Há uma forma muito simples de transformar uma pessoa num paraquedista “qualificado”. É afixar-lhe um paraquedas às costas e atirá-lo do avião de uma altura considerável. O problema desta metodologia pedagógica é a taxa de sucesso.
Presume-se ser baixa porque objetivamente nunca ninguém testou cientificamente o processo.
Nas escolas portuguesas há muitos adeptos da pedagogia do paraquedista instantâneo.
É necessário que o aluno aprenda algo? Atira-lhe com STEM ou STEAM ou com um “projetinho” interdisciplinar para cima e aquilo há de dar algo.
Muitas vezes não interessa nada se o paraquedista aprendeu de facto a usar o paraquedas ou se simplesmente teve sorte e caiu num fardo de palha. O que interessa é se chegou vivo ao chão. Se chegou vivo … passa de ano. E nem precisa de estar muito vivo …
Há uma crescente preocupação excessiva na educação portuguesa em fazer “projetinhos”, ou uma bricolage qualquer, especialmente quando há a visita de um alto dignatário. Há que demonstrar que a escola consegue construir produtos e que estamos todos no século XXI.
É uma moda. Daquelas cíclicas, que regressa passados uns anos, com mais ou menos força. No final do século passado o projeto era a moda. Está de volta. Por volta de 2003/4 as rubricas…. Estão de volta. O construtivismo da autodescoberta … já veio e já foi. A pedagogia de competências. O saber-ser e o saber-estar … yachh.
Enfim, conforme a última coqueluche pedagógica (que vendo bem as coisas já cá anda há muito tempo) redireciona-se toda uma organização num dado sentido.
Quase que os ouço, em excitação preocupada:
São os projetos. O caminho são os projetos!
Não as rubricas, as rubricas é que é bom.
Não são nada que o Professor Domingues Fernandes já se arrependeu te ter escrito a folha sobre rubricas. Descritores de desempenho subordinados aos domínios… isso é que é ! De preferência com média ponderada calculada com 14 casas decimais (sic).
(Uma das coisas que não passa de moda são as tabelas – continuo na minha: O termo “grelhas” é para churrascarias. Mas vou usá-lo no resto do texto por uma questão de clareza. Se não os podes vencer junta-te a eles.)
Mas quando se diz que os alunos deverão aprender algumas competências básicas (não lhes chamo aprendizagens essenciais para não ofender ninguém) e que se calhar estes tipos de metodologias pedagógicas não serão os mais indicados…. Ui. Cai o Carmo e a trindade.
Quem conhece a minha prática letiva sabe que faço enormes projetos com os meus alunos. Fábricas. STEM on steroids! Para mim é fácil porque eu ensino tecnologia industrial logo….
Mas mesmo eu, um engenheiro, fervoroso defensor da metodologia de projeto (e obviamente de STEM) olho para esta metodologia e digo: não. Há certas coisas em que é simplesmente impraticável aplicar estas ferramentas pedagógicas.
Há certas coisas que devem ser mesmo aprendidas antes de aplicar certas metodologias ou corremos o risco de o “paraquedista” ao saltar do avião estatelar-se contra a hélice.
Quando o objetivo é ensinar alguém paraquedismo, se calhar o instrutor, ainda no solo, começa por explicar como se sai do avião (se calhar com um modelo da porta do avião) , fazem ensaios no solo de posicionamento corporal (qual surfista na areia a praticar), ensinam-se várias regras de segurança, sendo o que fazer quando o paraquedas não abre uma das mais importantes. Quem sabe vão até a um túnel de vento (para as escolas ricas que têm esse tipo de recursos- a ironia da metáfora imitar a vida real!) praticar um pouco e fazer uns exercícios. Provavelmente depois há um salto em tandem com o instrutor para habituação… e talvez, mais tarde, o salto solitário.
Depois de tudo isto bem consolidado…. virão as acrobacias durante o salto.
Talvez com isto tudo melhoremos significativamente a probabilidade de sobrevivência do paraquedista por oposição à estratégia gravítica imediatista.
Com os projetos e com STEM é a mesmíssima coisa.
Não podemos querer que estas duas ferramentas/metodologias venham resolver tudo e mais alguma coisa. Há certas competências anteriores ao salto que devem ser adquiridas. E isso não é demérito nenhum para a metodologia de projeto.
Note-se que o contrário também é verdade: não se pode ensinar um aluno a colaborar numa equipa (sim porque a colaboração também se ensina) obrigando-o a fazer exercícios de matemática sozinho.
Cabe ao professor “esse grande pedagogo” a capacidade de discernir aquilo que faz sentido para aqueles conteúdos e para aquele grupo de alunos.
E não há grelha que consiga suportar essa decisão que está centralmente alicerçada no âmbito das relações humanas.




1 comentário
Ótima análise. Partilhei.