Leitura em profundidade da ideia chave do PS para resolver a falta de professores. – Luís Sottomaior Braga

“Criar incentivos à aposta na carreira docente e ao desenvolvimento de funções docentes em áreas do país onde a oferta de profissionais é cada vez mais escassa e onde a partilha de recursos se mostre fundamental para a manutenção de oferta educativa e formativa.”

Esta frase é um dos destaques do programa eleitoral do PS para educação.

É vaga e realmente não quer dizer nada. Nula, como tem sido a ação política do PS na governação educativa.

Mas, por respeito pelo partido, que anda a pedir “50% dos votos mais 1”, vamos tentar espremer algum sentido do que aqui está escrito.

Afinal, é a principal proposta sobre educação de um Partido, que recandidata como cabeça de lista o ministro que mais tempo foi ministro da educação, desde o tempo em que o ministério foi criado, ainda se chamava da Instrução Pública, e tinha como ministro um outro António Costa, sem relação de parentesco com o que agora pontifica no largo do Rato (foi há 150 anos…).

E, para cúmulo, a educação deve ter tanta atenção política deste partido (que tem como lema de campanha “seguir”) que o ministro é candidato a deputado, pela 3ª vez, num distrito pequeno, mas que é decisivo para uma maioria absoluta (lembremos que foi de lá – no meu caso, cá – Viana do Castelo – que veio o deputado Daniel Campelo, o do queijo).

Comecemos a exegese da profecia passo a passo.

“Criar” – começamos mal. O PS e os políticos portugueses em geral não são conhecidos pela criatividade (a não ser em moscambilhas). E criar implica, não só fantasiar, mas pôr em ação coisa que funcione.

“incentivos” – continuamos apanhados pela dúvida: incentivos a quem? dados por quem? de que tipo (dinheiro, vantagens no acesso à carreira, bonificação de tempo de serviço, concursos locais com vantagens para os que lá forem,….)? Vamos ter de volta a ideia absurda de atacar o princípio da colocação em concurso geral e criar concursos locais mais abertos à fraude, falta de transparência e favoritismo? No tempo da Lurditas, houve uma tentativa de fazer concursos locais de quadro para TEIP’S. Falharam, porque esse caminho criava injustiça. Vai ser essa invencionice que querem ressuscitar?

“à aposta” – os programas eleitorais têm de ter esta linguagem picante, mas isto não é um casino onde se fazem apostas. Suspeitava que era esse o espírito. É esse precisamente o problema da gestão de pessoas no Estado: muita fezada e pouca racionalidade. E não fica claro se a aposta é do Estado, ao dar os incentivos, ou dos incentivados, que vão achar os incentivos tão bons e prometedores que vão largar tudo e esperar o jackpot. Se a “aposta” fosse do Estado, o PS teve 6 anos para isso e fechou-se em copas e ainda acusou os professores de batoteiros.

Há uma palavra que, depois de analisar só 3, se vê já em falta: confiança. Houve, nos anos 90, quem “apostasse” na carreira educativa. Foram roubados pela banca (a real, que faliu, e a metafórica, do “casino” dos governos, com os seus cortes e congelamentos de salários de mais de uma década). Como todos os jogadores que perdem apostas milionárias, eu diria aos novos para terem cuidado com “apostas” e “jogatanas”.

“na carreira docente” – que carreira docente? Nova fantasia.

Aquela que tinha um estatuto, que dizia que quem tivesse 28 anos de serviço estava no 9º escalão e que tem boa parte dos seus membros, com 45/ 50 anos (25/30 anos de serviço), abaixo do 7º e a maioria no 5º, isto é, no meio.

Podem fazer as propagandas de apostas que quiserem, que os jogadores derrotados de tempos passados provam que o risco deste casino profissional, gerido por PS/PSD, com recurso à roleta da ADD, é demasiado alto. Veja-se o que se passou em 2019, em que PS e PSD se juntaram numa aposta política para matar a recuperação de 9 anos de carreira perdida (o que afetou mais que outros esse escalão geracional dos 45/50).

