PISA 2022: os factos e o responsável, Santana Castilho

PISA 2022: os factos e o responsável

 

Em síntese, eis os factos e o responsável por esta derrocada sem precedentes.
Testados 6793 alunos de 224 escolas portuguesas, o PISA 2022 confrontou-nos com os piores resultados desde 2006. Portugal foi protagonista de um grave retrocesso na aprendizagem dos seus alunos, caindo em todos os domínios considerados. Os alunos portugueses com 15 anos de idade pioraram os resultados a Leitura, Ciências e Matemática, relativamente a anteriores avaliações. A percentagem de bons alunos diminuiu e a de maus alunos aumentou.
Portugal integra a lista dos 19 países que baixaram mais de 20 pontos a Matemática, referindo-se o tombo tanto a alunos carenciados como a estudantes de classes privilegiadas. Os nossos alunos obtiveram 472 pontos a Matemática, ou seja, menos 14,6 pontos por comparação com 2012 e menos 20,6 pontos relativamente a 2018. Três em cada dez não demonstraram conhecimentos rudimentares a Matemática, não chegando sequer ao nível dois, numa escala de seis níveis. Apenas 7% atingiram os níveis mais elevados da escala classificativa (5 e 6) a Matemática.
Em Leitura, os resultados médios também pioraram: os nossos alunos obtiveram 477 pontos, o que representa uma descida de 12,8 pontos face a 2012 e de 15,2 pontos em relação a 2018. Apenas 5% conseguiram obter um nível 5 ou 6.
Em Ciências, chegaram aos 484 pontos, menos 7,3 pontos do que em 2012 e 2018. Apenas 5% tiveram desempenhos muito bons (nível 5 e 6).
Se olharmos para a evolução dos resultados do PISA até 2015, vemos Portugal sempre a crescer. Faz pois todo o sentido analisar o que nos aconteceu a partir desse ano para que se tivesse invertido tão drasticamente esse ciclo positivo. Nesse ano, João Costa assumiu funções de secretário de Estado e os resultados não mais pararam de descer, como consequência das suas políticas bizantinas de destruição da escola pública: esvaziamento curricular, com programas revogados e substituídos por indigentes aprendizagens essenciais; nefastas políticas de flexibilidade curricular e pseudo-inclusão; abolição de avaliações rigorosas, internas e externas, e sucesso imposto, com passagens de ano praticamente obrigatórias; numa palavra, toda uma ideologia de cordel, de que os delírios Ubuntu, MAIA e quejandos são exemplos caricatos.
A polémica sobre as vantagens e desvantagens da realização de exames, com carácter universal, é velha e verifica-se em todos os sistemas de ensino. Mas a verdade é que são abundantes os estudos sérios que concluem que a sua abolição e substituição por provas sem consequências para alunos, professores e escolas, aquilo que João Costa fez, gera desresponsabilização generalizada e termina sempre com a degradação acentuada dos resultados escolares.
E não nos venha João Costa com a história da pandemia, porque a trajetória descendente das aprendizagens dos nossos alunos a partir de 2015 não está apenas documentada em sede de PISA. O mesmo se retira dos relatórios TIMSS 2019 (Matemática e Ciência) e PIRLS 2021 (Leitura).
Em vez de reconhecer os erros, João Costa optou agora por um discurso insidioso de pura propaganda educacional, onde brilha esta pérola: a falta de cabimento orçamental foi sempre o fundamento a que recorreu para negar a recuperação integral do tempo de serviço dos professores. Mas em recente entrevista à Renascença, disse que, com Pedro Nuno Santos, será possível satisfazer tal reivindicação, que considerou “justa e legítima“. Estamos falados sobre o carácter político falso, demagogo e hipócrita do declarante.
Os oito anos do ministério de João Costa foram de verdadeira cegueira ideológica. Foram oito anos a promover devaneios, indecifráveis pelo senso comum, a mirabolantes inovações educacionais.
João Costa não tem como fugir às suas responsabilidades. E devia perceber que aquilo que têm em comum os sistemas educativos do Japão, Coreia do Sul, Singapura, Taiwan, Hong Kong e Macau é integrarem sociedades que têm um profundo respeito pelos professores e pela sua autoridade e exigem aos alunos, na escola, rigor, trabalho e disciplina. Tudo valores que João Costa e seguidores destruíram.
Seria importante que na campanha política para a eleição de 10 de Março todos os partidos dissessem que valores estão preparados para defender, antes de a escola pública perder definitivamente o seu ancestral significado.

