«Basta pum basta!» Porque lutam os professores?

«Basta pum basta!» Porque lutam os professores?

 

«Costa escuta, os professores retomaram a luta!» O velho lema reivindicativo agora atualizado transporta-nos para um tempo pretérito em que os professores foram trucidados por uma antiga ministra da educação, tecnocrata e “socratina”, que, agora, afirma, despudoradamente: «Não sei como chegámos aqui assim. Não sei e não quero saber!» («É ou não é», RTP1, 19-04-2022).

Pois nós, professores, conhecemos bem todas as tramas desta tragicomédia que atingiu, aqui e agora, o seu clímax.

A escola pública é um lugar que nos causa sentimentos paradoxais de felicidade, resistência e melancolia. Sempre foi assim.

A felicidade de sociabilizarmos com «muitas e desvairadas gentes»; de ensinarmos e aprendermos; de colaborarmos no complexo processo de modelação das mentes; de contribuirmos para resgatar meninas e meninos da pobreza económica e cultural; de nos construirmos como cidadãos e participarmos na construção de novos cidadãos; de vermos os nossos alunos crescerem e recebermos a sua gratidão.

A resistência para cumprirmos a inalienável missão formativa, educativa e cívica nas conjunturas e nos locais menos e mais hostis — em tempos de crise ou de pandemia, nos «bidonvilles» contemporâneos das grandes cidades do Portugal de hoje, na «Província» despovoada, proletarizada e ostracizada pelos poderes centrais de Lisboa, nas escolas governadas por diretores tiranos (neste caso, a minha e outras escolas ainda vão sendo raros oásis que resistem à prepotência de reitores salazarentos, que vivem atormentados com a possibilidade de um dia serem preteridos e terem de voltar a pisar os soalhos das salas de aula, como “simples” professores operários).

A melancolia de por vezes nos sentirmos impotentes perante tamanhos desafios ou diante do medo de a nossa saúde física e mental não resistir às adversidades da profissão. A frustração de errarmos, ainda que errar seja próprio de todos os homens e mulheres.

Mas, aqui e agora, a melancolia agravou-se. Transformou-se numa angústia ainda mais inquieta, por nos sentirmos traídos e menorizados por um ministro da Educação que exige o sacríficio dos professores, estrangula muitos de nós com excesso de trabalho, com trabalho precário e nómada, sem nos dispensar a necessária solidariedade. Converteu-se em tristeza persistente, por nos sentirmos manipulados por um Ministério da Educação dirigido por tecnocratas e alcateias de “apparatchiks” ou “boys” que não pisam o chão das salas de aulas, ignoram o quotidiano das escolas e desprezam os problemas reais dos alunos e dos seus professores.

Quando esta mágoa é acirrada e degenera em ressentimento, a paz rompe-se e o confronto explode.

«Basta pum basta!». Não queremos mais ser asfixiados por burocracias inúteis, controleiras e mistificadoras, que nos esgotam e roubam tempo para pensarmos, investigarmos e planificarmos aulas. Queremos que o nosso trabalho na sala de aula seja respeitado e encorajado. Não queremos ser recrutados por autarcas e diretores escolares conluiados e instigados por motivações subjetivas já tão institucionalizadas neste país de «brandos costumes» (leia-se simpatias político-partidárias, nepotismo, amiguismo…), mas sim por concursos nacionais que selecionam os professores com melhores currículos académicos e profissionais. Queremos aceder a uma formação de professores séria, que não despreze a nossa atualização científica enquanto glorifica cursos de formação, mais ou menos imprestáveis, nas áreas da capacitação digital, da avaliação pedagógica e dos mindfulness, os quais, presumo, estão a ofertar generosos proventos a muitos iluminados. Queremos uma legislação que combata a indisciplina nas escolas e proteja professores e alunos. Não queremos uma avaliação de professores assente em critérios etéreos que tendem a premiar os mais habilidosos e a penalizar os mais empenhados. Queremos a devolução dos 9 anos e 4 meses de serviço que cumprimos e que nos foi usurpado para efeitos de aposentação e de progressão na carreira.

Alguns cidadãos acham estas exigências estapafúrdias. Outros cidadãos, porém, mais conscientes da importância que a educação tem para o futuro de um país, sabem que é fundamental dignificar a profissão docente e valorizar a escola pública nacional.

Luís Filipe Torgal*

 

*Luís Filipe Leitão Rodrigues dos Reis Torgal, CC n.º 7797056, professor de História do Agrupamento de Escolas de Oliveira do Hospital. Mestre em História Económica e Social Contemporânea e doutorado em Estudos Contemporâneos pela Universidade de Coimbra. Investigador colaborador do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra (CEIS20). Autor dos livros O sol bailou ao meio-dia. A criação de Fátima (2015), Tomás da Fonseca. Missionário do povo (2016), Fátima. A (des)construção do mito (2017). Organizou e prefaciou a reedição do livro de Tomás da Fonseca Na Cova dos Leões. Fátima: Cartas ao cardeal Cerejeira e uma antologia da obra do mesmo autor, intitulada Religião, República, Educação. Colaborou nas obras História de Portugal em DatasHistória Comparada – Portugal, Europa e o MundoDicionário Biográfico Parlamentar (1935-74) Dicionário de História da I República e do Republicanismo. Publicou, em coautoria, os livros Machado Santos (1875-1921) – O intransigente da República e  Brandos costumes… O Estado Novo, a  PIDE e os intelectuais. É autor de diversos artigos científicos ou de intervenção cívica publicados em blogues, revistas e jornais locais, regionais, nacionais e estrangeiros   

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