Um metro, se possível, por Jorge Pinho

 

Poucas vezes terei dado gargalhada tão sonora. Também sei que os tempos de pandemia não aconselham manifestações de júbilo, até porque estas não se tornam visíveis por trás das máscaras, quando as mesmas não são desprezadas, claro, ao contrário do que vai acontecendo, para estupefação minha, em tantas aparições televisivas de cara lavada e despida, um pouco ao arrepio dos conselhos que recebemos.

Esquecendo que o riso é um ato eminentemente social, rio a bandeiras despregadas, no isolamento que me envolve, receando mesmo perturbar vizinhos, sem saber que bandeira patriótica içar no meu tumulto interior. Conforto-me com a antiga afirmação aristotélica que assume que o homem é o único animal que ri. Talvez assim respondesse a um vizinho mais agreste. Pergunto-me, entretanto, como seriam os risos de Bergson ou Foucault, que sobre o riso se terão debruçado, no meu anseio íntimo de saber se eles poderiam ser medidos a metro. A boca aberta de um quão maior do que a boca distendida do outro? Distraio o potencial leitor com estas linhas enquanto o meu cérebro se atrasa a registar o que os olhos leem: um metro, se possível. Um metro, se possível, entre alunos e entre alunos e professores. Olho para o ecrã do computador e imagino a distância de um metro. Os meus pais, ou Deus, ou os meus pais e Deus por atacado, fizeram-me grandinho, de braços compridos, e um metro dista do botão superior da minha camisa à ponta do meu dedo mais longo, com o braço esticado para o lado.

Descubro-me a suplicar a um vírus que eventualmente me visite na sala de aula: por favor, não passe para o metro de cá! “Mantenha a distância”, já assim diziam as raparigas mais altivas aos rapazes mais afoitos, nos meus tempos de juventude, que até eram limpos de vírus e não deveriam pressupor distâncias. Não sei o que dirá a diretora da DGS ao ministro que tutela a educação, não sei o que acharão eles desta questãozinha irrelevante que se mede a metros, aqui reduzidos à sua singularidade. Nunca uma palavra foi tão agudamente polissémica, penso-o com enlevo. Será, de qualquer modo, uma interrogação em tom tão inexpressivo, que um dirá que sim ao metro e o outro imprimir-lhe-á uma vírgula, se possível.

Um metro já foram dois metros, depois haveria de ser metro e meio, agora um metro será, na certeza de que x centímetros entre alunos nunca seria número fácil de dizer. Imaginemos: Tomás, respeite os 80 centímetros! Laurinha, atenção ao cotovelo, que está cinco centímetros dentro do espaço de 80 centímetros do Marco! Brinco de modo incipiente, lamentando não ter o dom do Ricardo Araújo Pereira e sabendo que a gravidade do assunto é tanta que deveria fazer um “delete” imediato a este texto. Mas também sei que o humor sempre foi bandeira e arma em tempos de desespero. E o modo como se olha para as escolas e para os seus figurantes (alunos, docentes, assistentes operacionais e técnicos, etc.) faz crescer em mim a melancolia de tempos em que havia ponderação e algum respeito – não direi admiração – pelo espaço escolar.

Já encarei a morte de forma mais assustada do que nos tempos que correm. A idade vai trazendo outro tipo de sabedoria, ou, talvez dito de jeito mais certeiro, uma quietude apaziguada. Afinal, já superei largamente a expectativa de vida de há cem anos. Li algures que em 1920 essa expectativa se ficava pelos 35,6 anos e não devo ser muito ambicioso, até por respeito aos meus antepassados e a uma década tão curiosa. Mesmo assim, não gostaria que alguém recordasse, um dia mais tarde, que a incúria de uns promovera a derradeira viagem de outros, jovens ou menos jovens, ou até deste que aqui escreve.

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9 comentários

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    • Alecrom on 15 de Julho de 2020 at 11:05
    • Responder

    Imagine esta situação num contexto de governação de direita, lol.

    A Geringonça amansa, mas amansa mesmo.

