No dia 30 de Janeiro haverá seguramente um perdedor: a Educação…

 

Na esmagadora maioria das escolas públicas não há Democracia. Sem Democracia, a Escola Pública apodrece, definha e asfixia.

 O apodrecimento da Escola Pública ocorre, sobretudo, de dentro para fora. Começa quase sempre no interior de cada escola, muitas vezes como consequência da existência de lideranças autoritárias e totalitárias, disfarçadas e branqueadas com discursos, melosamente, paternalistas: “a minha escola”, “os meus professores” ou “é preciso ter muita paixão e espírito de missão para trabalhar na minha escola”…

 Tantos discursos, pretensiosamente comoventes e “pseudo-delicodoces”, da parte de muitos que, de forma consciente ou inconsciente, não deixam de considerar a escola e os respectivos profissionais como propriedade sua…

 Já não é possível suavizar, polir ou mitigar a ausência de Democracia na Escola Pública. Sem eufemismos hipócritas e sem malabarismos linguísticos, parece que:

 No geral, as escolas públicas foram transformadas numa espécie de “feudos senhoriais”, como se fossem propriedade privada; o Poder foi centralizado, as decisões são tomadas unipessoalmente, quase sempre de forma inflexível e arrogante; a doutrinação e o culto à personalidade do “líder supremo” são frequentes, podendo chegar-se ao ridículo da existência de rituais a lembrar o “Beija-Mão” de outras épocas…

 Os privilégios concedidos aos detentores do Poder permitem-lhes exercê-lo de forma absoluta, abusiva e discricionária, se for essa a sua vontade…

 A contestação é barrada; a oposição é, oficiosa e cinicamente, proibida; existe censura, concomitante com represálias e castigos, previstos para quem ouse levantar-se…

 Existe repressão, controlo, intimidação e coação… Existe “vigilância política” e existe, enfim, um hediondo “terrorismo de Estado”, através do qual se mantém a ordem e a hierarquia e se desincentivam eventuais insurreições…

E se isso não é uma Ditadura, o que será uma Ditadura?

 Perante tais atropelos à liberdade de expressão e ao próprio Estado de Direito, tem reinado o silêncio, a passividade e a condescendência por parte dos “ungidos da intelligentsia autóctone… (“Ungidos da intelligentsia“, expressão da autoria de Thomas Sowell).  

 Por onde têm andado os “ungidos da intelligentsia”, em particular a elite dos “Intelectuais de Esquerda”, que, noutras situações, se costuma mostrar tão hábil, ávida e célere a denunciar cenários de autoritarismo e de défice democrático e a indignar-se face à existência de vítimas de injustiça e de opressão?

 Assente no legado do Decreto-Lei nº 75/2008 de 22 de abril, o Partido Socialista foi o principal responsável pela instauração da Ditadura nas escolas.

 Como um “especialista em balelas”, e fazendo de conta que não governou o país durante os últimos seis anos, vem agora, cinicamente e com total desplante, acenar com promessas vãs, tentando ludibriar com “Unicórnios” e “Histórias de Encantar”…

 À Esquerda, e relembrando a obra realizada nos últimos seis anos, já se viu o que pode ser (muito mal) feito na área da Educação. E também se viu que não houve qualquer intenção ou propósito no sentido de alterar, e muito menos de revogar, o actual Modelo de Administração e Gestão Escolar…

 À Direita, e pelo que já se conhece dos respectivos discursos políticos, também não interessará a restauração da Democracia na Escola Pública e não se vislumbram quaisquer medidas no sentido de promover as prementes mudanças…

 Ironicamente, a Ditadura nas escolas parece servir tanto à Direita como à Esquerda: ambas tentam aproveitar-se da ausência de Democracia para fazer valer os respectivos desígnios políticos, quer sejam os autárquicos/locais ou os centrais, sem pejo em utilizar a Escola Pública como um instrumento político…

O mais importante, é manter o status quo e continuar a exercer toda a influência possível, com o objectivo de potencializar dividendos políticos…

 Mas, e obviamente, a Ditadura nas escolas também serve à maioria dos Directores de Agrupamentos de Escolas… De 2008 até ao momento presente, quantos se demitiram do exercício desse cargo, por discordância com as directrizes emanadas pelo Ministério da Educação ou em solidariedade com “os seus professores”?

