A importância do professor? A importância das crianças -João André Costa

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É Sexta-feira à tarde, já me fiz doente de tanto trabalho e pouco sono e ainda agora estive ao telefone com Hounslow na tentativa de arranjar uma escola que acolha um antigo aluno, agora no 11° e amanhã sem-abrigo, ele e a família por inteiro, vítimas dos cortes nos apoios sociais, os “benefit caps“.
Sem poderem pagar a renda, tiveram de mudar de casa e de vida de um dia para o outro, o miúdo está sinalizado como aluno de risco “derivado” (foi a polícia que utilizou esta palavra, não eu) de ligações a gangues e nenhuma escola e nenhum professor quer um aluno “derivado”.
Sem resposta, ainda estou à espera e ao telefone.
E ai de quem me venha dizer em como “esta malta estava a pedi-las” ou “esta malta só vive à custa dos outros“ em comentários tão redutores como mesquinhos, apenas sedentos do mal do próximo porque sim, porque se estivermos todos mal então estamos todos bem.
É o que acontece quando não se conhece o aluno, o seu nome e passado, a vida e onde a vida leva tantos alunos, tantos passados, tantas crianças.
A ignorância, irmã das ditaduras militares, é o nosso eterno cavalo de batalha e enquanto a ignorância reinar, um motivo para votar: por isso a importância do professor.
Porque se aqui estamos, é para indagar, perguntar e questionar e eternamente viver nesta idade dos porquês, porque sim, porque me apetece, porque tem de ser e todos os ídolos trazem os pés a chumbar de barro.
Não é por nossa causa. Não somos nós. Nós não somos importantes. Importantes são as crianças. Se aqui estamos, a elas o devemos. Não o esqueçamos, porque as nossas acções, o nosso dia-a-dia, nem por sombras deve ser pensado no sentido da auto perpetuação, porque perpétuos deixámos de o ser no dia em que decidimos crescer.
As crianças sim, são perpétuas, e correm para nós em vagas que se atropelam, umas por cima das outras, umas ao invés das outras, à procura de um “je ne sais quoi” de amor, um pouco de atenção, um minuto de saliva e a hora de um abraço.
E não tolero a cobardia de professores e escolas eternamente dependentes de resultados e ao mesmo tempo incapazes de perguntar porquê ou apontar o dedo às instâncias superiores. Como se ao professor coubesse obedecer. Como se o professor já não pudesse ajudar, acolher, cuidar. Egoísmo? Medo.
E quem somos nós entretanto se estas palavras daqui a nada já contam cem anos e de nós pouco resta para além da memória de uma aliança de ouro e uma data, sinal em como amámos e fomos amados?
Histórias da vida, dão para rir e chorar, aprender e esquecer, contar e cantar, dão mas não recebem, são fontes, jorram, sempre para jusante até se perderem num qualquer mar em tudo maior que o seu.
Escrever? Escreve-se por amor à palavra, não porque por tal se tenha proveito, mas para que outros o tenham no nosso lugar. Não se escreve, dá-se, a troco de nada.
Escrevemos para ensinar, e para repetir a única mensagem susceptível de ser repetida: façam o favor de ser felizes, porque nós, os fenecidos, não felizes, já nem sequer somos, quanto mais tolos.
Por tal, deixem a cobardia em casa, de pouco vos servirá uma vez na capela dos ossos, e ensinem pelo simples prazer de ensinar, porque são as palavras, e não os corpos, que ecoam nos séculos: “Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos”.
Nunca lá entrei, na dita capela, basta-me a mensagem e a insignificância à qual nos reduz. Penitenciem-se portanto, mas desta feita não pelo perdão divino (que não existe, nem nunca existiu) mas pela certeza de nunca mais sobreporem a vossa vontade à vontade dos outros, das crianças.

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