    De mansos a tansos é um passo…

    • Alexandra Almeida on 15 de Julho de 2020 at 11:13
    • Responder

    Era preciso que TODOS os Diretores de escolas se unissem e enviassem um manifesto ao ME dizendo que ou o ME autoriza a redução do número de alunos por turma consoante a capacidade das salas ou põem o cargo à disposição pela impossibilidade de manter “os alunos todos na mesma sala” como afirmou o ministro.
    Talvez desse efeito…

    Outra coisa que poderia ser feita, eram os sindicatos, sem partidarismos políticos ou distinção entre sócios e não sócios, mas em representação de TODOS os professores, enviassem um documento ao ME a prevenir que por cada docente infetado com COVID, levam o ME ao Tribunal por abrir as escolas sem estar assegurado o distanciamento mínimo de 1 metro (que até deviam ser 2m ).
    E esperemos que os EE processem as Escolas e o Ministério por cada aluno que vier a ser infetado, o qual decerto transmitirá o vírus aos familiares podendo levar ao falecimento de pessoas do seu agregado familiar.

    Era preciso… Será que alguém (com força) faz alguma coisa? Ou ficamos todos por conta própria e pelos queixumes e lamentos à posteriori???
    Já estou a imaginar o Marcelo e o Costa a mandarem os pêsames…

      • Matilde on 15 de Julho de 2020 at 12:09
      • Responder

      Tem toda a razão. Mas…

      Estamos em Portugal, aquele país cujos cidadãos só se costumam mobilizar quando a sua própria “pele começa a arder”… Até lá, e enquanto for a dos outros, “tá-se bem”e não há motivos para alarme… Até dá um certo prazer (perverso) ver “arder”…

      Prevenir desgraças? Isso não é para os Portugueses…

      Os Portugueses preferem mobilizar-se DEPOIS da desgraça ter acontecido:
      Aí somos todos muito bonzinhos e sensíveis face ao que aconteceu a outros.. Angariamos fundos, organizamos cerimoniais, prestamos homenagens, enfim, fazemos tudo para sossegar e aliviar as consciências “pesadas”…

      O silêncio (mórbido) perdurará até acontecerem as “desgraças”…

      A seguir a essas virão, então, todos para a praça pública gritar e apregoar que, tal como Nostradamus, sabiam muito bem que era isso que iria acontecer… Mas até lá, recomenda-se calma e descontracção, de forma a não fomentar o alarme social, nem as críticas injustas e infundadas… Os “proféticos” Portugueses costumam ser assim… Conseguem “adivinhar” sempre depois de saberem o resultado…

      (Alerta para a existência de sarcasmo e de ironia neste comentário…).

        • Carapins on 15 de Julho de 2020 at 13:45
        • Responder

        Pois eu escreveria o mesmo, mas sem qualquer sarcasmo.

      • Anuxa on 15 de Julho de 2020 at 14:39
      • Responder

      Diretores a colocarem o lugar à disposição??? 🙂 No meu Agrupamento está grudado que nem uma lapa, nem que estivesse tudo para morrer ele saía…

        • Matilde on 15 de Julho de 2020 at 15:18
        • Responder

        No seu e, quase de certeza, em praticamente todos os outros… 🙂

        E depois o que fariam el@s sem aquele cargo? Ter vida própria dá muito mais trabalho… 🙂

        • Atento on 15 de Julho de 2020 at 15:43
        • Responder

        Ocupar o cargo de diretor é porreiro, não se aturam alunos e ainda se recebe um suplemento remuneratório (digo, suplemento de incompetencia).

        Acham isto mau?????

        Muito pior é ter que dar aulas e ser um pau mandado…..


  1. “…se unissem e enviassem um manifesto ao ME dizendo que ou o ME autoriza a redução do número de alunos por turma consoante a capacidade das salas ou põem o cargo à disposição pela impossibilidade de manter “os alunos todos na mesma sala” .
    Não é se…têm que se unir e enviar…
    Aliás, sem professores uma escola não funciona…
    Ou acham que os professores se vão expor de forma a poderem ser contagiados.
    Têm que ler mais informação sobre este vírus. Os cientistas dizem que uma grande percentagem de pessoas infetadas, ficam com graves problemas de coração.
    Se não reduzirem o número de alunos por turma, convido o sr ministro a contactar todos os dias várias turmas em diferentes escolas, ou seja, estar presente numa sala de aula.

    • Maria on 15 de Julho de 2020 at 23:57
    • Responder

    Resistência passiva. O professor não entra na sala de aula, passa os 90 mn a olhar para os alunos sentados. Pode registar o sumário por Tlm.

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