 No próximo dia 30 de Janeiro, e independentemente dos resultados do sufrágio eleitoral, haverá seguramente um perdedor: a Educação.

 A Educação, pela qual nenhum Partido Político genuinamente se interessa, continuará, certamente, pelos caminhos mais erráticos, sem esperança de que algo mude para melhor e refém da alucinação e do delírio de quem só conhece a realidade das escolas por via indirecta e quase sempre de forma enviesada…

 Não é possível ignorar a ausência de Democracia na Escola Pública. Esse aspecto está omnipresente e continuará a dominar e a contaminar qualquer discussão, seja qual for a temática educativa em apreço…

 Sem Democracia e sem pensamento crítico não existe uma verdadeira Escola Pública… Quando muito, existe uma Escola Pública “postiça” e “travestida”, sem credibilidade e pervertida pela manipulação…

Neste momento, a administração, a gestão e o funcionamento da Escola Pública pautam-se por Valores opostos aos da Democracia e é impossível compatibilizar tal incongruência…

 Sarcástica e metaforicamente, o estado actual da Educação pode resumir-se à imagem do conhecido quadro “O Menino da Lágrima” (Giovanni Bragolin): deprimido, sinistro, trágico, “órfão” e muito “kitsch”

 Os profissionais de Educação, além de serem vítimas desse estado de degradação, serão também cúmplices do mesmo?

O que se tem ganho com a postura: “laissez faire, laissez passer”?

 

(Matilde)

 

 

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12 comentários

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    • Vanda Serrão on 7 de Janeiro de 2022 at 9:46
    • Responder

    Custa a aceitar, mas é verdade!

    • Ana on 7 de Janeiro de 2022 at 11:03
    • Responder

    Pura realidade! E somos todos cúmplices!

    • Blá,blá,b... on 7 de Janeiro de 2022 at 11:25
    • Responder

    Esta colega tem como missão identificar o que todos já constataram.

    No entanto, para mim, isto vale uma mão cheia de nada e o que eu gostaria de saber o que é que a colega já fez para contrariar o que é aqui descrito?
    Tem ações a decorrer em tribunal, como poucos o fazem, ou este desabafo é só para se sentir melhor? Aguardo, ansiosamente, a sua resposta…

    • Anselmo Santos on 7 de Janeiro de 2022 at 11:29
    • Responder

    A democracia é a nossa possibilidade de escolher um partido que a graranta durante a legislatura .
    O parido mais escolhido, indicou antecipadamente os deputados à Assembleia da República
    São esses, aqueles que o povo preferiu, através do seu voto, que escolherão o governo que
    garanta aquilo que o maior numero de portugueses escolheu . E isse repete-se 4 em 4 anos.
    A democracia está na possibilidade de podermos escolher quem queremos que nos governe.
    Enquanto pudermos, de 4 em 4 anos, escolher quem nos governe, há democracia.
    A democracia não tem donos, nem de esquerda, nem de centro, nem de direita! A democracia é essa possibilidade de poder escolher! Democracias especificas para determinadas facções minoritarias, nao é democracia, e exigir isso, é pressionar o resto ( maioritário) de todas as pessoas que com isso não concordem.

    Isto é apenas aquilo que no meu entender é democracia.
    Respeito outras opiniões, mas esta é a minha.

      • Rui on 7 de Janeiro de 2022 at 14:57
      • Responder

      Tem toda a razão. É EXATAMENTE o que descreve como democracia que NÃO EXISTE nas escolas.
      É, também, a essa verídica e TOTAL ausência que se refere o texto da Matilde!
      Posto isto, o seu comentário ou é redundante ou ininteligível.
      Só uma nota: a hipocrisia, o fingimento e a sonsice, pública, dos comissários políticos, a par do constante assédio laboral a que sujeitam os “SEUS” professores, torna-os ainda mais insuportáveis que a odiosa maria lurdes rodrigues.

