Esta comédia desumana e triste
1. Já me referi ao tema. Mas é imperioso que a ele volte, agora que, tudo indica, a emergência dará lugar à calamidade. Estão em processo de continuidade ideias torturadoras dos mais velhos. É pois altura de ser claro: enquanto estiver lúcido e não prejudicar os outros, sou eu que decido os riscos que quero correr. Amedronta-me menos o vírus circulante que os perímetros abdominais e as papadas de alguns políticos que me querem proteger. Basta de paternalismos cívicos!
Em tempo de restrições como nunca tivemos depois de Abril, a liberdade é o valor maior que me apetece invocar, num país sob uma autofágica polarização: os que querem permanecer fechados, encurralados pelo pânico, e os que, embora reconhecendo a gravidade da situação, sacodem cabrestos e discriminações que julgavam afastadas.
São livres os portugueses presos em lares miseráveis, que não percebem porque lhes desapareceram filhos e netos? Não é um défice de liberdade a falta de conhecimento para interpretar com serenidade o fenómeno que nos atormenta? São hoje livres os milhares de portugueses que ficaram ontem sem emprego? Os que já viviam na fronteira da sobrevivência e hoje desesperam, esses, são livres?
Porque não tenho senhores e penso livremente, ouso perguntar ainda: será que um estado de emergência duas vezes repetido, com tão pequeno questionamento e tão generalizada aceitação, pode ser socialmente havido como um resquício da ditadura de que Abril nos livrou? Como aceitar, sem enorme perplexidade, os delatores que a covid-19 destapou? Antes, a PIDE zelava pela ordem que o Estado Novo determinava e a censura amordaçava-nos. Hoje há quem defenda certificados de imunidade e a georreferenciação das pessoas, enquanto, sofredores, resignados, confinados, de máscara posta, adoecemos mentalmente.
Vão-me dizendo que as decisões políticas são tomadas depois de ouvir os especialistas. Mas há especialistas que não são ouvidos. Não são ouvidos os virologistas e os epidemiologistas que pensam a contrario sensu dos que são seguidos por Marcelo e Costa, muito menos são ouvidos outros especialistas, de outras áreas (psicólogos sociais e psiquiatras, por exemplo), que poderiam complementar o saber médico e epidemiológico e explicar as consequências do autêntico assédio moral que tem sido exercido sobre os mais velhos, ou a influência depressiva do massacre noticioso dos telejornais, sobre toda a população.
Deputados do PS, do PSD e do CDS, chumbaram no Parlamento a atribuição temporária de um subsídio de risco aos trabalhadores que asseguram actividades críticas, enquanto o resto do país está em casa (protegido, dizem). A ministra buzina permitiu que médicos e enfermeiros fossem miseravelmente discriminados quanto ao indecoroso aumento salarial dos restantes funcionários públicos. Depois batem-lhes palmas à janela e chamam-lhes heróis.
No Parlamento, as propostas que visavam a proibição da distribuição de dividendos relativos a lucros de 2019 (e que exigiam das empresas apoiadas que não despedissem) foram rejeitadas pelo PS e pelo PSD. Depois abrem-se linhas de crédito, que a banca aproveita para transformar créditos antigos, com risco seu, em créditos novos, com risco do Estado.
A minha geração, aquela que mais lutou pela liberdade, essa, pelo menos, entenderá como me revolta tudo isto e entenderá que não esteja passivamente disponível para assistir à erosão das liberdades individuais, em moldes inaceitáveis numa democracia aberta e plural.
2. Subliminarmente, António Costa apelou a uma certa união nacional em torno das aulas da novel telescola, quando classificou de “mesquinhas” as críticas feitas nas redes sociais às primeiras sessões e argumentou que os professores “não são actores de cinema”. O problema não está em pedir aos professores, que foram formados para ensinar em sala de aula, que sejam profissionais de TV. O problema está nos erros científicos e pedagógicos expostos. Porque torrei a paciência a ver as primeiras aulas e ele não, e porque sempre defendi os professores e ele não, posso, serenamente, dizer isto. Teria sido melhor não acrescentar os professores à paranoia das palmas à janela, depois de, no anterior Governo, lhes ter roubado o tempo de serviço efectivamente prestado. Citando Torga, “o que não presta é isto, esta mentira quotidiana. Esta comédia desumana e triste”.
In “Público” de 29.4.20




14 comentários
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Desagradam-me profundamente as frases feitas, mas não resisto: mais palavras para quê? Exímio, transbordante de lucidez, como sempre!
«transbordante de lucidez»?…
Também gosto de ler o que este senhor escreve, mas tem sempre uma visão tão negra das coisas, nunca nada está bem! É muito bota-abaixista!
Magistral na sua análise, sem mais comentários para não ser irrelevante da minha parte!
Goste-se ou não do estilo, são afirmadas muitas verdades, porventura difíceis de “engolir” para alguns, mas que não deixam de ser verdades…
Respeito muito o professor Santana Castilho, gosto de ler as suas análises diz muitas verdades mas com uma visão “negra” dos acontecimentos , neste momento precisamos de soluções para resolver este problema do vírus , Claramente não existem soluções perfeitas não se diminui as mortes por COVID sem retirar alguma liberdade principalmente aos grupos de risco , gostava de ouvir o professor a falar de soluções para resolver os problemas presentes.
Logo, António Costa chamou de “mesquinhas” as críticas que se referiam a erros científicos e pedagógicos.
É isto o que temos, porque o queremos.
Este Santana Casilho já deu o que tinha a dar. Está velho e desatualizado. mas sempre se achou o maior da cantareira. E agora deve estar com o cabelo até aos pés por falta de cabeleireiros.
Se Santana Castilho já me repugnava enquanto vómito de problemas sem única apresentar uma solução, desde sempre e desde que foi o não ministro do Passos Coelho, este artigo é prova de tudo o que ele é. É um homem sem pensamento, que se limita a dizer banalidades que ja todos sabemos e a apresentar-se como um ser muito sábio e que nunca tem soluções que não vão para além do insulto a quem trabalha e a quem apresenta soluções. É um populista dono da verdade que se apresenta como professor do ensino superior sem que se lhe conheça obra nenhuma. Quer ir para a rua contaminar-se porque a liberdades nao está a ser-nos dada? Vá. Mas depois volte e feche-se sozinho à espera que a doença lhe passe ou o mate sem estragar a vida aos outros que se protegem. Quanto à telescola, meta a viola no saco porque de certeza que as aulas são dadas têm lá professores que foram formados nas ESEs de que foi sendo corrido. Vergonhoso.
O Castilho cada vez está pior…
O Fernando, o Pedro, o Rui, o X, o Y, o Z, do alto da sua cátedra nem conta dão do quão pequeninos são, de tão alto que Santana Castilho está.
Eu sei que vos parece pequenino mas não é por sê-lo, antes é porque está muito longe de vós, em tudo.
Muito bem! É isso mesmo, precisamente.
Rui Ferreira, é exactamente isso…
Excelente Professor Santana Castilho! A verdade pura, nua e crua!