A luz da cidade conflui aqui como um rio. É tão forte e explosiva a claridade que tenho de cerrar os olhos.
Agrada-me a ideia de uma praia citadina. Porém, quando o elevador do Lavra me eleva a esse pedaço de ansiado céu, surpreende-me a minha própria expetativa: o areal está confinado a um espaço exíguo e a fonte tenta simular uma piscina. Miúdos ansiosos teimam em mergulhar, enquanto um ou outro adulto passeia a água pelos joelhos.
Não era de esperar outra coisa, qual o espanto? Lisboa para ser moça tem de se cumprir menina. Sinto uma estranha inveja da despreocupação risonha de cada miúdo que chapinha afugentando o calor.
Do alto do jardim, os curiosos debruçam-se surpresos ou deliciados com as brincadeiras infantis lá em baixo.
Reparo, então, num turista que, encaixado num discreto muro, não larga a máquina fotográfica, nem desvia a objetiva da mesma direção.
Tem um aspeto polido, homem provavelmente cinquentão. Debruço-me para tentar perceber o foco do seu interesse. Passam alguns minutos e prossegue compenetrado no seu afazer. Como não arreda pé daquele canto, decido, discretamente, contorná-lo para tentar vislumbrar o seu interesse fotográfico.
É, então, que o meu coração me entope a garganta. No seu ecrã digital são visíveis, mesmo a alguma distância, fotografias dos jovens banhistas. Pior, não só os fotografa com o zoom no alcance máximo, como o faz com requintado pormenor, selecionando partes do corpo.
Um vómito súbito aflora-me a boca e sinto uma vertigem de raiva. Lá em baixo um polícia passeia confortavelmente pelo breve areal.
Tenho vontade de lhe berrar que suba, que suba depressa, que venha arrancar este nojento detrás dos arbustos, que lhe arranque as vísceras e as pendure no corrimão ao longo do jardim.
Mas os meus pés petrificaram naquele lugar, horrorizada com a minha própria descoberta.
Tento respirar fundo, encaixar o coração no sítio, afastar-me silenciosamente, tal como aqui cheguei. Desço as escadas com a maior rapidez que consigo, alcanço o agente e, enquanto lhe explico tudo, o meu olhar percorre o caminho inverso até se cruzar com o daquele verme feito de cuspo.
Infelizmente, dei o alerta de forma óbvia e vejo-o desaparecer silenciosamente enquanto o polícia sobe apressadamente as escadas e chama pelo rádio outros colegas, tarde demais.
Cá em baixo os miúdos prosseguem chapinhando felizes, mas eu sinto, simplesmente, a tristeza dura e fria de uma indesejável tarde de verão.
Que miséria de mundo este em que nem na infância nos sabemos seguros.