A raiz do problema dos professores

A raiz do problema dos professores

 

Alguém já se interrogou, de forma honesta e responsável, sobre a razão do elevado número de atestados por baixa psiquiátrica colocados anualmente pelos professores? No meu caso particular, leciono numa escola com 1600 alunos onde o barulho que ocorre nos intervalos é de tal forma perturbador que chego a sentir necessidade de tapar os ouvidos e de me isolar numa sala fechada para poder enfrentar a aula seguinte

Ao ler com especial atenção tudo o que se escreve sobre o tema da Educação em Portugal nos diferentes meios de comunicação, seja em formato papel ou digital, chego a uma conclusão: todos (incluindo eu) parecem ser unânimes em concluir que esta vive um estado agonizante. Isto preocupa-nos, não só aos que trabalham diária e diretamente na Escola Pública como também a todos os que, nela não trabalhando, se identificam com os desafios que se colocam a estes profissionais, independentemente das especificidades dos seus ciclos, níveis ou instituições de ensino público em que se encontrem. Falo diariamente com professores, do pré-escolar à universidade, e há unanimidade: a Educação precisa urgentemente de um novo paradigma.

No artigo intitulado Se a democracia ensurdece, grassam os populismos (in Observador, 17/11/2023), João Casanova aponta o dedo para algumas das principais questões que se nos colocam de forma crucial a partir de agora, neste momento de mudanças políticas que se avizinha: colocar a Educação como um dos pilares fundamentais para o desenvolvimento do país; criar um pacto de Regime que a coloque como uma questão de estado e não como matéria de mera natureza partidária; permitir que a Escola garanta a qualidade das aprendizagens, melhorando as qualificações e a massa crítica de quem a frequenta, com vista ao aumento da produtividade que permita a captação de investimento. Neste mesmo artigo, o simultaneamente urgente e polémico tema dos professores vem à ribalta, – mais concretamente a devolução integral do tempo de serviço – pois sem os professores, tudo o que atrás foi enumerado ficará sem efeito.

Sobre a falta de professores, a não atratividade da carreira docente como a conhecemos hoje ou as dificuldades que o sistema parece possuir na retenção destes profissionais, abstenho-me de continuar a reiterar as mesmas ideias pois tudo isto parece tornar-se cada vez mais redundante. Quem quiser verdadeiramente começar a tentar resolver o problema da Educação em Portugal terá de começar pela raiz do problema. E qual é a raiz do problema, perguntarão os leitores?

 

Carmo Machado, in Visão

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2023/12/a-raiz-do-problema-dos-professores/

7 comentários

Passar directamente para o formulário dos comentários,

    • F.S. on 7 de Dezembro de 2023 at 15:56
    • Responder

    Muito Bom!

    • Carlos Moreira on 7 de Dezembro de 2023 at 15:58
    • Responder

    O barulho não é só nos intervalos, é nas próprias aulas!!!

    • sapinhoVerde on 7 de Dezembro de 2023 at 18:00
    • Responder

    Infelizmente, numa escola nos intervalos e fora deles, mais parece uma cena das prisões dos estates ….
    Não quero ser muito radical, mas é o que me se afigura como mais apreço.
    Infelizmente a falta de civismo dos alunos leva a histerias muito radicais…
    Só gostava de saber se fazem o mesmo em casa … mas se calhar fazem mesmo …. portanto está tudo dito …

    • Maria on 8 de Dezembro de 2023 at 1:08
    • Responder

    E na cantina?

    • João Lencastre on 8 de Dezembro de 2023 at 16:43
    • Responder

    Isto é só a ponta do iceberg.
    Ter salários de treta. Ter carreiras que nunca chegarão longe.
    Ter avaliações absurdas, como não podia deixar de ser num sistema que é absurdo.
    Levar com ultrapassagens.
    Viver na miséria.
    Esperar uma reforma de miséria, se é que ela vai alguma vez existir.
    Ter constantes desgastes psicológicos e emocionais, porque é pedido cada vez mais e mais…
    Esta é a raíz dos problemas.

    • Mic on 9 de Dezembro de 2023 at 19:32
    • Responder

    Será que os bom resultados do Japão, Singapura e Coreia do Sul são apenas coincidências? Claro que não! É tudo uma questão de cultura de esforço, de respeito e de responsabilidade, algo que não existe por cá.

    • AC on 10 de Dezembro de 2023 at 14:48
    • Responder

    Então, como fica a questão do silêncio nos intervalos por uso excessivo de telemóvel, situação real que tem preocupado tanta gente ao ponto de proibirem o seu uso durante os intervalos?
    Será que a escola onde Carmo Machado trabalha já implementou a sua proibição e, daí, o barulho nos intervalos?
    ?????????

Deixe um comentário

Your email address will not be published.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Discover more from Blog DeAr Lindo

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading