Gramática e a Semântica da Escola Digital José Afonso Baptista

A pandemia deu grande visibilidade à “gramática” da escola eletrónica, com o e-Learning, o b-Learning (blended Learning), o online Learning, a broadband, o WIFI e o e-mail, associados ao laptop e ao smartphone, entre outros, no centro de uma nova revolução em Inglês que não é acessível a todos os ouvidos. Esta invasão em força e à pressa causou embaraços e confusões.
A escola está no centro de várias gerações com reações diversas ao universo das TIC, desde os professores anteriores ao digital e ao online às crianças e jovens que já nasceram e cresceram com “genes eletrónicos”. É um conflito intergeracional. Mas há um conflito mais doloroso, que opõe quem tem e não têm acesso a este novo mundo.
Não tem sentido discutir se é uma revolução boa ou má: se pode levar a educação a milhões de pessoas sem escola e se pode levar à casa de cada um a informação e o conhecimento que precisam, estamos perante um novo “milagre das rosas” que pode levar o pão a toda a população. O problema está em que “ter os meios” não significa que cheguem a toda a gente. Este é o desafio lançado pela ONU para o COVID 19: #OnlyTogether. O digital, o online e a banda larga podem facilitar os desafios para alargar a EFA/EPT (Education For All) a todo o mundo, levar a escola a todos e eliminar os infoexcluídos.
A revolução digital põe a tónica na aprendizagem, no learning, o que seria, se levada à letra, a resposta à necessidade de deslocar o ensino para a aprendizagem, com maior autonomia do educando na construção do seu próprio saber. A lição, a aula, a transmissão do saber feito, dariam lugar ao trabalho do aluno, com orientação do professor, desenvolvendo o espírito de iniciativa, a criatividade e o sentido da descoberta. O ensino tradicional assenta num microfone – o professor- e num gravador de som – o aluno. O que se pretende hoje são alunos ativos e reativos, desenvolvendo o “critical thinking”, e não apenas discos de memória de capacidade variável. Se a revolução eletrónica não mudar o e-Teaching pelo e-Learning não muda o essencial da questão.
O e-Learning não significa ensino à distância, que as circunstâncias podem justificar. A escola é a comunidade de aprendizagem onde nascem e se desenvolvem relações, afetos, atitudes e valores que estão no cerne da ação educativa. O online dá uma grande liberdade de tempo e espaço, que não contraria a escola, antes a complementa. As desigualdades são uma ameaça permanente. A exclusão e a inclusão vivem paredes meias. Os computadores e a internet são os novos manuais, abrindo horizontes mais convidativos, desde o fundo dos oceanos, às florestas virgens e ao infinito dos céus. Maravilhas e fenómenos que nunca tínhamos observado. Deixar crianças e jovens excluídos deste mundo é um crime.
Uma política de inclusão requer que se cumpra o acesso de todos ao digital e ao online, sem discriminações, no âmbito das políticas de apoio aos manuais e materiais escolares. Por outro lado, é urgente criar uma plataforma para o sistema educativo que facilite o acompanhamento e apoio personalizado aos alunos. O SNS, com a criação de uma base de dados que recolhe informação atualizada de todos os cidadãos, melhorou radicalmente a qualidade dos serviços. A comunicação com o doente é importante, mas o que determina as decisões do médico são as análises clínicas, as radiografias, as TAC’s, os cintigramas inscritos na plataforma e que permitem um diagnóstico rigoroso.
A educação, para um acompanhamento personalizado dos alunos que vá ao encontro das suas características, motivações, potenciais e limitações, tem de ter um sistema universal com o registo de toda a atividade relevante de cada educando, dos trabalhos que produz, das dificuldades e ajudas que revela, dos erros que comete. Só assim se poderão aproveitar as capacidades de todos, sem perdas, sem a escola deitar fora uma parte importante da sua matéria prima, como lixo inútil, que são os alunos que a escola não aprendeu a ensinar nem ensinou a aprender.

 

diário as beiras

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