Abriu oficialmente a “Época das Reuniões”…

Abriu oficialmente, em muitas escolas, a “Época das Reuniões”…

Costuma ser uma “Época” que pode comportar alguns perigos para a saúde mental e física, riscos esses, quase sempre provocados por discursos entediantes, redundantes, fastidiosos, cuja pertinência será, no mínimo, duvidosa, mas também pelo hiperbólico trabalho burocrático, vulgarmente designado por “primado das Grelhas”…

A “Época das Reuniões” torna-se, muitas vezes, o contexto ideal para dar aos denominados “empata-reuniões”, a oportunidade de poderem expressar todo o seu esplendor e todo o seu encanto…

Afinal, o que seria de uma escola sem o inestimável contributo dos “empata-reuniões”?

Os “empata-reuniões”, verdadeiros especialistas em “conversa de treta”, em “conversa para boi dormir”, em reflexões profundíssimas acerca do “sexo dos anjos” ou em dissertações acerca da influência da trigonometria no ciclo de vida da filoxera, não costumam prescindir de monopolizar as reuniões por onde passam…

Os “empata-reuniões” conseguem passar largos minutos, ou até mesmo horas, se o permitirem, a repetir o que já foi dito e redito, sem acrescentar nada de novo; gostam muito de se ouvir a si próprios e parecem considerar que a competência se mede pelo número de palavras que se consegue debitar por minuto…

Um “empata-reuniões” raramente afirma que subscreve o que já foi dito… Para um “empata-reuniões” é preciso ir muito mais além e repetir, por outras palavras, por muitas palavras, tudo o que já foi dito anteriormente…

Enfim, discursos “redondos”, que não saem do mesmo sítio, através dos quais se evidencia a mestria e a arte de falar muito, sem dizer nada de especialmente pertinente ou relevante, mas sempre com um tom enfático em todas as palavras…

Os “empata-reuniões”, frequentemente perdidos em monólogos supérfluos e desnecessários, raramente percebem que os seus interlocutores podem estar fartinhos de os ouvir, parecendo antes considerar que todos têm o dever e a obrigação de se mostrarem muito interessados e satisfeitos pela sua douta verborreia…

A categoria dos “empata-reuniões” é francamente aquela que mais aflige qualquer comum mortal, que deseje não desperdiçar tempo em actividades inúteis e improfícuas…

Os “empata-reuniões” parecem considerar que uma reunião não pode ser dada por concluída antes do tempo máximo estipulado para a mesma… Se uma reunião tiver, por exemplo, a duração máxima de uma hora e meia, ninguém deverá sair da dita antes desse tempo expirar, mesmo que já não haja mais nada de relevante para tratar…

Se necessário, ficar-se-á a “encher chouriços”, mas dali ninguém sai antes de ter passado uma hora e meia…

Por seu lado, a Grelha, essa “luminosa” e prodigiosa invenção, robustecida nos últimos tempos, de forma muito imaginativa e inusitadamente obsessiva, atingiu o estatuto de “praga”, incontrolável e difícil de extinguir…

Em cada escola, instalou-se o primado das Grelhas: existem as mais variadas, para tudo e para nada, e em muitos casos o respectivo preenchimento costuma significar flagelo, tortura ou suplício, quer pelo tempo que é necessário despender, quer pela inutilidade prática dessa tarefa…

Comummente, passam-se muitas horas a proceder ao preenchimento de Grelhas em série e até à exaustão, cujas virtudes ou efeitos concretos se desconhecem, apesar dessa actividade assumir quase sempre um carácter obrigatório…

À partida, uma Grelha deveria ser um instrumento de registo de informação, cujo principal objectivo consistiria em sintetizar e, sobretudo, simplificar determinado conjunto de dados…

Ora acontece, muitas vezes, que algumas Grelhas se apresentam com formas e conteúdos tão intricados que dificilmente alguém compreenderá o seu significado ou a finalidade da informação aí constante… Como exemplo paradigmático disso, bastará analisar algumas Grelhas de Avaliação de Alunos, elaboradas à luz do Projecto MAIA, existentes em algumas escolas…

Segundo “estudos” realizados sabe-se lá por quem, o contacto prolongado com “empata-reuniões”, aliado ao preenchimento desmedido de Grelhas, poderão causar danos ao nível da saúde mental e física, temporários ou irreversíveis, desde logo os seguintes:

