Todos para a escola ao mesmo tempo? Não
A DGS já disse que, a partir de setembro, os estudantes devem estar dentro das salas a um metro de distância uns dos outros. No entanto, a esta medida acrescentou uma fatal oração condicional: “se possível”. Ora, é por entre os pormenores que o diabo faz caminho. Os diretores dos estabelecimentos de ensino lembraram logo que tal advertência será impossível de cumprir pelo tamanho das salas e pela incapacidade de desdobramento das turmas, assumida pelo ministro da Educação em entrevista ao “Expresso” a 4 de julho.
Com estes constrangimentos, só há uma opção: reduzir a carga horária presencial, criando para esse regime dois turnos alternados. O resto teria de ser feito por via digital, pelo menos até ao Carnaval. A persistir-se na frase de ordem “todos para a escola em setembro”, é previsível um aumento substancial de casos em finais de outubro, o mais tardar em novembro, que poderá fechar escolas, entupir hospitais e voltar a parar o país.
Este será o ano escolar mais difícil que alguma vez encontramos pela frente. Claro que se percebe a vontade política de pôr o país a funcionar com a normalidade possível, mas todos já perceberam que o regresso ao passado se torna hoje impossível de replicar. Por isso, não se entende a flexibilidade da DGS nas normas que enunciou para as escolas, nem o silêncio dos especialistas nesta matéria. O funcionamento de um ano letivo implica toda a sociedade, porque os estudantes não estarão apenas nas escolas. Vão circular pelo espaço público e pelos transportes coletivos. E vão ainda contactar de forma próxima com diferentes gerações, nomeadamente com os avós.
Para além de turnos presenciais alternados, seria preciso criar horários desfasados para os recreios e cantinas bem como fixar arranques desencontrados das manhãs e das tardes. Estas serão medidas básicas para assegurar a saúde pública e para evitar um novo confinamento que, como António Costa lembrou, o país dificilmente aguentará.
In JN




3 comentários
Para fazer diferente de “todos na escola como se nada fosse” era preciso que o ME planificasse e já percebemos que não o faz, ou não sabe fazer. A grande chave é a autonomia da escola que, trocado por miúdos, significa “vejam lá como se conseguem arranjar sem contarem com a nossa orientação”. Como consequência, temos escolas separadas de alguns metros entre si com procedimentos diametralmente opostos. Nunca houve tamanha desigualdade no ensino em Portugal. Fui das que achou que o ensino à distância foi um flop e que o ensino presencial é uma urgência, mas custa-me ver os moldes em que vamos todos voltar, sem a tranquilidade necessária e correndo o risco de confinar de novo sem qualquer pré-preparação, como em março. Nas obras, os operários têm de manter 2 metros de distanciamento e não podem partilhar ferramentas, na escola os alunos podem partilhar secretária e materiais. Estamos entregues a incompetentes e a regras incoerentes. Tem tudo para correr mal.
Cá vem esta Floribella falar “imenso” sobre educação, quando, provavelmente, nunca deve ter visto uma turma de escolaridade obrigatória à sua frente.
“…reduzir a carga horária presencial, criando para esse regime dois turnos alternados. O resto teria de ser feito por via digital…”
Essa divisão em dois turnos alternados acrescidos do trabalho por via digital não significará o dobro das horas de trabalho de um professor?