Haverá sempre quem queira ser o Director no lugar do Director…

 

Em muitas escolas parece existir medo…

Medo de represálias, de censura e de intimidação, através do qual se mantém a hierarquia, se desincentivam eventuais insurreições e se obstaculiza parte significativa de eventuais acções reivindicativas…

Atrevo-me a afirmar que o medo, quando exista, advirá, em primeiro lugar, da figura do Director, que aparece frequentemente com uma representação negativa e depreciada junto daqueles que lidera…

Esse parece ser um dado adquirido e inquestionável, quando se analisam lideranças em contexto escolar, quer seja em discussões públicas ou privadas…

Sobretudo por esse motivo, dificilmente parte significativa dos Directores conseguirá suscitar empatia, solidariedade ou simpatia da parte dos que são tutelados por si…

Não terá sido por mero acaso que a Missão Escola Pública, no seu Calendário do Advento Escolar, dedicou um dia aos Directores Escolares (Dia 14), onde os mesmos aparecem como prepotentes, subservientes ou alinhados com interesses políticos…

Talvez seja esse o principal epíteto de grande parte dos Directores, apesar de nem todas as lideranças existentes nas escolas pautarem a sua actuação pela prepotência e pelo défice democrático…

Há uns dias atrás, as Associações de Directores anunciaram o seu receio, quanto a uma possível crise de sucessão, sobretudo porque muitos Directores deverão abandonar funções por terem atingido o limite de mandatos, aproveitando esse alerta para pedir incentivos para o desempenho do cargo (Jornal de Notícias, em 25 de Dezembro de 2023)…

Em termos gerais, os Professores reagiram, em diversas publicações que abordaram o assunto, com um gáudio jocoso a esse receio, considerando, em muitos casos, que seria até um alívio poderem ver-se livres de alguns indesejados Directores…

E, mais uma vez, se comprovou a existência de uma imagem estereotipada negativa dos Directores, junto da Classe Docente…

E isso será injusto para alguns Directores? Pois, com certeza, que será…

Mas, e então, o que têm feito muitos Directores para que a sua imagem seja tão negativa e repugnada?

Com o protagonismo que foi outorgado ao cargo de Director pelo Decreto-Lei Nº 75/2008 de 22 de Abril, concedendo a essa figura um Poder praticamente ilimitado e, inclusive, a possibilidade de o exercer de forma autocrática, é provável que muitos Directores se tenham deslumbrado e fascinado com a sua própria imagem no espelho…

Presumivelmente, não terão sabido gerir convenientemente nem a sua imagem, nem o seu Poder, nem as relações interpessoais que obrigatoriamente têm que manter com terceiros…

Muitos terão esquecido que o exercício do cargo de Director é diariamente avaliado, visto e sentido, por dezenas ou centenas de pessoas e que, em determinados casos, a sua reputação poderá ser facilmente posta em causa…

E os próprios terão consciência disso? Acredito que sim, mas, em muitas situações, a respectiva imagem ter-se-á deteriorado de tal modo que já pouco haverá a fazer para a conseguir reabilitar…

Na realidade, ser Director é uma opção voluntária e uma escolha pessoal, de vida e de carreira, como todos, por certo, reconhecerão…

Talvez por esse motivo, as queixas dos próprios Directores, por exemplo em relação à progressão na carreira ou acerca dos constrangimentos existentes no exercício do respectivo cargo, não costumem ser bem acolhidas, nem reconhecidas, pela maior parte dos Professores…

De facto, tratando-se de uma opção voluntária, dificilmente poderão existir “mártires” no universo dos dirigentes escolares, ainda que “nem tudo sejam rosas” no mundo da gestão e administração escolar…

A Classe Docente não costuma olhar para os Directores como seus efectivos pares, nem comover-se com o seu alegado espírito de missão, ainda que a maioria dos próprios dirigentes escolares não prescinda de afirmar a sua condição de Professor…

O que se passará na interacção entre Professores e Directores que não permite a concordância entre essas duas imagens?

A relutância de muitos Professores em confiarem nos respectivos Directores parece insanável e isso dever-se-á, sobretudo, ao facto de se considerar que grande parte das escolas é gerida de acordo com uma incondicional subserviência ao Ministério da Educação e aos seus desígnios…

O que têm feito os Directores para contrariar essa desconfiança?

Desde 2008, quantos Directores se demitiram, renunciando ao exercício desse cargo, por o considerarem como insuportável?

Desde 2008, quantos Directores se demitiram, renunciando ao exercício desse cargo, por discordarem das políticas impostas pelo Ministério da Educação?

