Recordo, com muita saudade, a forma como olhava os meus professores. Via neles o complemento dos meus pais, na tarefa, nem sempre fácil, de educar uma criança e, depois, um jovem, um e outro sujeitos a todos os desvios comportamentais que resultam dos desafios que a infância e a adolescência nos colocam e, não raras vezes, nos seduzem.
Os meus professores sempre foram os meus ídolos, logo a seguir aos meus pais. Com os meus pais, aprendi a comer, a andar, a falar, a partilhar, a respeitar. Com os meus professores, aprendi a ler, a contar, aprendi um mundo novo e os seus infindáveis segredos. Aprendi a tabuada, a raiz quadrada, a prova dos nove. Aprendi a Batalha de São Mamede. Aprendi a deleitar-me com um bom livro. Apurei o conceito de respeito pelo próximo. Os meus professores souberam premiar-me, quando o meu esforço encontrava eco nos resultados e souberam, também, corrigir-me, quando o desempenho ficava aquém do que eles esperavam.
Da generosidade dos meus professores, recebi os ensinamentos que me têm acompanhado, ao longo da vida, e que fazem de mim um indefectível fã de quem ensina. Os professores são imbatíveis no seu esforço e heróis nos resultados. Sempre acreditei na excelência dos professores. Os meus professores pareciam pertencer a um mundo perfeito e ambicionavam que os seus alunos pudessem desfrutar dele. Estou grato aos meus professores.
Não há sociedades justas, se o seu sistema de ensino não estiver dotado de professores competentes, motivados e, devidamente, reconhecidos. Os professores merecem um sistema de avaliação transparente e assente no mérito. Sem manhas.
Os professores excelentes geram alunos excelentes. É essa excelência, de hoje, que determinará a qualidade das sociedades vindouras. Não perceber isto é elevar à potência máxima a insensibilidade e, cumulativamente, manifestar uma irresponsabilidade com contornos que podem atingir, irreversivelmente, o coração da sociedade.
Os professores, como o mais comum dos mortais, aspiram a uma carreira digna, sustentada no mérito. A motivação de um professor não pode sair ferida de morte, por via de um sistema de avaliação anacrónico, injusto, autocrático, tendencioso e cuja execução depende de um grupo muito restrito de pessoas, cuja competência não é questionável, até que o seja.
Quem arquitetou o atual sistema de avaliação dos professores conseguiu, deliberadamente ou não, estabelecer um princípio perverso que tende a virar professores contra professores.
O sistema evidencia uma opacidade que não é aceitável numa sociedade moderna.
Desde logo, é importante perceber o critério subjacente à nomeação do avaliador externo. Trata-se de um elemento chave em todo o processo, dado que dele dependem 42 % da nota final do avaliado e, como tal, a sua nomeação deveria obedecer a um processo, integralmente, escrutinado. Daria confiança ao avaliado e contribuiria para a lisura do processo.
De acordo com o Diploma que regula estas matérias, o avaliador externo deve ser titular de formação em avaliação do desempenho ou supervisão pedagógica ou deter experiência profissional em supervisão pedagógica. Estes requisitos não fazem do avaliador um expert em nada. Apenas o legitimam.
É absurdo que um professor, investido das funções de avaliador externo, por mais competente que seja, influencie, em 42 %, a nota de um docente que nunca viu e, provavelmente, não voltará a ver, senão naqueles dois efémeros momentos de 90 minutos.
Existe uma fronteira muito ténue que separa os descritores dos diferentes níveis de avaliação. Seria aconselhável que o avaliador externo justificasse, com substância, as razões que o levam a utilizar uns descritores, em detrimento de outros e que essa justificação não se limitasse à cópia integral dos próprios descritores utilizados, porque é isso que acontece na esmagadora maioria dos casos que conheço.
Acresce que há os avaliadores externos que vulgarizam a nota máxima (10,00) como manifestação de protesto contra o próprio sistema de avaliação ou como forma mais cómoda de não ter chatices com o avaliado ou, ainda, como outra coisa qualquer que prefiro não concretizar.
Mas há outros avaliadores que afirmam, aos quatro ventos, que não existem professores excelentes e, por isso, não hesitam em materializar, na sua apreciação, aquele preconceito, sujeitando os seus avaliados a um prejuízo absurdo e, quiçá, definitivo.
