“Inclusão é pôr as vacas a comer carne”
Eu sou um pobre professor de entendimento fraco. Tão fraco que não consigo entender os “sábios” do ministério da educação quando falam que inclusão é educar todos juntos.
Eu penso que inclusão é educar todos bem, mesmo todos, ainda que sejam burrinhos, alguma coisa hão-de aprender, o que é importante é educar com grande qualidade o que cada um é capaz de aprender. Quando puder ser juntos, melhor, se tiver de ser separados, paciência.
Fui à minha aldeia, lá prós lados de Castelo Branco, e finalmente percebi o que era inclusão, segundo o ministério da educação, que não é o que eu acho, mas eu sou fraco de entendimento. Fui à quinta do Ti Manuel do Canto, onde tem os animais do costume, cabras, borregos, cães, gatos, e até tem uma vaca leiteira, que não há muitas lá para aqueles lados.
E fiquei espantado quando o homem teimava em dar a todos palha seca, misturada com umas ervas também secas que lá chamam feno, gente esquisita, e não é que os cães e os gatos não quiseram comer?!
Eu disse-lhe a rir, mas ele não gostou, que experimentasse dar carne a todos, talvez a vaca se deleitasse a comer um bom bife e as cabras e os borregos talvez ficassem contentes com umas iscas de porco.
O Ti Manuel do Canto é um homem bom e pacífico, mas não gostou da piada e quando se zanga é terrível e deu pontapés nos cães e nos gatos por não quererem comer palha e feno juntos com as cabras e os borregos, nem mesmo com a vaca leiteira. Bichos esquisitos e teimosos.
O Ti Manuel do Canto fez-me lembrar os sábios do ministério. Ele não entende que não pode dar aos herbívoros a mesma comida que dá aos carnívoros, que são gostos diferentes, e que tem de respeitar a natureza e a diferença. A igualdade é importante, tratar todos igualmente bem, mas a diferença também. Tratar como iguais os que são diferentes só pode dar asneira. E eu pra mim entendi que inclusão é alimentar todos bem, dar carne aos cachorrinhos e erva aos cabritos. Dar a todos a mesma coisa não resulta.
É isto que os sábios do ministério não entendem, penso eu, com o meu fraco entendimento. Ensinar os surdos como se ouvissem, ou ensinar os cegos como se vissem e pôr todos a ver o mesmo filme sem legendas, os surdos a reclamar porque não ouvem as falas e os cegos a gritar por que não veem as imagens, a professora a gritar em altos berros para ver se todos entendem, uma confusão, mas pró ministério o importante não é educar bem, é educar juntos.
Não foi isso que disseram os senhores lá em Salamanca nem é o que diz a UNESCO. Todos juntos sempre que possível, mas muitas vezes não é possível. O problema é que os sábios do ministério são como o Ti Manuel do Canto: querem dar carne às vacas.




10 comentários
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O João Afonso Baptista reconhece, e bem, que tem entendimento fraco em termos de educação e inclusão. A analogia entre diferentes espécies de animais e as características da diversidade entre humanos é, se não ingénua, perversa. Isso porque classifica a diferença, entre os que podem e os que não podem usufruir de um bem público, que é a escola. É tão simples quanto o acesso à via pública ou ao transporte público. É impossível a um paraplégico em cadeira de rodas subir os degraus num autocarro de 1970, por isso os autocarros de 2022 possuem rampas.
A escola não é uma instituição inalterável, ela foi inventada numa época com objetivos específicos, e pode ser reinventada conforme o nosso contexto atual.
Por que um cego deve ser privado das relações sociais diversas que a escola propicia? Não há outros meios sensoriais possíveis para aprendermos (todos nós) para além do visual?
Competências Digitales
Trabalho Manuali
Arte e ofícios
Picaretas e pás
Paz Paz Paz
O autor do texto escreve “com o seu fraco entendimento”! Mais valia não publicar!
Talvez possa juntar-se com alguns colegas e “em grupo cooperativo” ou fora dele tecer as suas considerações e disponibilizar-se para as explicações dos pares sobre o que já se evoluiu na escola pública e sobre o que é o “tato pedagógico” na dinamização das atividades letivas. O desenvolvimento dos conceitos faz-se, se o professor for merecedor desse nome, com todos sim, mas garantindo a cada um dos seus alunos as estratégias de “diferenciação pedagógica” que precisam para avançarem.
Aprende-se em socialização com os pares e estou em crer que o senhor ainda não consegue ter o alcance do que isso significa!
O artigo é francamente medíocre e ardiloso. Baseia-se numa falácia de falsa analogia. Trata-se de realidades distintas, logo impassíveis de se compararem entre si. E aquele triste pormenor descritivo dos pontapés nos animais é de um extremo mau gosto, destituído de sensibilidade, do qual nos poderia ter poupado. Enfim…
Estou em absoluto estado de pasmo!!!!!! parece que alguém conseguiu “ferir” a sensibilidade da lululuzinha pedrinha ah ah ah
Meu Deus! Tanta gente com falta de literacia! Ou no mínimo com dificuldades de compreensão e interpretação!
Texto que retrata a realidade das escolas. O segundo parágrafo está excelente.
Realmente há mesmo muitos colegas com muita falta de literacia! O que o colega retrata é a realidade nua e crua das nossas escolas. O importante é educar com grande qualidade, se for juntos melhor ,mas nem sempre é possível, conforme a situação e a realidade de cada escola. Será que isso é tão difícil de entender ou são todos tão excelentes professores que conseguem fazer tudo muito bem feito, e que conseguem lecionar uma turma de 28 alunos e ao mesmo tempo ter na sala um ou dois alunos com deficiência sem nunca os retirar do contexto da sala de aula?
Pensem, senhores excelentes professores! O que o colega escreveu é a mais pura verdade só que em modo figurativo e os excelentes professores não compreenderam!!
Estou Estafada!! Arre!
Eu leciono uma turma com 30 alunos, 1 tem medidas significativas e 6 não significativas. Parece a quinta do ti Manel do canto. Acho que o colega, autor do texto tem alguma razão. Embora tenha cometido a falácia da falsa analogia, algumas semelhanças são relevantes.
Turma com 30 alunos e 7 destes com RTP? Será escusado dizer que deveria ter redução de turma! Portanto, faça-se valer do que diz na lei!
O texto, ou mesmo o autor, até se poderia considerar perverso… mas realista.
Muito bem observado João Batista.
Concordo.