao resto, que fabrica génios. A ficha cai-lhes quando são os próprios colégios, em privado, a tirar-lhes o tapete. Nem sequer os admitem à entrevista. É bem feito.
Honestidade intelectual: vão buscar um desses meninos que não comem nem tomam banho em casa, ponham-no numa das “top five” (mas ponham mesmo, não façam de conta), não lhes mudem nada nas condições de vida, e vejam se é isso que os manda para o MIT.”




12 comentários
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Estou convencido de que os rankings não servem “unicamente” para projeção de umas quantas escolas… E receio bem que o ‘nivelamento por baixo’, sem avaliação externa honesta, se traduza num descalabro do sistema de ensino.
Os rankings são um serviço de propaganda que os jornais prestam aos colégios privados. São, portanto, algo de obsceno, uma vergonha, um escárnio que ofende a mais básica das inteligências. Não percebo porque continuam a dar-lhes crédito, ajudam a vender jornais?
Na minha opinião, texto muito fraquinho.
Uma raiva injustificada e enviesada dos rankings só porque sim. Aproveitasse os rankings para exigir melhores condições para a escola pública e seria um mestre; teria muito que escrever e por onde pegar (instalações, condições dadas aos professores, avaliação da qualidade da docência, lotação das turmas e escolas, etc…).
O exemplo do Cristiano Ronaldo é fraco… pois afinal o rapaz até veio de origens humildes. Comparasse o CR a um jogador de famílias ricas, e talvez tivesse uma analogia.
Redutor nos argumentos que considera fazerem das escolas privadas melhores. Tudo se resume a escolherem alunos? E escolherem professores e pagarem bem?! E apostarem em boas instalações?! E terem uma oferta complementar que não manda os míudos a meio do dia sabe-se lá para onde?! E um projecto pedagógico sem politiquices?!
O objectivo, como ele diz, não devia ser “apontar o dedo aqueles que já são estigmatizados, excluídos, ridicularizados todos os dias”, mas sim a quem nos governa e permite que se mantenham estas situações em pleno século XXI, por falta de visão e/ou por falta de dinheiro. Veja-se as últimas guerrilhas do nosso MEducação, meramente por ideologia, para com as escolas privadas, e está tudo preto no branco. O objectivo não é melhorar a escola pública, é nivelar por baixo. Todos iguais, mas burros!
É dever de todos os portugueses, a começar pelos professores (administradores das escolas públicas), exigir mais e melhor para a educação.
Quanto ao exemplo de “Honestidade intelectual” já foi feito e continua a ser feito. Existem escolas privadas com bolsas de mérito para alunos desfavorecidos, e o resultado é precisamente este: integração plena e resultados idênticos.
Penso que nada justifica o uso de uma linguagem ordinária, em particular, para ser publicada num blog sobre educação. Um exemplo deplorável, de facto! Talvez se verifique aqui, também , uma tentativa de nivelamento… a vulgaridade!
Concordo. É informação a mais.
Lixo exatamente igual são os rankings PISA e afins.
Os resultados de exames ou de qualquer outro tipo de avaliação externa devem ser secretos e estar disponíveis apenas para a pequena elite que nos conduz à felicidade: Louçã, Mortágua, Catarina, Jerónimo e Costa&Amigos.
E temos de pensar também em encobrir outras listagens, por exemplo, números Covid ou até resultados de eleições.
A minha escola está a agonizar devido aos rankings. Estamos paralisados de vergonha e sem saber o que fazer.
Projeto Piloto Para o atual “Cemitério” da Educação em Portugal:
Peguem no total das turmas e alunos de um dos colégios do topo do “ranquingue” e troquem pelo mesmo número de turmas e alunos da escola pública mais próxima. Não troquem os professores, apenas os alunos. Ao fim de 3 anos (pode ser o secundário) estarão todos a fazer exames para o acesso ao ensino superior. A excelência dos professores do privado virá, com certeza absoluta, ao de cima, como defendeu a “raquela varrela” e os seus correlegionários ?!
Façam a experiência e avaliem os resultados. Depois conversamos…
Para quem já trabalhou com a IGEC, deveria ter um pouco mais de atenção ao argumentário utlizado e, sobretudo, evitar o recurso à linguagem boçal, que, em nada, o dignifica.
“Todos nós, professores, sabemos que trabalhar com bons alunos é fácil. Difícil, desafiante (e apaixonante) é fazer dos fracos bons.”
Trabalhar com bons alunos é difícil e desafiante para o professor enquanto tal, isto é, enquanto agente crítico de transmissão do saber.
A docência é fácil, isto é, uma actividade completamente desqualificada, quando o professor não ensina, mas se ocupa de outras tarefas que não lhe incumbem, que reclamam medidas políticas, e não boas vontades individuais.
Apliquemos a lógica do autor do texto à medicina. O bom médico não é o que diagnostica, trata e acompanha, mas o que só cuida de aspectos sociais dos doentes, mesmo tendo impacto directo no seguimento de tratamentos, etc
Obrigada pelo artigo. De entre muitos, o único que expressa exatamente a realidade!!
Terá de ser uma realidade virtual, lol.
Parabéns pelo post, João Veloso. Chama os bois ( e os boys) pelo nome e usa uma linguagem apropriada à situação para a qual chama a atenção. Quem se sentir incomodad@ que mude de canal!
Cumprimentos professor João Veloso e o meu respeito. Sei bem do que fala.