Depois, há a reunião de articulação – envolvendo os dois avaliadores – interno e externo -, na qual aqueles docentes devem estabelecer uma convergência de opinião que não evidencie uma grande diferença de notas, entre um e o outro. Por alguma razão, a reunião se designa de articulação.
E, depois, há a Secção de Avaliação do Desempenho Docente (SADD) que eu reputo de singular. Tendo, na sua composição, o diretor do Agrupamento e 4 ilustres docentes eleitos, de entre os membros do conselho pedagógico, a SADD , no que concerne ao processo de avaliação dos professores, parece não ultrapassar o que vai além da aprovação da classificação final, harmonizando as propostas dos avaliadores e garantindo a aplicação das percentagens de diferenciação dos desempenhos, como se o acompanhamento e avaliação de todo o processo não fosse, também, uma responsabilidade sua. Comporta-se como uma espécie de Secção de (H)Armonização do Desempenho Docente.
Torna-se crucial que os professores avaliados, quando sentirem que estão a ser alvo de decisões injustas, não as recebam como definitivas e, muito menos, como resultantes de um processo de decisão imaculado. Compete a cada um dos avaliados analisar, com minúcia, todos os aspetos que concorreram para a decisão final, daquela secção e, se julgarem conveniente, encetar o caminho da contestação que pode estender-se até aos Tribunais.
Seria um contributo inestimável para a transparência do processo que os professores avaliados conhecessem, nominalmente, todas as menções de mérito concedidas, no universo que lhes pertence.
Não fazê-lo é aumentar, em substância, a nebulosidade que rodeia um processo que é a chave fundamental da carreira do professor.
Francisco José Pereira Gonçalves,
Entroncamento




18 comentários
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Excelente, mesmo com quotas!
A SADD não harmoniza nada! a SADD apenas “pressiona” uns e outros para que as atribuições de mérito sejam atribuídas a quem eles desejam!!!! É uma vergonha! o sistema é perverso mas há direções/escolas que ainda conseguem ser mais perversos!
Seria muito útil para todos os envolvidos no processo que esse tipo de acusações encontrassem razões em factos, devidamente, comprovados.
Eu sei que não é fácil, mas vale a pena tentar e denunciar. Existem canais próprios que permitem a denúnica e, se for o caso, permitem, também, manter o anonimato.
Muito obrigado.
ADD – comparar o incomparável
Quando , para subir de escalão, a SADD tiver de decidir quem são os” eleitos” ENTRE um conjunto de professores cujas disciplinas ou níveis nada têm a ver umas com as outras, como fazer ? Tem de comparar, não é ? Como? Três exemplos:
a) como comparar a proficiência de um professor de Matemática do Secundário com a perfomance do prof. de Educação Física?
b) como comparar o conhecimento e o desempenho de um professor de Filosofia com as tarefas de um prof. de Educação Especial ?
c) como comparar o desempenho de um professor de Física com uma laboriosa Educadora de Infância?
(a decisão implica que tenham de ser feitas estas comparações, ou não? Note-se que não é entre pares (ou seja, entre indivíduos da mesma disciplina.
Razão de ser do absurdo, quanto a mim : o igualitarismo consagrado no ECD ; os “ajuntamentos” de Escolas , perdão, agrupamentos.
Gostaria que alguém, mais informado, me esclarecesse.
Muito pouco digna esta ADD. Uma amálgama que não faz sentido e reforça o mal-estar instalado. Será por serem pouco habilitados que certos avaliadores atribuem 10, escudando-se nessa avaliação para esconderem alguma impreparação?
Na minha opinião, os avaliadores externos têm um peso desmesurado, na nota final. Não faz sentido algum que um professor, independentemente da sua competência, possa significar 42% no resultado final da avaliação de um outro que, porventura, nunca viu antes e, depois daqueles éfemeros dois períodos de 90 minutos, não voltará a ver.
Eu concordo consigo na questão das razões que levam alguns avaliadores externos a atribuir a nota máxima. A que referiu é uma delas. Haverá outras, com certeza.
Contudo, há, também, professores que não acreditam na excelência do professorado. Negam-na,por e simplesmente e, por isso, de forma preconceituosa, coartam qualquer possibilidade de o avaliado ter uma nota superior a 8,9.