Santana Castilho, In “Público” de 20.12.2023

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7 comentários

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    • Investiga on 20 de Dezembro de 2023 at 10:22
    • Responder

    O que contribuiu para este descalabro… um dos grandes motivos é a indisciplina que aumenta de forma desmesurada nas salas de aula, basta correlacionar os números, mais aumenta a indisciplina menos sucesso escolar e acaba por prejudicar quem quer aprender e muitos docentes acabam por entrar de baixa médica. Depois os alunos não têm aulas durante muito tempo por falta de professores para substituir, logo, isso reflete-se nas aprendizagens e resultados.
    Muitos casos de indisciplina, transgressões, nem são denunciados pelos docentes com receio de represálias e falta de apoio das direções.
    Indisciplina= desgaste da classe docente= resultados medíocres
    Urge encontrar soluções para combater a INDISCIPLINA nas Escolas.

      • Sérgio Marques on 20 de Dezembro de 2023 at 17:45
      • Responder

      A culpa da permissividade é dos partidos de esquerda, sobretudo o PS. Devido à cegueira ideológica, só conseguem ver os alunos como vítimas das “injustiças” da sociedade. Os alunos nunca têm culpa de nada, a culpa é do ambiente que têm em casa, e os professores é que têm que ter paciência! Qualquer professor que se lembre de castigar, está a prejudicar a “socialização” e a “inclusão” do aluno. Por isso chegamos a este ponto!

    • Dois (ou três) chapadões nas fuças! on 20 de Dezembro de 2023 at 11:10
    • Responder

    Concordo com o/a Investiga.
    A indisciplina é um problema central e provoca grandes prejuízos, para além do sabor amargo que causa diariamente a quem lá trabalha. É um desgaste e uma desmotivação indescritíveis a forma como somos tratados por alunos e encarregados de educação.
    Por outro lado, a revolta que causa estarmos sujeitos a intimidações e ameaças por pais que nem educar os filhos sabem mas que se julgam capazes de reagir hostilmente aos professores que procuram disciplinar os seus rebentos.
    Pena, também, não estarmos autorizados a dar dois pares de estalos nas trombas dos delinquentes que grassam na sala de aula, cujo objetivo é apenas boicotar o trabalho dos professores e dos poucos alunos que querem aprender. Era remédio santo!

    • Fernando Afonso on 20 de Dezembro de 2023 at 12:50
    • Responder

    Não poderia estar mais de acordo com o autor.
    Gostaria ainda assim de frisar o seguinte, num país em que se interrompe uma entrevista em direto a um professor que fala sobre os problemas da educação para passar ao futebol e ao eterno diz que disse dos treinadores não creio que se consiga chegar mais longe. Países como os que o autor refere são paises em que a sociedade no seu âmago compreende a importância da educação, o que infelizmente não é o caso português.

    • FrankieAT on 21 de Dezembro de 2023 at 9:44
    • Responder

    Portanto os professores, a sua qualidade e o seu desempenho nada tem a ver com estes resultados. A culpa é sempre dos outros, certo?

    • Isto já não tem conserto. on 22 de Dezembro de 2023 at 7:49
    • Responder

    Caro FrankieAt, bom dia.
    ERRADO. A culpa é daqueles que, não sabendo estar em LUGAR NENHUM, comprometem, prejudicam, atrapalham, insultam e desprezam quem quer ensinar, saber, formar – se.
    Não sei o que faz para viver, mas experimente trabalhar com quem faz permanente e diariamente o que enumerei.
    Se tiver a sorte de trabalhar com máquinas, com toda certeza que as desligaria carregando, sem demora, num pistão.

      • FrankieAT on 22 de Dezembro de 2023 at 15:02
      • Responder

      Respondendo à sua dúvida: Sou At numa escola secundária com 150 docentes e 2000 alunos. Há 30 anos. Muitos anos a “virar frangos”. Se quiser, posso dar-lhe lições de tudo sobre a carreira docente, faltas por “doença” com convalescença em Andorra ou Sierra Nevada, mobilidades por “doença” por operações ao menisco, etc etc.

      Respondendo à minha dúvida: sim, pela resposta a culpa é sempre dos outros.

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