Devaneio em tempo de (muitas) reuniões…

Em tempo de (muitas) reuniões, calhou, vá lá saber-se porquê, reler estas palavras de Fernando Pessoa:

– “Ora o público não quer a verdade, mas a mentira que mais lhe agrade.” (Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação)…

– “Ora o público não compreende ideias complexas. É preciso dar-lhe só ideias simples, generalidades vagas, isto é, mentiras, ainda que partindo de verdades.” (Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação)…

– “Ora o público, movido intimamente por sentimentos e não por ideias, é organicamente parcial.” (Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação)…

– “As sociedades são conduzidas por agitadores de sentimentos, não por agitadores de ideias. Nenhum filósofo fez caminho senão porque serviu, em todo ou em parte, uma religião, uma política ou outro qualquer modo social do sentimento.” (Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação)…

E se Fernando Pessoa tiver razão?

Se Fernando Pessoa tiver razão, será uma grande chatice e estaremos todos bem tramados…

Se concedermos que todos nós fazemos parte do “público” referido por Fernando Pessoa:

– Preferimos, de facto, a mentira que mais nos agrada à verdade?

– A mentira dói menos do que a verdade? A dor infligida pela verdade é desconfortável, por vezes insuportável e, por isso, tendemos a fugir dela?

– Somos, de facto, movidos pelo sentimento, que se lixe a Razão?

– Somos, de facto, organicamente parciais, “cegos” que prescindem das ideias, dominados pelo primado do sentimento?

– Preferimos, de facto, os “agitadores de sentimentos” aos “agitadores de ideias”?

Se Fernando Pessoa tiver razão, seremos potenciais hipócritas, irremediavelmente fingidores…

Muitas reuniões pode dar em episódicos devaneios, ilustrados pelo presente texto, há que ter cuidado, para não sermos assolados por introspecções estapafúrdias sobre “a natureza da Humanidade” ou por pensamentos inconfessáveis…

Boas reuniões, com ou sem introspecções estapafúrdias sobre “a natureza da Humanidade” ou pensamentos inconfessáveis.

Coragem a todos, que por cada reunião que passa, estamos mais próximos do seu fim… (Verdade de La Palisse, em modo “prêt-à-porter”)…

Paula Dias

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