“A degradação do ensino”

“A degradação do ensino”
“Quarta-feira, a minha filha mais velha participou na segunda eliminatória das Olimpíadas da Matemática deste ano, categoria júnior, correspondente ao 6º e 7º ano. Quando chegou a casa, claro, obrigou-me a resolver com ela a prova para poder aquilatar as probabilidades de chegar à final. A prova era interessantíssima (parabéns
aos seus autores), exigindo alguns conhecimentos de Matemática — não muito avançados, diga-se — e bastante destreza de raciocínio. E, mais uma vez, pude confirmar o que já sabia: o ensino atual é bem mais exigente do que era há umas décadas e exige das crianças bem mais do que boa memória.
A excelência do ensino dos nossos pais não passa de um mito. Lembro-me de a minha sogra, para me convencer de que há 60 anos a escola primária era muito exigente, me contar que teve de decorar todas as estações de comboio e todas as minas de Portugal. Em jeito de brincadeira, respondi-lhe que não lhe servia de muito já que as minas e as estações estavam todas fechadas. Confunde-se exigência com dificuldade. Claro que é difícil e chato decorar todas as estações de comboio de Portugal. Mas não tem nada de exigente. Na verdade, é um exercício bastante estúpido.
Esta mitificação do ensino passado é ilustrada na perfeição por uma imagem que andou a ser partilhada nas redes sociais e que reproduzo. Nela sugere-se que o ensino é cada vez mais fácil. Em 1970, pedia-se para calcular a área de um retângulo, com dois cantos cortados. Depois o exercício vai ficando cada vez mais fácil até que, em 2018, pede-se à criança que pinte o retângulo e, em 2022, que faça um desenho com lápis de cera.
O que mais me surpreende é a forma acrítica como esta imagem é partilhada, com tantos a clamarem que no seu tempo é que o ensino era exigente. A única explicação possível é que não têm filhos. Ou, se os têm, não os acompanham na escola. Confesso, são muitas as dúvidas que as minhas filhas têm que não consigo esclarecer. No caso da disciplina de Português, então, já desisti mesmo de tentar perceber. Despacho-as para a mãe, que, por sua vez, as recambia para a irmã (professora de Português).
Mas voltemos à pergunta da imagem. A partilha é tão tonta que nem se apercebem que a primeira pergunta está errada. Não se trata de um retângulo, nem sequer de um polígono, como qualquer criança do terceiro ano saberá. Adicionalmente, nem é particularmente difícil. Uma criança do quarto ano só não saberia responder por não ter ainda aprendido a fórmula da área de um círculo.
Calhou, na altura em que vi esta imagem, estar a estudar com a minha filha do quarto ano o cálculo de áreas. No manual, encontro esta pergunta: “O pomar da avó da Inês tem forma retangular de 2,4 hm de largura e 270 m de comprimento. A avó quer plantar laranjeiras numa área equivalente a 1/5 do seu pomar. Qual é a área, em ares, destinada às laranjeiras?”
É apenas um exemplo, há perguntas mais fáceis e há mais difíceis. Não tem é qualquer correspondência com a caricatura que é feita do ensino atual.
Já agora, nas Olimpíadas de quarta-feira — para alunos com 11 e 12 anos de idade, lembro —, também pediam para calcular uma área. “O retângulo [ABCD] tem área 60 cm2. A área do triângulo [ABE] é um quinto da área de [ABCD] e a área do triângulo [EFC] é um oitavo da área do retângulo. Qual a área do triângulo sombreado?” Se o meu caro leitor não conseguir responder, pode sempre colorir a figura com lápis de cera.
Não vale a pena dar grandes voltas. A escola de hoje tem muitos defeitos e, sei-o bem, muito por onde melhorar. Mas é incomparavelmente melhor do que foi a nossa e a dos nossos pais.”

 

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12 comentários

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    • Falar verdade on 7 de Maio de 2021 at 8:32
    • Responder

    É verdade que a escola está melhor daquela que foi dos nossos pais e avós, até porque eles viveram num regime de ditadura, e hoje, penso, que vivemos num regime democrático. Mas o que falha na escola, é transmitir os “bicho papão” de algumas disciplinas, tal como a matemática, parece o Adamastor, e muitas vezes são os educadores/docentes que passam essa ideia aos alunos. Vejo jovens adolescentes do secundário sempre a tremer por causa da matemática, só estudam matemática porque os seus professores entopem-nos de exercícios, para mostrar trabalho, e se os resultados não forem bons, é uma forma dos pais não reclamarem nada porque o professor deu muitos exercícios, onde andam tão ocupados em resolver e procurar explicações que não se dedicam a outras disciplinas. Mas o que os pais não sabem é que o problema está na quantidade, porque quantidade não é sinónimo de qualidade e muitos desses professores não ensinam os alunos a pensar a matemática, não desenvolvem o seu raciocínio. Daí o Adamastor.

