Cenários de verão III

 

O areal estende-se a perder de vista. O azul manso beijando o doirado doce, a suave brisa vinda do pinhal, o cheiro encorpado e denso do carume. Que local lindo para beijar o mar.

Bem perto de mim, porém, observo, curiosa, uma tribo considerável de pessoas, todas saídas diretamente de uma revista pronta a consumir, gente de casta distinta: corpos bem torneados, calçõezinhos às riscas, cestazinhas de vime, bronzeado intenso e o ar saudável da absoluta despreocupação. Ao redor dos adultos, um grupo de miúdos de idades diversas e estonteantemente loiros enleia-se em brincadeiras à beira-mar, construindo castelos. sand-465724_640

De olhos debruçados no mais novo, uma jovem rapariga, cuja pele castanha e aveludada se destaca no enquadramento, acompanha cada gesto com terna paciência. A voz de uma quarentona platinada, desliza até ali:

– Guilherme Maria, venha secar os calções!

E o garoto, miniatura daquela gente grande, corre em bicos de pés até ao grupo de adultos, todos com o “você” pendurado na boca como um irrefutável anzol.

Reparo numa breve troca de palavras entre as duas mulheres, a provável mãe e a possível ama. Então, a primeira agarra no pequenote pela mão e quase passa por cima de mim, quebrando a linha invisível que nos separa, numa espécie de estranha urgência.

Para à beira do mar, debruça-se sobre o menino e ajuda-o a desenvencilhar-se dos calçõezinhos também às riscas. É uma bela imagem em contraluz, confesso, quase dá vontade de lhes roubar o retrato.

Quando volto a observar aquele minúsculo enquadramento no extenso areal, reparo, surpresa, que, dos dois figurantes, apenas sobrou um pequenino e perfeitíssimo pináculo castanho e espiralado, apontando diretamente ao céu, ainda fumegante.

A platinada mãe e o seu Guilherme Maria arrumam agora as coisinhas da praia, juntamente com o resto da tribo, enquanto a doce mulata segue o rasto do grupo, carregada de brinquedos, toalhas, cestinhas de vime e minúsculas cadeirinhas, mais o menino, aquele doce menino angelical, preso na sua mão.

Definitivamente, há paisagens que não merecem as pessoas que as habitam.

 

 

 

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2 comentários

    • mrs on 16 de Agosto de 2015 at 18:45
    • Responder

    Também já assisti a muitas cenas parecidas com esta. Belo texto, Diana. Obrigada pela partilha das suas belas palavras.

    • Fafe on 16 de Agosto de 2015 at 22:28
    • Responder

    O pináculo, sendo biodegradável, a ordem Coleoptera agradece. E outras.
    Ter um alvo e considerá-lo não chega, é premente acertar-lhe.

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