Um Trump qualquer apreciaria este ministério – Santana Castilho

Um Trump qualquer apreciaria este ministério

1. Logo que o Ministério da Educação decidiu manter a “normalidade” dos exames nacionais dos 11º e 12º anos, num contexto radicalmente anormal, e anunciou as alterações que pretendia introduzir-lhes, afirmei que ficava definitivamente anulada a sua validade, como instrumento de relativização das classificações das escolas e garante do cumprimento universal de um curriculum nacional.
Não convivo mal com pontos de vista diferentes dos meus e estou sempre disponível para ser confrontado com eles, antagónicos que sejam. Mas não posso aceitar que a credibilidade objectiva que deve presidir aos exames nacionais seja reduzida a subjectividades de interesses conjunturais. Exames realizados, dois exemplos, dois entre outros possíveis, a que se junta um extracto do Expresso, mostram a degenerescência e desfaçatez a que chegámos:

– Como bem escreveu Orlando Farinha (Observador de 10/7/2020) e por mais insólito que pareça, um aluno pôde ter 15,5 valores, sem escrever uma única palavra no seu exame de Filosofia. Será possível entendermos a Filosofia dissociada da capacidade argumentativa? É aceitável que um exame de Filosofia possa ser cotado com 15,5 valores (e mesmo mais) sem que o examinado seja solicitado a discorrer sobre um problema, por pouco complexo que seja, analisando-o e teorizando sobre ele? Não sendo a Filosofia servida por metodologias empíricas ou formais, que permitam prever a obtenção de resultados precisos, ocupando-se antes de problemas fundacionais do pensamento humano, poderemos medir o conhecimento que os alunos retiraram da frequência da disciplina por um generoso conjunto de perguntas de escolha múltipla?

– O segundo exemplo do aviltamento que é feito ao ensino sério está na análise eloquente e fundamentada que Elisa Costa Pinto (Público de 11/7/2020) fez sobre o exame de Português do 12º ano, cuja leitura recomendo reiteradamente. É compreensível a vergonha que a autora expressa por ver a metodologia dos “testes à americana” ser aplicada à análise de textos literários e por constatar a indigência das questões formuladas aos alunos sobre alguns dos nossos autores clássicos.

– “Não sou leitora, nunca fui muito de ler livros, mas sempre adorei tê-los”, disse candidamente ao Expresso a professora Isa, que já foi defendida no Parlamento de “críticas cruéis e mesquinhas”, pelo primeiro-ministro, a mesma que terá pronunciado 84 Oks na aula de Português, que abriu essa maravilhosa demonstração pública das liberalidades pedagógicas dos professores do século XXI, que cantam rap, dançam zumba, prestam-se a demonstrar as suas criativas metodologias nos programas de Cristina Ferreira e de Manuel Luís Goucha e foram estrelas no “5 Para a Meia-Noite” e no “O Preço Certo”.

Um Trump qualquer apreciaria muito este Ministério da Educação, pela regressão mental que promove, transformando aulas em entretenimento e exames em charadas de cruzinhas. Aconselhar injecções de lixívia para curar a covid-19, ou usá-la para branquear os resultados da “flexibilidade curricular” e das ”aprendizagens significativas”, equivalem-se no disparate.

2. Na génese do estado a que a Educação chegou, esteve um consistório de 12 sábios, que apontou o caminho para o século XXI, qual estrela de Belém. Na génese do que poderá ser o Plano de Recuperação Económica e Social de Portugal 2020-2030 esteve só um, notoriamente sabedor. O problema não é a qualidade do documento, que a tem. O problema é programar-se o futuro de um país pela cabeça de um só cidadão, sem ouvir as instituições políticas, profissionais, académicas e sociais. Como o próprio documento reconhece, diagnósticos há muitos, feitos por vários homens igualmente inteligentes (recordo, por todos, o relatório de Michael Porter). O problema é a escassez de políticos capazes de definir caminhos e de mobilizar a sociedade para agir e os executar, talvez porque, como o documento volta a reconhecer, citando Kant, “o mundo é governado pela paixão, pela irracionalidade e por males periódicos”.