      • Atento on 7 de Maio de 2021 at 17:26
      • Responder

      .
      Aquilo a que chamam “escola” atualmente está a Kilómetros de distânciada verdadeira “ESCOLA” existente durante o tempo do Doutor António de Oliveira Salazar.

      Hoje aquilo a que chamam “ESCOLA” não passa de um enorme “ARMAZEM” onde os progenitores colocam os seus rebentos para poderem desenvolver as suas atividades ludicas, profissionais ou outras…….

      Hoje aquilo a que chamam “ESCOLA” não passa de uma enorme “CANTINA SOCIAL” onde se dá de comer aos FAMINTOS desta vida (Filhos de Desempregados; Filhos daqueles que vivem do Rendimento Social de Insersão (RSI); Filhos de Prostitutas; Filhos de Delinquentes; Filhos de Presidiários; Filhos daqueles que auferem o Salario Minimo Nacional no valor de 635 Euros e que levam para casa á volta de 500 euros…….

      Hoje aquilo a que chamam “ESCOLA” não passa de uma enorme INTRETEM onde os designados professores dão umas TRETAS de que são exemplo as “cidadanias”, “educação ambiental”, “educação sexual”, “desporto escolar/toma lá uma bola para dares uns chutos”………..

      Hoje aquilo a que chamam “ESCOLA PUBLICA” não passa de uma enorme FRAUDE onde os pobres são acolhidos…..Sim!….porque os filhos da classe média e alta são colocados em Escolas de Bandeira e em Colegios Privados onde possuem uma boa preparação para a Vida Futura.

      Ao que a ESCOLA PUBLICA chegou!…….Não!….isto não merece ser chamado de “ESCOLA”…………A ESCOLA é um local de ENSINO-APRENDIZAGEM e não um HOSPICIO para os Desgraçados da Vida.

      Atualmente, está plasmado naa LEI que …”as retenções constituem EXCEÇÃO”, ou seja, Ninguem Reprova, o que significa que aquilo a que chamam “escola” atualmente é uma FRAUDE porque Emite Diplomas de 9º Ano a ANALFABETOS (formais e funcionais).

      Podia agora fazer comparações a vários Níveis, mas não vale a pena.

      Apenas refiro que o Grande Indicador do desenvolvimento do Sistema Educativo, não é o PISA e Quejandos, é SIM o PIB per Capita. Isto é que mede a forma como o Sistema Educativo produz Imputes positivos no desenvolvimento de um País.

      Portugal está em Fim de Regime….a podridão pseudo-xuxalista deixa no ar um Cheiro Nauseabundo. Todavia é bom ter presente que a Europa definha face aos outros dois blocos económicos (China/India e EUA).

      Tudo isto são sinais preocupantes.

      A terminar, diria que nos faz muita falta o Doutor António de Oliveira Salazar.

      Viva Portugal!….. CHEGA de miséria xuxalista……………
      .

        • Fernando, el peligroso de kas verdades. on 7 de Maio de 2021 at 18:23
        • Responder

        Voltou o Atento Pinteko! Depois de uns dias de folga, ei-lo todo contente, a dizer as asneiras da sua verdade. Está todo contente, depois do avianço a que está habituado. Será que vai dar luta?

    • Francisco Gonçalves on 7 de Maio de 2021 at 10:25
    • Responder

    Não pretendo alimentar qualquer polémica, em relação a quem é melhor do que quem. Ainda assim, gostaria de lembrar que os professores de que fala, do tempo da sua sogra, tinham um programa para cumprir, emanado das autoridades de educação. Tal, como agora.
    Sem prejuízo do mérito, ou da falta dele, desses programas, os professores cumpriam-no e, se o cumpriam, eram, na minha opinião, excelentes professores.
    Ser professor, no tempo do Estado Novo, não era uma prova de contestação ao regime. no que se refere aos conteúdos a ensinar. A conduta política do Regime não concedia qualquer iniciativa aos professores. Era aquilo, ponto final.
    Na parte que me toca, estou muito grato aos meus professores. Os princípios básicos aprendi-os com eles. Quando foi tempo de modernizar-me e aprender coisas novas, senti-me capaz de o fazer, por via do interesse na aprendizagem permanente que os meus professores souberam incutir-me.
    Resumindo, para concluir: não pretendo estabelecer nenhum campeonato de mérito,mas julgar os professores de há 50 anos com os olhos de hoje, não me parece justo para aquela nobre gente.