“e ao desenvolvimento de funções docentes” – mas vai haver “funções docentes” fora da carreira? Isto é, na vossa proposta, parece que há a “carreira” e o resto que não o será: um alçapão de letras miúdas, de reserva mental no texto, para manter a precariedade dos contratados, alguns em substituição, a quem nem deixam fazer descontos completos para a segurança social, para não chegarem a ter subsídio de desemprego.

 “em áreas do país onde a oferta de profissionais é cada vez mais escassa” – ah…!!! Afinal há falta de professores. Aquilo que tantos diziam que não havia. E vai ser com a vacuidade das ideias anteriores e com a distinção subtil expressa na frase entre “carreira docente” e “funções docentes” que se vai “criar” algo do inexistente (não é escasso, é inexistente).

“e onde a partilha de recursos se mostre fundamental para a manutenção de oferta educativa e formativa” – neste ponto da frase, eu partiria em 2 e punha um ponto final. Mas, apesar da pouca gramática e fluidez de redação, tentemos fazer esguichar algum sentido destas palavras.

Ora vamos lá ver: vai haver incentivos à partilha de recursos (recursos de quem? que vão ser partilhados como?). Será que um partido, que tanto se preocupa com as pessoas, não devia chamar-lhe pessoas ou profissionais (ou professores, que é o que se trata) em vez de “recursos”?

Se formos além da letra, parece que isto (que parece ser a única coisa com aparência de concreto da frase) vai ser algo do género: pôr professores a dar aulas em tantas escolas, quantas as necessárias, para o PS se livrar da enrascada em que se meteu (e meteu a sociedade portuguesa) porque, ao tratar mal os professores, deixou de haver quem queira ser.

O “se mostre fundamental”, na verdade, quer dizer “onde estivermos mais atrapalhados com falta de gente que queira dar aulas.”

Não deixa de ser curioso que, em 3 linhas, se use 2 vezes a palavra “oferta” (fora do sentido de dádiva, mas a lembrar ao inconsciente leitor que um programa é bacalhau a pataco) e outras palavras prospetivas como “aposta” ou “desenvolvimento”, ou, que na referência escondida à intenção de pôr professores em 2 escolas, se use a palavra fofa “partilha” e o conjuntivo (“se mostre” – sinal de reserva mental e de que algo se esconde na fofura). E, ainda, que se evite dizer o desagradável “necessário” ou, bem pior, “obrigatório”, trocado pelo solene “fundamental”.

Lido com atenção, este linguarejar do programa PS (que teve 2 ministros a governar mais de uma década a educação, nos últimos 15 anos, mas insiste em que conheçamos a sua “criatividade inovadora”) soaria mais ou menos assim:

“Vamos tentar inventar uns incentivos que iludam uns quantos de que vão entrar na carreira, quando realmente não estamos preocupados com isso, mas em arranjar quem desenrasque as aulas, ainda que continuem precários e possam até dar aulas em 2 ou mais escolas.”

Perante o tsunami de aposentações de professores que aí vem, o PS não tem uma estratégia ou ideias estruturadas que se possam precisar. Tem um programa que é o típico Costa: “fundamentalmente” arregaçar as calças e seguir, a esperar que a enxurrada não seja forte e passe.

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2022/01/leitura-em-profundidade-da-ideia-chave-do-ps-para-resolver-a-falta-de-professores-luis-sottomaior-braga/

21 comentários

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    • Cérbero de Hades on 4 de Janeiro de 2022 at 18:58
    • Responder

    Se com este “Programa” o PS ganhar as eleições…o povo terá o que merece!

    • Dário Tavares on 4 de Janeiro de 2022 at 18:59
    • Responder

    Tem toda a razão no que diz. Só quero acrescentar um detalhe. O Costa e os socialistas falam como se eles nunca estivessem no Governo de Portugal. O Costa está ligado ao poder há quase tanto tempo como o Salazar. Como podemos lembrar – lhes que eles são os principais responsáveis pelo muito que está mal e pelo pouco que está bem? A justiça é a deles, a educação é a deles, o SNS é o deles, a corrupção nos últimos anos é deles… Alguém ainda acredita que é agora que vão mudar alguma coisa?