Em todo o caso, que alguns dos milhões esperados de Bruxelas sejam “orientados para o rejuvenescimento, formação e atualização do corpo docente, para o apoio aos estudantes de famílias com maiores dificuldades económicas, bem como para a requalificação e modernização da rede de escolas”, como o plano propõe.

In “Público” de 22.7.20

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6 comentários

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    • Matilde on 22 de Julho de 2020 at 10:33
    • Responder

    Santana Castilho a “pôr o dedo em muitas feridas”, como habitualmente…

    Perguntas sobre algumas “feridas”:

    – Ao que tudo indica (e isso era mais do que previsível), este ano, os resultados dos exames serão “fantasticamente fantásticos”… Esses resultados correspondem a aprendizagens efectivas?
    Resposta: Não.

    – Assim sendo, e uma vez que não discriminarão grande coisa, como antecipadamente saberiam as entidades que os promoveram, porque se realizaram?
    resposta: Porque sim…

    – A flexibilidade curricular e as aprendizagens significativas, o que quer que isso seja, servem efectivamente para quê? Que efeitos/consequências visíveis têm ao nível da prática pedagógica em contexto de sala de aula?
    Resposta: Para nada.
    Resposta: Não se vislumbram efeitos práticos.

    – Onde irão ser gastos os milhões de Bruxelas?
    Resposta: Pois… Não sabemos ao certo, mas, e como habitualmente, alguns “eleitos” terão, por certo, muito a ganhar com os mesmos…
    Conhecer bem os meandros da atribuição de subsídios europeus e ter uns amigos bem colocados dá sempre muito jeito a alguns (poucos)… Os restantes (muitos), ficarão a “ver navios”… E andamos nós a discutir se as máscaras são ou não custeadas pelo ME e se temos ou não meios tecnológicos para trabalhar a distância… Isso são apenas vinténs ou “peanuts”, conforme o gosto… (Vá, também podem ser “peaners”, de acordo com algumas terminologias… 🙂 )…

    Sem ar condicionado na maior parte das escolas é muito mais difícil pensar e reflectir sobre todas as questões que afectam a Educação, talvez se deva a isso a inércia e a apatia reinantes…

    Sim, eu sei, estarão aqui muitas “blasfémias”, mas não delito de opinião (por enquanto, espero eu…). E também alguma ironia e sarcasmo…

      • Pirilau on 22 de Julho de 2020 at 11:28
      • Responder

      Matilde, como se pode constatar, para se ter ideias, para se pensar, não é necessário dominar qualquer tecnologia… E para expressar ideias e pensamentos ainda não foi inventada nenhuma tecnologia melhor do que o alfabeto, essa coisa milenar que os fenícios nos deixaram como herança.
      É sempre um prazer ver alguém capaz de pensar e de usar com mestria esta antiga tecnologia.

    • Matilde on 22 de Julho de 2020 at 11:55
    • Responder

    Agradeço as suas palavras. 🙂

    • Alecrom on 22 de Julho de 2020 at 12:19
    • Responder

    Volto a colocar outras ideias da nossa “colega de Português” referida no artigo (transcrições retiradas da entrevista publicada no Expresso):

    “Eu não dou aulas, ajudo os miúdos a quererem aprender, a quererem saber mais. É um paradigma de aprendizagem e não de ensino”.

    “[escolheria] O professor António Sampaio da Nóvoa. É inspirador. Gosto da forma como fala sobre a escola, a educação, a aprendizagem. É um poço de conhecimento.”

    • Luluzinha on 22 de Julho de 2020 at 12:22
    • Responder

    Não poderei, uma vez mais, deixar de registar o meu profundo apreço por uma mente tão lúcida como a deste senhor.

    • N.Ribeiro on 22 de Julho de 2020 at 16:08
    • Responder

    Apesar de não serem a maioria, esse género de “professores”, estão presentes em todas as escolas e muitas vezes em órgãos de gestão.

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