Órfãos de pais vivos

 

Há uma tragédia moderna que não é notícia ns telejornais, não convoca minutos de silêncio e não dá direito a velas acesas nas redes sociais,  a dos alunos órfãos de pais vivos. Estão ali, sentados na sala de aula, com mochila às costas, telemóvel no bolso e um vazio educativo que nem a internet consegue preencher.

Os pais existem. Respiraram de manhã, deixaram a criança à porta da escola, deram um beijo apressado e seguiram para a verdadeira vida,  essa entidade mística chamada agenda. Mas educar? Educar dá trabalho. Educar ocupa tempo. E tempo, como todos sabemos, é coisa demasiado preciosa para ser desperdiçada a ensinar frustração, responsabilidade ou a arte revolucionária de lidar com um “não”.

Hoje, educar os filhos para viverem em sociedade é visto como uma espécie de hobby radical, ao nível do alpinismo sem cordas ou da leitura de instruções antes de montar um móvel do IKEA. Os pais querem filhos felizes,  não preparados. Querem crianças blindadas, não competentes. Superprotegem-nas do mundo real como se este fosse uma doença contagiosa que só ataca depois dos 18 anos.

Não sabem,  ou não querem saber,  ensinar os filhos a resolver problemas. Para isso existe sempre alguém: o professor, a escola, o psicólogo, o sistema, o Ministério, o planeta. Nunca os pais. Esses estão ocupados a trabalhar para ganhar dinheiro ou a gastá-lo com convicção moral: no ginásio, no jogging existencial, no copo ao fim do dia, no jantar com amigos onde se discute, com ar grave, “o futuro das crianças”.

Nada pode contrariar a criança. Nada pode frustrá-la. Nada pode magoar o seu ego ainda em fase de amaciamento. A criança manda. O adulto obedece. E assim se forma o novo cidadão: incapaz de lidar com um contratempo, um erro ou uma palavra que não comece por “parabéns”.

Depois há o momento sublime da hipocrisia: quando os pais exigem que a escola faça aquilo que eles próprios não fizeram. Querem professores mágicos, capazes de ensinar limites sem os impor, responsabilidade sem conflito e respeito sem autoridade. Querem educação sem esforço. Uma espécie de fast-food pedagógico, rápido, confortável e sem efeitos secundários visíveis, pelo menos até à idade adulta.

E um dia, inevitavelmente, o ciclo fecha-se. Os pais envelhecem. Os filhos crescem. E aqueles que nunca aprenderam a cuidar, a esperar, a ceder ou a resolver passam a decidir. Os pais tornam-se órgãos dos filhos, não no sentido médico, mas funcional, servem para sustentar, pagar, resolver e calar.

É o legado perfeito de uma geração que confundiu amor com ausência, liberdade com abandono e educação com um incómodo logístico.

Ser professor, afinal, não é apenas ensinar conteúdos. É tentar, todos os dias, colmatar a falta de pais que nunca saíram de casa,  mas também nunca estiveram realmente lá.

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6 comentários

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    • Isabel Cardoso on 22 de Dezembro de 2025 at 9:04
    • Responder

    Não teria dito melhor.

    • Injustiças on 22 de Dezembro de 2025 at 10:32
    • Responder

    Eu também não teria dito melhor.

    • Cláudia on 22 de Dezembro de 2025 at 11:48
    • Responder

    Excelente!

    • Mainada on 22 de Dezembro de 2025 at 12:12
    • Responder

    Faz sentido globalmente.

    • Dejá vu on 22 de Dezembro de 2025 at 21:08
    • Responder

    Verdade. Tudo verdade.
    Tenho amigos que já educaram assim. Pela ausência. As crianças entregues no colégio de manhã à noite. Pagavam o colégio exatamente para isso. E diziam- no sem vergonha. Os fins de semana com os avós ou só com um dos pais. O outro ocupado. A ganhar dinheiro. Dinheiro. Dinheiro.
    O fenómeno não é de agora. Depois que os jovens são disfuncionais. Pudera com pais assim.! Ausentes

    • rutra on 23 de Dezembro de 2025 at 0:30
    • Responder

    Fantástico. É o que nós sentimos como professores.

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