      • Salaz on 4 de Janeiro de 2022 at 22:51
      • Responder

      Amigo Dário, toma muita atenção:
      Quando falares em Salazar é teu dever bateres de imediato a pala e ficares em sentido durante uma hora. Compreendeste?

        • Dário Manuel Farinha Tavares on 5 de Janeiro de 2022 at 2:50
        • Responder

        Não Salaz. Não compreendi

      • Ferreira on 5 de Janeiro de 2022 at 0:40
      • Responder

      Muito bem. Não diria melhor!!!

    • Zezerosinha on 4 de Janeiro de 2022 at 19:41
    • Responder

    A análise feita está muito interessante, principalmente no que diz respeito ao léxico usado, nuances verbais, … Vejamos em que é que isto vai sendo trocado por miúdos no decorrer da dita campanha ! Aguardo para ver a verborreia que se avizinha.

    • Elma on 4 de Janeiro de 2022 at 19:50
    • Responder

    Eu prefiro o Dr Rui Rio.
    É sempre alguém que concorda com cheque ensino, provas de acesso á profissão , despedimento ou destacamento de profs, corte de salários e ontem aate fiquei a saber que concorda com prisão perpétua como na Alemanha.
    Boa……

      • Dário Tavares on 4 de Janeiro de 2022 at 20:14
      • Responder

      Pelo vistos a Ema viu o debate ontem. Mas não me lembro do Dr. Rio ter defendido o cheque ensino. O que me lembro é que Costa nos desgoverna há anos, o Tiago, não me atrevo do a dizer que foi o ministro da educação, esteve mais tempo no ministério do que alguém em democracia. A Ema acha que é por o Rio defender o cheque educação, a fazer fé no que diz, que é mais culpado do que o Costa na situação dos professores e do ensino?

      • Professor on 4 de Janeiro de 2022 at 20:48
      • Responder

      Phosga-se, um professor a defender o costa!!!!!
      Só para lembrar, defender a criatura, que entre outras maldades, instaurou um regime neo-nazi nas escolas, devia ser CRIME.

      • Menoridade on 4 de Janeiro de 2022 at 22:02
      • Responder

      Já somos 2.
      Os colegas não conseguem vislumbrar o mal menor.

      • Ferreira on 5 de Janeiro de 2022 at 0:47
      • Responder

      Ah… Claro. Prisão perpétua, não…Nunca!!! Nunca para o homem que assassina a mulher.
      Prisão perpétua não é democrática! Portanto, só é aceitável, democraticamente, para a mulher ou a criança violada ou assassinada que é enterrada e nunca mais de lá sai… (a não ser que Jesus Cristo tivesse intenções de voltar à Terra)…!
      Mas, acham que é democrático permitir que ou violadores assassinos premeditados tenham direito á vida quando condenaram à “prisão perpétua” as suas vítimas??? mas, consideram que esses “MONSTROS” são ser humanos? Então, bestas eram as vítimas. Muito bem, sem dúvida…!!!!

      • Joaquim Ferreira on 13 de Janeiro de 2022 at 18:03
      • Responder

      Ah… que bem! O Partido SOCIALISTA , no “reinado” de José Sócrates e Maria de Lurdes Rodrigues (quando António Costa era ministro!) INVENTOU as PROVAS de ACESSo à DOCÊNCIA.
      Agora, essa aberração é atribuída a quem nada fez para que elas existissem. A não ser que, para os socialistas, a culpa do que eles fazem seja como os putos que lançam pedras e partem vidros: é sempre dos outros!
      Estamos como estamos porque somos assim. ESTÚPIDOS. Dirigimos os escudos de proteção contra os que amamos mesmo que nos crcifiquem e lançamos as balas contra os inimigos, mesmo que nada nos tenham feito.
      Ora, se assim é… estamos conversados. Antes de sermos críticos isentos, somos adeptos dos nossos clubes políticos. Por isso, para os socialistas, todo o mal feito pelos socialisats é culpa dos outros… Nesta óptica, já imagino que, para alguns (socialistas, claro) a culpa da morte de um cidadão não é do assassino que disparou a arma: é do médico que não salvou a vida ao que entrou em coma!!