É essencial que quem se sinta injustiçado leve o seu caso até às últimas consequências. De uma forma individual ou juntando-se a outros casos análogos.
Num país com uma democracia consolidada, não pode existir o medo. Isso acabou, em 24 de abril de 1974.
Não me canso de “pregar” que este modelo de avaliação não é justo, penaliza os profissionais que ao longo da sua carreira sempre se empenharam e participaram ativamente na comunidade educativa,, contribuindo para a inclusão e o sucesso de todos os alunos.
Apelo aos governantes que terminem rapidamente com este modelo. Está a provocar mau ambiente nas escolas e a desmotivar os professores.
Exige-se um modelo transparente, justo e que premeie a competência, não o compadrio, as amizades, os favores…
Sinto-me muito revoltada com este modelo de avaliação e é imprescindível, imperioso que “alguém” venha pelas escolas indagar, averiguar os “critérios” de avaliação seguidos pela SAAD.
Uma denúncia, fundamentada, à Inspeção Geral de Educação e Ciência pode obviar essa tal necessidade de indagar e averiguar os critérios de avaliação seguidos pela SADD
A igec tem dezenas de denúncias.
Arquiva ou “assobia para o lado” a tudo.
Cabe a cada um de nós perguntar à entidade a quem apresentámos a denúncia que tipo de tratamento mereceu a dita.
Devemos fazê-lo até que obtenhamos uma resposta plausível.
Não fazê-lo pode significar alguma cumplicidade com a letargia do sistema.
Vamos exigir aos serviços da administração pública que cumpram as suas atribuições e responsabilidades.
Deveríamos inundar o Parlamento com cartas a relatar a nossa situação. Seriam milhares!
Há algum motivo que a iniba de concretizar esse pensamento. Que não lhe doa a mão, assim como a todos os outros professores, na hora de fazê-lo.
Os senhores deputados foram eleitos para ajudarem a resolver os problemas de quem os elegeu. Contactar com eles, mais do que uma opção, é uma obrigação.
Eu tenho sido avaliada em escolas diferentes todos os anos e não entendo a diferença da nota atribuída de ano para ano. Nunca ninguém me explicou o que devo fazer para melhorar as minhas práticas, ninguém me prova por A+B que uma colega é melhor profissional do que eu para ter uma melhor nota. Era suposto as colegas muito boas e excelentes ajudarem as colegas a melhorar, partilharem as suas estratégias, articularem de forma enriquecedora para que a avaliação contribuísse para a melhoria de práticas e consequentemente beneficiar as aprendizagens dos alunos!!!
Julgo que o caminho mais curto para obter explicações sobre determinada avaliação, caso não concorde com ela, é a Reclamação.
Todas as solicitações que fizer, tendentes a esclarecer as suas dúvidas sobre o seu desempenho, produzem maior eficácia se forem feitas sob a forma de documento escrito.
Assim deveria ser. E pedir a publicação de uma lista nacional onde constassem os professores e respetivas escolas, a avaliação atribuída e a avaliação final depois de aplicadas as quotas.
A publicação nominal da lista das menções atribuídas, mesmo que seja a nível do Agrupamento, é crucial para a transparência do processo.
A atual opacidade levanta todo o tipo de suspeitas, alicerçadas por rumores que se ouvem em muitas Escolas do país.
Num processo em que tão poucos decidem o futuro de tantos, a subversão do Sistema é inevitável.
Num sistema de avaliação que, só por si, é um atentado à inteligência e à dignidade da classe, permitir a arbitrariedade de decisão, a quem a tem, é o primeiro passo para o caos instalado nas Escolas.
É necessário não resignar. É premente inundar as Escolas de Reclamações e Recursos e, se não resultar, prosseguir, de forma concertada, para os Tribunais.
No seu agrupamento é publicada essa lista?
As listas nunca são publicadas em lado nenhum, portanto não sabes quem levou as quotas. O que me deixa mais confusa é o facto de depois de 2 classificações seguidas de Muito Bom, me terem baixado para o Bom por causa das sitas cujas. A última vez fez todas a diferença porque era para passar para o 7º escalão. Lá vou eu para a lista de espera nacional. É muito perverso .