  1. Agrupamento de Escolas Ibn Mucana – Cascais

    • Factos on 7 de Janeiro de 2022 at 14:35
    • Responder

    Há mais democracia no Chega do que nas escolas públicas portuguesas. Pelo menos não parece estar nos planos desse partido acabar com as eleições no país, como aconteceu nas escolas, às mãos dos “democratas” do PS.
    Onde andam os “intelectuais” da nossa praça, que tanto se irritam, justamente, com a falta de democracia do Chega.
    Provas:
    https://capasjornais.pt/Capa-Jornal-Publico-dia-12-Agosto-2018-9909.html

    Falsas promessas dos intelectuais de esquerda:
    Programa do BE, 2015: 19: “Para o Bloco, as comunidades escolares devem regressar à gestão democrática, rejeitando a institucionalização da figura do diretor omnipotente”.
    Perguntem à dra Catarina, com 4 ou 5 anos “no” governo, o que se passou. Só mudaram as moscas…

    Programa eleitoral do PCP, para a educação, 2015: “Aprovação de uma nova lei de gestão democrática que respeite os princípios, objectivos e valores consagrados na Constituição e na Lei de Bases do Sistema Educativo;”
    7 anos depois…ZERO.

    • Zé Manel on 7 de Janeiro de 2022 at 15:23
    • Responder

    O primeiro perdedor foi obviamente o Paulo Rangel…

    Homem da Direita e comentarista de assuntos católicos, agiornizado pela atmosfera modernista de Bruxelas, e esquecendo-se que o TGV ainda não chegou a Portugal, resolveu revelar aos portugueses, enquanto estes colocavam os pratos na máquina de lavar, num domingo depois do almoço, que não sente grande inclinação pela beleza feminina, preferindo sempre ser penetrado por um bom companheiro varão.

    Os portugueses, a cerca de meio-século involutivo da Flandres, apesar de completamente imbecilizados por décadas de dominância do esquerdismo pós-soviético que domina todos os partidos, até o Chega, recusaram, ainda antes das eleições, ter uma primeira-dama como a do Luxemburgo…. Isto é a prova de que a rede europeia de TGV, apesar de fazer uma tangente na fronteira portuguesa, a nordeste, é preciso atravessar montes e vales, rios e montanhas a partir de Lisboa.

  2. Matilde, 👏👏👏👏.

    • Enc.Educacão🤮 on 7 de Janeiro de 2022 at 17:34
    • Responder

    Alguns Diretores dos Agrupamentos sejam de direita, esquerda, centro etc são tudo menos democratas.
    “Os meus funcionários ” “Os meus Professores” ” A minha Escola”, será que esta gente não tem vergonha na cara? Nada é deles/delas. Estão todos a trabalhar para o mesmo, sucesso dos alunos… Fazem todos parte da comunidade educativa! O que realmente assusta, delegação de poderes que são dadas a está “gentinha”. A culpa é dos governos que têm passado pelo nosso país!
    Srs Diretores, escolhem os melhores horários para o “lambe botas”, os melhores projetos/viagens para docentes amiguinhos, o coordenador técnico O mais lambe botas, o coordenador AO também, as melhores áreas de serviço para os Não Docentes, os filhos dos amigos nas melhores turmas. As prendinhas dadas/recebidas etc etc.
    Será que o Ministério da Educação NÃO tem conhecimento do que se passa? TEM! Mas ignora completamente. Enquanto alguns Diretores vão cometendo injustiças com docentes e não docentes que lhes fazem frente. Até mesmo com alunos! “Gentinha” tenham noção que toda a comunidade escolar /espaço físico não é vosso!! Aos lambe botas, tenham noção que tudo roda.
    O suplemento que querem auferir à custa dos não docentes SIM, porque o número de alunos aumentam o número de pessoal não docente NÃO! OS SRS DIRETORES A AUFERIR DE SUPLEMENTO SUPERIOR AOS VENCIMENTOS NÃO DOCENTES! VERGONHOSO!!
    A ESCOLHA DOS LAMBE BOTAS PARA CARGOS SEM SER POR MÉRITO! ESCANDALOSO!

    • Rui Manuel Fernandes Ferreira on 7 de Janeiro de 2022 at 21:20
    • Responder

    Muito bom.

    • Sr. Professor Zé on 8 de Janeiro de 2022 at 1:08
    • Responder

    Muito Bom! Parabéns pelo seu texto.

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