    • Luís Carlos on 4 de Janeiro de 2022 at 20:42
    • Responder

    Deve ler-se: implementar o nepotismo e o tráfico de influências na colocação de professores.

    • Atento on 4 de Janeiro de 2022 at 20:53
    • Responder

    Programa eleitoral do BE (2015: 19): “Para o Bloco, as comunidades escolares devem regressar à gestão democrática, rejeitando a institucionalização da figura do diretor omnipotente”.
    Perguntem à dra Catarina, também 4 ou 5 anos “no” governo, o que se passou. Só mudaram as moscas…

    Programa eleitoral do PCP, para a educação, 2015: “Aprovação de uma nova lei de gestão democrática que respeite os princípios, objectivos e valores consagrados na Constituição e na Lei de Bases do Sistema Educativo;”
    Não esquecer que estes 2 partidos suportaram o governo exatamente desde 2015 até 2021.
    Nada mudou!!!
    Voltem a acreditar também nestes!

    1. As propostas não passaram porque PCP e BE não têm maioria parlamentar. Aliás, foram muito mais as leis que passaram ou não passaram com o apoio do PSD do que com o apoio dos partidos à esquerda do PS.
      A contagem do tempo integral dos professores foi uma delas – derrotada por PS e PSD e mais uns quantos.
      Ai, a falta de informação!
      Ai a fraca memória!

        • Factual on 4 de Janeiro de 2022 at 22:35
        • Responder

        Falso, F.
        As propostas não passaram porque foram apenas encenações. Puras.
        Se o BE e o PCP estivessem realmente interessados, teriam negociado com o PS a sua aprovação. É assim que funciona um acordo de governo e este até foi escrito, Não custava dinheiro ao estado e teriam o irrefutável argumento do restaurar da democracia. Mas querem lá saber estes partidos dos professores ou da democracia. Enganaram-me 2 vezes, 2015 e 2019, nunca mais. Vão perceber no dia 30 quantos mais deixaram de enganar…

        • …e ainda… on 5 de Janeiro de 2022 at 10:02
        • Responder

        Ah! Convém lembrar aos mais distraídos…
        O pai da dra Catarina foi o 1.º propagandista da famigerada maria lurdes rodrigues.
        Lembram-se como foi receber 25 000€ de oferta dessa criatura, numa autêntica sessão de propaganda? Chamavam-lhe professor do ano!

    • Atento on 4 de Janeiro de 2022 at 21:30
    • Responder

    Ah!ah! Não me faça rir.
    O argumento que acabou de construir nem uma falácia configura. Nem aparência de verdade apresenta!!!
    Se as propostas não fossem apenas encenações, estes partidos tê-las-iam negociado e exigido a sua aprovação pelo PS. Afinal eram eles que SUPORTAVAM o governo. Tinham verdadeiro poder. NUNCA o fizeram, porque nunca pretenderam cumpri-las. Aliás, esperar democracia de estalinistas e trotsquistas, seria esperar demais.

    1. Dei-lhe factos.
      O Atento fala-me em encenações.

        • Atento on 5 de Janeiro de 2022 at 23:28
        • Responder

        Suportaram o governo, SEIS ANOS, a troco de NADA!!!!! E eu sou o pai natal!
        Afinal há almoços grátis!!!
        Se se esforçar é capaz de fazer melhor … lembre-se, por ex., dos “servicinhos” do pai da dra Catarina, que alguém aqui recordou…
        Factos são o que que constava do programa de dois partidos que negociaram e ASSINARAM, nessa legislatura, um acordo de governo com o PS. O meu voto, e mais uns quantos, já foram.

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