Ele pensava, enquanto atravessava o corredor vazio, como a escola sem a Directora era como um corpo sem coluna, e ele ali, o professor de inglês, nomeado sem nomeação, empurrado para um trono de papelão onde cada rajada de vento fazia tremer a coroa.
Ninguém lhe perguntara se queria aquele cargo, e porquê perguntar quando se chega à escola para encontrar sobre a secretária o silêncio pesado da ausência e os e-mails da Directora a pingarem como soro a partir de parte incerta, gotas de ordens vindas de longe, fora de tempo, fora do mundo.
Disseram-lhe estar a Directora de férias e vivam os feriados de Dezembro para quem pode.
Ele não podia. Mas devia. Tarde demais.
Na Segunda-feira, quando o aquecimento central decidiu morrer às oito da manhã, encontrou vinte crianças com luvas e gorros dentro da sala, a soprar para as mãos como pequenos fornos apagados.
Tentara ligar à Directora mas a resposta entre frases cortadas não era senão os restos de um telemóvel trazido pela maré de uma praia qualquer e o telefonema um incómodo, não, um aborrecimento.
E ele, sem saber como fazer, improvisara mantas feitas de casacos perdidos no bar. À hora do almoço, metade dos pais estavam ao portão à espera para falar com a Direção e às vezes mais parece ninguém ter de trabalhar neste país onde tanta gente tem tanto tempo para tudo e tudo é reclamar.
Na Terça-feira, a mãe de um aluno explosivo, uma autêntica miúra cujo apaziguamento bovino estava apenas ao alcance de um olhar da Directora (e aqui refiro-me igualmente à mãe), entrou furiosa pelo portão.
Meia hora antes, o petiz partira a porta da casa de banho ao pontapé e, portanto, toca de enviar o petiz para casa.
O problema? A escola tem a responsabilidade de fazer portas suficientemente robustas e a culpa não é da criança.
E ele, desarmado e titubeante, ainda tentara retorquir, mas as palavras vinham-lhe soltas, tontas, fugidias como pássaros espavoridos.
Resultado: um sopapo da mãe mais um pontapé do petiz e o professor de Inglês com um olho à pirata.
Uma hora depois, um e-mail com instruções tão inúteis como tardias pois o petiz já estava de volta à sala de aula enquanto o professor se entretinha a reparar a porta da casa de banho.
E de caminho uma queixa de um outro aluno ao encontrar o professor lá dentro e a porta vai ter de esperar por outro dia porque entretanto é preciso falar com a polícia.
Na Quarta-feira, o autocarro da visita de estudo chegou antes de tempo, entre buzinadelas de quem não pode esperar mais por crianças ainda por chegar.
Junte-se a isto a ausência dos papéis de autorização da visita de estudo, mais o limbo administrativo onde a ausência da Directora criara um buraco negro.
E é vê-lo a correr de sala em sala a recolher folhas, pedindo desculpa, pedindo tempo, pedindo o impossível. As crianças acabaram por ficar no recreio, pardais à solta com o dia livre na companhia do resto da escola em peso ao ver a paródia lá fora.
À noite, o professor de inglês sentou-se à frente de uma reunião extraordinária da associação de pais descontentes.
As associações de pais estão sempre descontentes.
Na Quinta-feira, um clássico e o clássico é pancadaria à hora de almoço, pancadaria essa feita motim na ausência da direção e da autoridade.
O professor ainda esmiuçou intervir, recolhendo apenas gritos, choros, acusações mútuas e agora os dois olhos à pirata e, ao menos, assim ninguém nota a diferença.
“Faz o que achares melhor”, escrevera ela por correio electrónico, e o melhor talvez seja ir embora.
Mas não te foste embora, o dever acima de tudo e falta apenas um dia para a salvação do fim de semana.
Ou talvez não, ou não fosse Sexta-feira e a Inspeção de surpresa ao portão depois de uma queixa da associação de pais.
Procuraram relatórios, assinaturas, decisões guardadas pela Directora apenas na cabeça e não nos arquivos e computadores.
E o professor, literalmente, aos papéis a abrir gavetas e mais gavetas enquanto tentava esboçar sorrisos, desculpas, mil desculpas e outros tantos perdões diante da patrulha sisuda de inspectores pidescos.
Nada estava onde devia estar, excepção feita para a Directora de volta à escola forçada a interromper as suas férias “derivado à incompetência do professor”.
Professor esse agora suspenso e com um processo disciplinar à perna para gáudio dos inspectores e da associação de pais.
Moral da história: a Directora ficou bem vista, o professor foi o “bode respiratório” ideal, a escola passou no crivo dos inspectores e a partir de casa, o professor cogita se, por acaso, a Directora já não sabia da inspeção.
Não, não pode ser, dizia ele, ainda incrédulo, virgem e inocente, pronto para fazer tudo outra vez e da mesma maneira.




2 comentários
Extremamente poético…
Os diretores e diretoras são uns autênticos filhos da mãe.
São os vermes que foram para professores para mamarem à conta. Não gostam nem nunca gostaram de dar aulas, nem nunca tiveram jeito para isso.
Nunca se aplicaram nem querem saber dos que se aplicam na sua profissão.
Sabujos dos superiores hierárquicos ministeriais, engraxadores dos poderes autárquicos, sobem na vida à conta da visibilidade que o trabalho dos outros lhes dá.
E tudo aponta para que a coisa ainda piore. O poder das autarquias nas escolas assim o determina, graças ao anterior governo e ao atual, que adoram a municipalização como sendo a solução para os males da Educação. Nada pior. Será o prego mestre no caixão da Educação Nacional.
Trata-se de gentinha sem escrúpulos, que desrespeita os demais, achando-se “a última bolacha do pacote”.
Tristes mamões que subjugam os demais.