Escola, eu te detesto!

 

Escola, eu te detesto!

Temos assistido, no nosso tempo, a “revisões” históricas e a uma aceitação mais ou menos consensual de que não é possível defender hoje comportamentos e ideias que faziam parte de códigos culturais, sociais e políticos do passado. O que é menos consensual é o modo de reparação das injustiças cometidas no passado e o modo de olhar retrospectivamente para outras épocas históricas (próximas ou longínquas) e para os seus protagonistas usando os utensílios mentais do presente. Esta questão foi discutida e desenvolvida pelo historiador francês Lucien Febvre, num livro onde defendia que falar de um Rabelais ateu, apesar do fortíssimo pendor herético e muitas vezes obsceno da sua obra literária, era um anacronismo. Esse livro era não apenas uma refutação desse anacronismo, mas também um tratado de metodologia da investigação histórica.

O esclavagismo, o racismo, o anti-semitismo, a tutela e a violência exercida pelos homens sobre as mulheres, a discriminação e perseguição dos homossexuais e dos indivíduos transgénero, a pedofilia — tudo isto e muito mais tornou-se objecto de condenação veemente. Não quer dizer que, por exemplo, o racismo e o machismo tenham sido erradicados definitivamente. Longe disso, como sabemos muito bem. Mas já não podem contar, sem serem contestados, com os antigos discursos de legitimação. Já não fazem parte de uma “visão do mundo” naturalmente aceite. As revisões e reparações que daqui decorrem nem sempre têm sido isentas de violência e, certamente, de algumas injustiças. As revoluções, mesmo as que se dão no domínio das ideias e das mentalidades, nunca são movimentos pacíficos nem inteiramente controlados. Toda esta questão torna-se bastante mais controversa e cheia de equívocos quando se começa a exigir que até a literatura e a arte em geral estejam do lado do Bem e poupem aos leitores e espectadores ideias e atitudes que não devem hoje ser partilhadas na vida social e política.

Em tempo de reparações e de assumpção de injustiças colectivas, ainda ninguém veio reivindicar que seja reparado, ou pelo menos nomeado, o crime cometido sobre as crianças e adolescentes na escola de antigamente, quando as sevícias faziam parte dos métodos pedagógicos. Quem frequentou a escola ou os liceus nesse tempo (acho que o 25 de Abril constituiu, também aqui, uma cesura, mas não sei se foi imediata e generalizada) sabe bem que muitos professores tinham métodos sádicos e comportamento de carrascos. Não sou certamente o único que tem uma memória da escola primária como uma instituição de terror, um lugar a que sobrevivi a custo, mas que me deixou marcas que a memória reactiva com mais força à medida que o tempo passa. Percebo hoje que essa escola era profundamente medíocre (quando a frequentei tinha apenas uma muito vaga noção de que era odiosa) e, dela, havia os que se salvavam e os que submergiam (bem sei que estas palavras são uma ilegítima e perigosa citação, mas como deixar de ver essa escola como um “espaço concentracionário”?). Aí, a arbitrariedade era absoluta e os castigos infligidos às crianças eram semelhantes aos de uma colónia penal. Numa época em que não havia o controlo que há hoje e as crianças iam em grupo, a pé, para a escola, alguns “fugiam à escola” e ficavam escondidos, até à hora do regresso a casa, para escaparem à tortura. Recordo alguns nomes e rostos de colegas “fugitivos”, que depois tinham que enfrentar os pais; e que eram vistos como potenciais delinquentes e socialmente falhados. Recordo-os e interrogo-me se eles nunca pensaram em pedir contas pelo mal que lhes fizeram, por terem sido condenados ao falhanço por gente criminosa. Interrogo-me também se eles, já adultos, conseguiram cruzar-se com esses antigos professores sem os insultarem ou sentirem uma enorme aversão. E pergunto: como foi possível, já depois de ter desaparecido este ambiente escolar, manter a complacência em relação a professores que foram agentes do terror? A pedofilia é um crime que não prescreve; uma escola que pratica a pedocriminalidade deveria ser julgada. Se os ditos professores agiam assim por obediência a uma concepção da escola e da pedagogia instauradas como ideologia do Estado, então o Estado devia, em algum momento, ter pedido desculpa às vítimas e assumir a responsabilidade que não poder ser pedida aos carrascos que tinha ao seu serviço. As vítimas, uma enorme multidão, têm direito, pelo menos, a uma pedido oficial de desculpa. Mesmo que em muitos os casos o mal cometido seja da ordem do irreparável.