  1. Não era util memorizar estações de comboio mas o nome dos nossos Reis, governantes, seus cognomes e os feitos e obras de cada um, era e é útil.

    1. Falar verdade convém referir que o currículo de Matemática dos três anos de básico ou de secundário é mais extenso que o cabo das tormentas. Para muitos ter de saber tudo acaba em saber muito pouco. Há bons e maus professores, mas os currículos são sempre extensos. Também se quer inverter a sala de aula, que seja o aluno a descobrir, etc, mantendo os currículos e as cargas horárias das disciplinas, como se mudando as práticas pedagógicas não implicasse a necessidade de mudanças noutras áreas. Enfim…

      • Mirtha on 7 de Maio de 2021 at 14:40
      • Responder

      LOLOLOL essa foi bem atirada!!!

  2. O problema não está nos conteúdos. A noção de degradação deve-se à expectativa que se tinha sobre alguém que terminava o liceu. Esperava-se que esse alguém soubesse umas coisas.
    Na actualidade não se sabe o que esperar, pode ser alguém que cumpriu a escolaridade e, de facto, sabe muito, como pode ser ( e são muitos) pessoas que cumpriram a escolaridade e são analfabetos funcionais.

    • Mirtha on 7 de Maio de 2021 at 14:55
    • Responder

    A educação e o ensino está tão degradado que se reflete em toda a sociedade… é uma falta de educação e respeito generalizado. Uma facilitismo e compadrio tal que entramos numa era dos serviços mínimos e medíocres!!! Viva a (des)educação pseudo democrata!!! O rei vai nú e não o querem ver que está nú, muito pó para os olhos!!! Mas felizmente que já alguns estão despertando e saindo desta letargia acomodada e amorfa! Basta!!!

    • Alecrom on 7 de Maio de 2021 at 17:10
    • Responder

    Constatou o óbvio.
    Falta-lhe perceber o que está mal no ensino secretário Costa/OCDE:
    nem todas as crianças são iguais e cada vez o fosso entre elas é maior (elas, as dos meios favorecidos, como a sua filhota, e as dos meios desfavorecidos).
    Não é com comparações com os problemas do ensino de há cinquenta anos que se legitimam as aberrações do ensino geringonço.
    Anote:
    1 – Cresce assustadoramente o número de jovens que não conseguem interpretar coisas básicas e absolutamente necessárias para o exercício da sua cidadania.
    2 – Tal como a sua filhota (parabéns, mamã), os mais favorecidos nunca tiveram tão garantidas como agora as suas carreiras profissionais… favorecidas.
    3 – Com capa inclusiva, o ensino geringonço é profundamente elitista e fecha definitivamente a porta do dito elevador social aos mais desfavorecidos.

    Nunca como agora os filhos das elites tiveram o futuro tão garantido:

    https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/mariana-mortagua-conclui-doutoramento-em-economia-na-universidade-de-londres-437517

    • Pirilau on 7 de Maio de 2021 at 19:07
    • Responder

    Este texto é uma falácia!
    Os problemas contidos nas Olimpíadas da Matemática sempre tiveram um grau de dificuldade elevado e a sua resolução só está ao alcance de alunos brilhantes. Garanto-lhe que mais de 95% dos alunos portugueses não são capazes de responder a uma única pergunta contida nas provas das Olímpiadas de Matemática.
    Comparar o incomparável é revelador de ignorância ou de má-fé. Fazer extrapolaçõe, comparando o ensino atual e o de antanho com base no grau de dificuldade de uma prova olímpica (isto é, uma prova para mentes brilhantes) não passa de uma reles falácia. Se o autor do texto quisesse, de facto, fazer uma comparação justa, deveria comparar a prova das Olimpíadas deste ano com as provas de anos passados.
    O autor deveria saber (e certamente saberá…) que a a grande maioria dos alunos do terceiro ciclo não sabe sequer a tabuada e também não é capaz de escrever um texto de forma clara e sem erros ortográficos ou de sintaxe. E já nem refiro todos aqueles que nem sequer sabem ler!
    Haja decoro!

      • Mirtha on 8 de Maio de 2021 at 21:31
      • Responder

      Aplaudo com todas as mãos e dedos que tenho

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