Ainda não percebi bem o que querem de mim…
Nasci porque a minha mamã queria ser Mãe e o meu papá queria ser Pai.
Mas não pensaram que eu queria ser filho deles a tempo inteiro.
E eles, afinal, não tinham tempo para mim.
Mas fizeram-me nascer na mesma.
Agora sou bebé, passo 8 ou 9 horas por dia na creche, até que a minha mãe (quase sempre) ou o meu pai, me venham buscar.
Chego a casa cansado, como, os meus pais cansados, olham para mim, dizem blá-blá-blá, eu rio-me, eles também e vou para cama.
Ando assim 5 ou 6 anos.
Depois entro na escola. Entro logo de manhã, às vezes debaixo de chuva, vento e muito frio e estou dentro da escola, 6 ou 7 horas, até que a minha mãe (quase sempre) me venha buscar.
Em casa, faço os TPC’s, com a ajuda possível dos meus pais, que estão cansados, frustrados, revoltados com o trabalho, que mal dá para vivermos com dignidade, até que chega a hora do jantar, feito pela minha mãe.
Depois olham para mim, com os olhos cansados, mas ainda com energia para dizerem blá-blá-blá. Eu ainda me rio, eles também, lavo os dentes e vou para a cama. Ando assim mais 4 anos.
Entro na escola secundária. Tenho muitos professores e muitas disciplinas. Fico lá 6 ou 7 horas, até tocar para a saída. Nos primeiros tempos ainda espero pelo meu pai (é ele que tem o carro) e vou para casa. Mas, alguns 3 ou 4 anos depois, já vou sozinho para casa.
Apanho os transportes públicos, cheios de adultos que até me pisam para entrarem primeiro que eu, mostro o “passe” e chego a casa. Cansado! Beijo o meu pai, também cansado, beijo a minha mãe na cozinha, também cansada, e tento fazer os TPC’s. Por vezes adormeço. Muitas vezes não consigo fazê-los.
E então já sei que os professores vão escrever um “recado” ao meu pai. E depois vou ser castigado. Mesmo que esteja cansado! No dia seguinte, o professor grita comigo e pergunta se os meus pais não têm tempo para me dar educação. Eu não respondo, mas apetece-me!
Alguns dos meus colegas, respondem!
E os professores dizem que não são educadores.
Que os educadores devem ser os pais.
Só que os professores estão comigo 7 horas por dia, se não faltarem às aulas. Os meus pais estão comigo, talvez, 2 ou 3 horas por dia, o resto é para comer e dormir. Fico a pensar, quem é que me pode educar?
Acho que os adultos estão loucos!
Vou começar a fazer birra! Talvez me olhem de outra maneira…Acho que vou começar a fumar nas traseiras da escola.
Está lá a malta da turma. Eles até não se importam de “partilhar aqueles cigarros que eles próprios fazem”. Eles dizem que aquilo é um paraíso. Talvez experimente.
Os professores não vão dizer nada porque não são meus educadores. Os meus pais não vão dizer nada porque na escola ninguém tem obrigação de me vigiar e em casa os meus pais estão cansados e só estão comigo (acordados) 2 ou 3 horas.
Os adultos dizem que eu sou mal-educado mas não é verdade, eu não tenho educação nenhuma mesmo.
Porquê?
Porque os adultos não têm tempo!




5 comentários
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Nem preciso meditar sobre o que li, porque é um assunto que me inquieta e preocupa quase diariamente. Digo mesmo, pobres crianças que, sem culpa e alguns pais também, estão em família quase de “raspão”. Não há tempo para mimar, não há tempo para ajudar, não há tempo para educar… É só voltarmos atrás no tempo e lembrar que, falando do comércio, todos tinham horário de entrada e também de saída. Diga-se um horário absolutamente normal. Chegaram as grandes superfícies comerciais e vamos, cada vez mais, assistindo ao horário mais dilatado, é no Natal, é na Páscoa, enfim é como dá jeito aos empresários do ramo. Só que quem lá trabalha tem família a quem precisa dar apoio em todos os sentidos. Todos nós ajudamos a que isto aconteça… Outros estabelecimentos vão por arrasto parecendo que todo o trabalho seria para “ontem”… Vamos pagar caro, como de resto já se vê, este tipo de aceleração sem respeito pela pessoa e pela sua família.
De qualquer forma há um certo equilíbrio:
na juventude passamos 18 anos presos em escolas;
na velhice passamos os últimos 18 anos presos em lares.
Se calhar, é por causa disso e de muitas outras coisas, que vão aparecendo os COVID.
Há tb. um padre em Lamego, um tal padre Lara- dizem que é exorcista-, que diz que isto é um aperitivo para o que virá.
Não lhe acho credibilidade, qd.
chama “aperitivo”, ao COVID 19.
Mas acredito no papa Francisco, muito criticado por certas correntes , mesmo de clérigos, qd. diz que nada acontece por acaso. E aí, esta carta estará de acordo, com o papa Francisco.
Manda o papa Francisco distribuir a propriedade da Igreja pelos pobres, só em imobiliário devia dar para matar a fome a uns milhões, e que aproveite para pôr o Banco do Vaticano ao serviço dos pobres, em vez dos mafiosos.
Qd falas dos vaticanistas, estou de acordo contigo.Mas este papa vai fazendo o que pode. Pelo menos, não têm mostrado ser amigo da opulência , nem da pedofilia , por exemplo.