Paradoxalmente, o protagonismo exacerbado concedido à figura do Director acabou por tornar-se na sua própria desgraça…

Deter o Poder, unipessoalmente, também acarreta custos, desde logo por se constituir como uma “montra onde se fica irremediavelmente exposto”, podendo tornar-se particularmente visível quando algo corre mal…

As Associações de Directores, que poderiam ter um papel importante como “contrapeso” às políticas do Ministério da Educação, não se têm mostrado capazes de enfrentar as fantasias, as perversidades e os desacertos da Tutela, preferindo enveredar, frequentemente, por inconsequentes “alertas”, “avisos” ou “lamentos”…

Alguns “alertas”, alguns “avisos” e alguns “lamentos”, mas nunca se verificou qualquer recusa efectiva em pactuar com os erros da Tutela…

Apesar de não faltarem motivos, rupturas com a Tutela não têm feito parte da acção das Associações de Directores…

Assim, que confiança poderá ser depositada nas Associações de Directores e, por inerência, nos próprios Directores?

Assim, quem ouvirá as suas queixas, levando-as a sério?

Quanto à mais recente preocupação das Associações de Directores, relativa a uma possível crise de sucessão, será a mesma manifestamente exagerada e não virá certamente a concretizar-se, desde logo porque:

– Haverá sempre quem queira ser o Director no lugar do Director…

(Alusão a Iznogoud, personagem de Desenhos Animados).

A desconfiança e a suspeição com que a maior parte dos Professores olha para a generalidade dos Directores, mas também para os Sindicatos que supostamente os representam, evidencia uma Classe Docente só e mal-acompanhada…

Uma Classe Docente só e mal-acompanhada… Essa será a “doença crónica” que não deixa de afectar os Professores…

 

Paula Dias

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8 comentários

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    • Silva on 30 de Dezembro de 2023 at 16:30
    • Responder

    Os Diretores deveriam ser eleitos pelos seus pares, só assim haveria democracia nas escolas. A grande, grande maioria dos Diretores são uns ditadores e uns prepotentes, que há muito se esqueceram o que é ser professor. Sem eleições livres, sem que todos os docentes possam votar e eleger quem os representa na Escola ou no Agrupamento de escolas, a escola só funciona, na maior parte das situações há base do medo. Há que alterar este estado o quanto antes.

    • Manuel on 30 de Dezembro de 2023 at 16:58
    • Responder

    Subscrevo,alterando apenas “todos os docentes possam votar …” por todos funcionais da escola.

    • Pedro António on 30 de Dezembro de 2023 at 18:35
    • Responder

    Uma instituição que deve ser espelho e exemplo de sociedade democrática, a escola está transformada em pequenos territórios ditatoriais. Acho que o autoritarismo de um insignificante diretor e o riso subserviente ao diretor faz parte de se ser tipicamente português!

    • Zeco on 30 de Dezembro de 2023 at 19:48
    • Responder

    Essa gentalha transformou-se nos kapos do século XXI.

    • CE on 30 de Dezembro de 2023 at 22:33
    • Responder

    Depois admirem-se com a mediocridade da democracia que temos! A escola, que deve ser o campo de ensaio da mesma, tornou-se o cemitério dela através da autocracia unipessoal que pratica.
    A liberdade e a criatividade que a escola deve propiciar para perspetivar um futuro melhor são esmagadas pelo culto ao chefe! Portanto, hoje, a democracia é cada vez mais o exercício da hipocrisia. Não é a sã convivência nem o respeito por diferentes ideias e conjugação de diferentes contributos para construir em conjunto. É apenas um satus quo podre de “entes supremos” com uma corte amestrada para estar um pouco mais perto da gamela.
    Sistemas educativos com este modelo de gestão só tem por objectivo perpetuar uma “elite” que arrebanha massas que se pretendem estupidificadas. Portanto, esta democracia é uma falácia e a escola está a servir de veículo para tal falácia.
    A democracia para ser séria deveria ser praticada na escola e não o é! Nem o modelo de gestão ajuda, nem o facilitismo de projetos e flexibilizações lá conduzem.
    Uma pena!

    • Teresa on 30 de Dezembro de 2023 at 23:30
    • Responder

    Qual o vencimento de um diretor? Penso que ganha a mais e se reforma com ordenado de diretor? Se estiver errada esclareçam-me por favor. O diretor do meu agrupamento está lá desde Julho de 2021 e já no fim da carreira. Diz-se que quis lá meter a filha e o genro nos cursos profissionais. E lá anda a filha. Diz que vai embora para o ano. Um conjunto de interesses, fez com que tivesse vontade já depois dos 60 e tal(é mais velho que eu) de ocupar o lugar.
    Deveria haver eleições para o cargo de Diretor. Ou então voltar a votar nas listas dos representantes da direcção como era antes de 2009.

      • Leal on 1 de Janeiro de 2024 at 2:07
      • Responder

      Oh, Teresa, o Homem foi eleito?

    • AA on 31 de Dezembro de 2023 at 18:26
    • Responder

    Que credibilidade tem os diretores (e há aqueles que gostam e fazem questão em ser tratados por sr. diretor), quando o Presidente da Direção da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP) é simultaneamente Presidente da Junta de Freguesia de Oliveira do Douro em Vila Nova de Gaia?

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