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18 comentários

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    • Matilde on 2 de Maio de 2021 at 11:27
    • Responder

    Endereço ao autor deste texto a minha total solidariedade, apesar disso ser muito pouco…

    Conheço relatos de algumas pessoas mais velhas que sofreram na pele o que é relatado…

    E, sim, é absolutamente incompreensível e inaceitável que se tenha aceite a impunidade e a bestialidade dos crimes cometidos contra essas crianças/jovens que não tinham a menor capacidade nem para se defenderem, nem para denunciarem as atrocidades, sobretudo nos meios rurais, onde o professor primário era tido como uma figura absolutamente inquestionável…

    E, sim, a autoridade incontestável e o poder absoluto que eram conferidos aos ditos professores primários, permitindo a alguns cometer crimes bárbaros e monstruosos, sem qualquer vislumbre de condenação, ainda está por reparar…

      • Paulo Pereira on 2 de Maio de 2021 at 21:49
      • Responder

      Quer reparar o quê?

      Quer abrir uma caça às geriátricas professoras primárias da altura, que ainda vivem?
      Veja se tem juízo e um pouco de bom senso!

      • Paulo Pereira on 2 de Maio de 2021 at 21:54
      • Responder

      Quer reparar o quê?

    • Fernando, el peligroso de kas verdades. on 2 de Maio de 2021 at 13:32
    • Responder

    Depois, mais tarde, foram premiados com a careira única, única no mundo que não separa os ciclos de ensino. Uma Babá tem vencimento igual a um docente do secundário!
    O patife do Cavaco deixou isso acontecer para ganhar votos. Foi bandido!

      • maria celeste pena on 2 de Maio de 2021 at 20:43
      • Responder

      Este Fernando é mesmo peligroso mas… não fala verdade!!!
      Se pensa que é mais merecedor dum ordenado mais alto no secundário, adorava fechá-lo numa sala de creche ou de jardim de infância com 25 pequenos para ver como se desembaraçava!
      Sotôr, menos comentários destes, por favor… Já lhe disse que não somos babás.
      Que se passa com a sua aversão às educadoras?

    • Fernando, el peligroso de kas verdades. on 2 de Maio de 2021 at 13:44
    • Responder

    E não era só nas escolas primárias. Também nos colegios privados, normalmente dos padres, as castadas violentas e castigos humilhantes, eram o pão nosso de cada dia.
    Nesses tempos corruptos, os padres andavam também numa roda viva para montarem machos e fêmeas. Eram uns cabrestos cobridores.

    • Ivone Cabral on 2 de Maio de 2021 at 14:45
    • Responder

    “E não era só nas escolas primárias. Também nos colégios privados” … e também no secundário, segundo as minhas vivências, era física e psicologicamente! Mas é mais fácil culpabilizar apenas os “professores primários”!

    • Batman on 2 de Maio de 2021 at 15:53
    • Responder

    A escola também é um lugar detestável não apenas devido autoritarismo de alguns professores, mas sobretudo por causa da indisciplina dos alunos. Não existe respeito pelos professores, tal como os polícias, mas existem regras para funcionamento da escola.

    1. Bem observado!
      Parabéns pela coragem de Batman.
      Obrigado

    • EUZINHO on 2 de Maio de 2021 at 18:44
    • Responder

    O revanchismo está na moda… Julguemos a Humanidade até ao Jardim do Éden!
    Por agora estamos muito melhor em que são os alunos e alguns pais a espancar professores e a manter em algumnas escolas um ambiente de ”cortar à faca”! Mas para isto ? Varre-se para debaixo do tapete e já não se sua tanta indignação… em pleno SEC XXI. Sei de colegas que ficaram, já adultos, arrasados na sua sanidade mental e física! Qual foi o castigo para os autores? Népia!
    PS. Como hoje é Dia da Mãe agradeço à minha querida mãe os tabefes que me deu, sempre a tempo e horas e na devida proporcionalidade. Traumas? Alguns… mas de outras rodas da vida!

  1. Sem qualquer mágoa nem ressentimento por alguns castigos da profª primária e algumas saudades da ordem e disciplina desse tempo.
    Provavelmente, ainda quererão a exumação de cadáveres para aplicação das penas….Preocupemo-nos com o presente e o futuro….o passado é passado…

    • Fernando, el peligroso de kas verdades. on 2 de Maio de 2021 at 21:16
    • Responder

    Você é capaz de encontrar um único país no mundo onde as Babás têm uma carreira igual às dos outros níveis de ensino? Pode procurar, que não encontra. Porquê será? Vá, responda tenha coragem!

    • Paulo Pereira on 2 de Maio de 2021 at 21:23
    • Responder

    O texto em análise considero uma opinião pessoal de quem a escreveu. Não tem fundamentação histórica sistematizada, e não é desta forma que se analisa a História. Infelizmente em Portugal até os factos históricos são subvertidos, fazendo generalizações absolutamente desonestas com o mero intuito de se estar sintonizado com as agendas de radicalismo, intolerância e sectarismo, que em nada contribuem para uma análise isenta dos factos.