– Alterações ao nível do humor, com predomínio da irritabilidade e da intolerância, que poderão culminar num atroz sentimento de raiva, ainda que, a muito custo, o mesmo possa ser reprimido, contido e sublimado;

– Dores de cabeça, enxaquecas e náuseas. Alguma confusão mental e, nos casos mais graves, poderão mesmo ocorrer delírios (crenças incompatíveis com a realidade) e alucinações (percepção alterada da realidade);

– Falar sozinho (solilóquio), também poderá apresentar-se como um transtorno plausível, sobretudo imediatamente após a saída de uma reunião;

– Possibilidade de desenvolver coprolalia (proferir palavras obscenas e palavrões de forma involuntária), sobretudo imediatamente após a saída de uma reunião e ainda que os impropérios possam ser proferidos num tom de voz inaudível ou que fiquem retidos no pensamento;

– Compulsão para o consumo de bebidas alcoólicas, tabaco, café ou açúcar, sobretudo depois de terminada uma reunião;

– Arritmia cardíaca, com predomínio da ocorrência de taquicardia (ritmo cardíaco acelerado). Os “nervos” que algumas reuniões provocam são tramados;

– Possibilidade de ocorrência de insónia, de pesadelos nocturnos ou de dificuldade em adormecer, sobretudo na noite que antecede uma reunião. Consequentemente, possível desenvolvimento de narcolepsia (sonolência diurna excessiva);

– Por motivos óbvios, aumento da ansiedade, do stress e da fadiga mental e física, com possível diminuição da libido;

– Muito raramente, também se poderá verificar a ocorrência de odaxelagnia, traduzida pela vontade de morder alguém, ainda que, a muito custo, possa a mesma ser reprimida, contida e sublimada…

Não sendo possível optar pela abstinência de reuniões, de “empata-reuniões” e de Grelhas, restam-nos os impropérios, ditos em pensamento ou proferidos num qualquer recato, e tentar manter um mínimo de boa-disposição…

Dizer palavrões até é considerado por alguns como um indicador de inteligência e de honestidade (Timothy Jay, 2015), portanto nada haverá a temer…

As escolas que organizam as actividades lectivas por Semestres, estarão, por ora, a salvo destas vicissitudes, mas, em breve, lá para o final de Janeiro, também se verão atingidas pelo mesmo flagelo…

Será, portanto, escusado cair na tentação de troçar das escolas que se encontram em plena “Época de Reuniões” ou de pensar que a obrigatoriedade de ouvir longas dissertações acerca da influência da trigonometria no ciclo de vida da filoxera, só acontece aos outros… É só aguardar mais um pouco…

Este texto sarcástico não pretende ser uma generalização e qualquer semelhança com alguma realidade terá sido mera coincidência…

 

Paula Dias

 

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4 comentários

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    • Como Sobreviver on 18 de Dezembro de 2023 at 13:16
    • Responder

    Não desesperem.

    Existem várias formas de preservar a saúde mental e sobreviver a uma reunião.

    1ª – deixar os empata-reuniões e os hiper-burocratas falar entre si, têm muito em comum e podem fazer o trabalho todo

    2ª – Fantasiar, imaginar-se na praia, ou num outro qualquer lugar paradisíaco, transformar o som dos empata-reuniões no som do mar, ao longe.
    Ou imaginar-se num envolvimento romântico com aquela colega gira.

    3ª-Netflix, dá sempre para se pôr em dia com aquele episódio que ainda não viu.
    O Kit Digital para alguma coisa serve.

    Outras formas de sobrevivências haverá.

    Deixe aqui a sua sugestão.

    • Maria on 18 de Dezembro de 2023 at 13:42
    • Responder

    A arrogância das coordenadores nas reuniões e não só é impossível de tragar.

    • Salgado on 18 de Dezembro de 2023 at 13:48
    • Responder

    As reuniões servem apenas para as escovas das escolas maltratarem os colegas de quem não gostam.

    • Vero on 18 de Dezembro de 2023 at 17:29
    • Responder

    Muito bom texto, espelha bem o que são estas reuniões, sim, onde algumas (costuma ser em duo).. “sabichonas” com o monopólio da palavra…do género « vale mais parecer que Ser» e adoram sobrepôr-se aos outros…

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