    De relance chamo a atenção que, até depois do 25A de 1974 coabitaram no ensino primário os chamados “Regentes escolares” e os professores primários com formação obtida pelo Magistério Primário. E longe de se fazerem generalizações jacobinas, sempre vou dizendo que, tal como hoje, sempre houve maus e bons pedagogos, e sempre houve abusos de poder (de pequenos poderes) por parte de quem nunca o teve e o passou a exercer de forma excessiva traumatizante. Isto também hoje ocorre, não tanto por sevícias físicas mas por acção psicológica. O atraso cultural não acontecia apenas nas populações iletradas, mas também entre pessoas com alguns estudos, fossem eles os cursos comerciais e industriais, como os mais especializados, como o curso do Magistério Primário, que bebiam da mesma realidade cultural da época. E não convém esquecer que, a par do surgimento as primeiras escolas do Magistério Primário, quem detinha habilitações mínimas para se responsabilizar da instrução das crianças eram os regentes escolares e, em outros casos, os seminários. E também não convém esquecer que Portugal até ao 25A incluía todas as então colónias portuguesas, todas elas com instrução pública ministrada por professores primários ou regentes escolares, percursoras da formação de elites negras e mestiças, das quais saíram muitos dos lideres independentistas, de entre eles Agostinho Neto, Samora Machel e Amílcar Cabral.

    Também digo que, durante a minha escola primária, levei reguadas, sim. E eu, como filho de professora primária, conheço bem a realidade próxima para concluir que o que aqui está mencionado no texto em análise é uma dramatização que não acredito ser uma generalização. Pelo contrário, relata casos pontuais, muitos deles passados nos confins do Portugal profundo, rústico por natureza, em que muitos dos próprios progenitores não viam com bons olhos a instrução dos seus filhos, obrigando-os, em muitos casos, a trabalhar no campo. Poucos eram os que tinham a visão de que a instrução era uma porta para a ascensão social – sabiam lá o que era ascensão social? Isso é coisa de ricos, diziam muitos. Outros tantos gabavam-se de ganhar mais no ofício dos seus pais que “perder tempo” com instrução.

    Falta o contraditório no texto em questão. Falta o testemunho dos que tiveram uma experiência positiva e gratificante no seu percurso escolar e académico.

    Falta, ao autor do texto e outros que comungam de análises simplistas, tendenciosas e radicais da História, analisar o discurso do nosso Presidente da República, na última comemoração do 25 de Abril, há uns dias atrás.
    Marcelo pediu que se olhe para a História sem temores nem complexos, sem alimentar campanhas e combatendo intolerâncias.
    “Não há, nem nunca houve, um Portugal perfeito”

  2. Excelente comentário!
    Bem haja Paulo Pereira.
    Abraço

    • Matilde on 3 de Maio de 2021 at 13:06
    • Responder

    Ao Estado compete, em primeiro lugar, o reconhecimento público de que aqueles actos (hediondos) foram efectivamente praticados; que os agentes infractores agiam em nome do próprio Estado; e que os crimes praticados (agressões/abusos físicos e psicológicos) eram do conhecimento público;

    Em segundo lugar, o Estado deve às vítimas desses abusos e dessas agressões a condenação pública, ética e moral, de tais actos e dos respectivos agentes…

    Ainda bem que muitos tiveram uma experiência positiva e gratificante no seu percurso escolar, mas isso não anula o facto de outros (muitos) terem vivido essa experiência como um verdadeiro inferno, às mãos de alguns que agiam com total impunidade e discricionariedade…
    A prescrição legal de crimes não significa que os mesmos não tenham acontecido…

    As vítimas, essas, não se podem calar, mesmo que, lamentavelmente, muitos não as queiram ouvir… E a “dramatização” só existe para quem não foi vítima. Para as vítimas foi tudo muito real, real de mais…

      • Farto de pós modernos on 3 de Maio de 2021 at 22:47
      • Responder

      Desconhecer o contexto histórico ou querer torná-lo hodierno, dá nessas patetices que profere!

        • Matilde on 4 de Maio de 2021 at 10:59
        • Responder

        Conheco muito bem o contexto histórico… Tão bem que é isso que me permite afirmar e reafirmar todas as “patetices” anteriores… Mantenho tudo o que afirmei, certa de que muito mais haveria ainda a dizer em relação a este assunto…

        Mas, sim, percebo que seja um assunto “maldito” e não grato para muitos… Cada um terá que viver com os seus próprios “demónios”…

    • António ferro on 3 de Maio de 2021 at 16:25
    • Responder

    Verdade olhem os milhares de traumatizados hoje nas funções governamentais. A escola era um gulag um sitio onde raramente se saía inteiro uma especie de treblinka com um lema: trabalhar liberta..

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