Devemos ou não lecionar Cidadania e Desenvolvimento nas escolas?

 

A Cidadania e Desenvolvimento foi introduzida formalmente, por este governo, no currículo, mas a consensualidade está longe de ser atingida. A sociedade divide-se quanto à forma e ao modo como está a ser lecionada e até os conteúdos depois de escrutinados, são razão de debate.

O caso que veio a lume recentemente de um encarregado de educação que, durante dois anos, não permitiu que os seus educandos frequentassem as aulas de Cidadania e Desenvolvimento, lançou novamente a polémica que envolve esta área desde a sua criação.

Há quem concorde e quem não concorde com a criação desta área. Há quem discorde em parte e há quem sempre tenha introduzido esta área nas suas aulas, aliás, há séculos que tal se faz sempre que é necessário. A Cidadania e desenvolvimento não é uma coisa nova, tem a ver com a formação do individuo como cidadão e isso sempre  teve lugar na escola. o Professor sempre teve um papel preponderante na criação e crescimento das crianças enquanto cidadão logo, sempre que necessário ou oportunamente, ele debatia com os seus alunos questões de cidadania. Esse sempre foi um papel que os professores tiveram, mas de forma informal.

A introdução no currículo de Cidadania e Desenvolvimento veio trazer a formalidade e com isso vieram, também a obrigatoriedade dos temas a abordar. No meu ponto de vista, é aí que se levanta o problema. A formação foi praticamente inexistente e o à vontade que cada professor tem para levar a debate e moderar certos temas consoante as idades do seu público são um fator de resistência. A impreparação para abordar temas que geralmente eram da responsabilidade dos encarregados de educação, cada um seguindo as suas crenças, faz com que os professores não se sintam, muitas vezes, preparados para o fazer da melhor forma enquanto pedagogos. A sociedade sobrepõe-se e os muitos mitos que ecoam pelas ruas e casas tornam-se um entrave dentro da sala de aula.

Tudo isto leva a que as opiniões divirjam  e se fale de tentativa de doutrinação, mas a doutrinação ou não cabe ao interlocutor dos temas. Só se poderá falar em doutrinação se não se usar da liberdade e isenção de cada um. O papel do professor pode passar apenas pelo lançamento do tema a discussão e pela sua moderação. Apenas haverá doutrinação se o moderador assim o quiser e ocupar esse papel.

Se estes temas forem abordados de uma forma responsável numa sociedade que, tende a perder valores e a desresponsabilizar os seus membros da sua transmissão, quem sabe, daqui a uns anos não teremos perante nós cidadãos mais livres, cultos e responsáveis pelos seus atos.

Os resultados do Inquérito realizado este fim de semana aos leitores do blog deixam antever uma certa resistência à forma como a introdução desta área tem acontecido nas nossas escolas, mas os resultados encontram-se muito perto para podermos dizer que o debate está fechado e o caminho está percorrido. A vontade de tornar a área opcional vem traduzida neste resultado, mas poderia ser mais expressiva.

Este será um caminho a percorrer incessantemente enquanto a sociedade humana existir e a doutrinação não persistir.

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17 comentários

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  1. Não tiveram os resultados que queriam, com o Não a ganhar, não é? Paciência…

    Muito mais prático, útil e duradouro este Espaço-Casa como disciplina do que andarem com cartolinas para aqui e para ali e não aprenderem a ponta de um corno.

    https://semanariov.pt/2019/10/16/vila-verde-duas-escolas-vao-ensinar-a-cozinhar-passar-a-ferro-e-aspirar-o-po-num-t0/

    E quem não quisesse aqui os filhos, óptimo. Sempre se daria mais atenção aos que frequentavam.

      • elma on 27 de Julho de 2020 at 14:36
      • Responder

      ó ANA se não olhar para o seu horario, acha esta disciplina util ?

      nao achava melhor aumentar o credito horario de outra disciplina?

      ó ANA se é prof, diga a verdade

        • Atento on 27 de Julho de 2020 at 16:31
        • Responder

        ,
        Este (des)governo Naxional XUXALISTA inventou esta área discipolinar para doutrinar o povo….mas a doutrinação vai correr mal….diria que vai correr muito mal….em março de 2021 em pleno pico da crise económica provocada pela pandemia o “costismo” (sim!….esse mesmo….o TORRESMO) e o seu mandatário para a “educação” o Tiago CAGÃO Rodrigues (Sim!….esse mesmo!….que se diz xientista da treta, mas o que fez foi filiar-se no partido do Xuxalismo para agora ir mamar num Tacho chamado governo) querem doutrinar e inventaram esta área absurda chamada de Xidadania e (sub)Desenvolvimento….

        Tenham VERGONHA!…..

        CHEGA!…..
        ,

      1. ó ELMA, já disse.
        E nao sou prof, sou professora.

    • Alecrom on 27 de Julho de 2020 at 14:36
    • Responder

    Sou a favor
    da obrigatoriedade
    da Disciplina
    de Cidadania e Desenvolvimento,
    desde que lecionada por pares pedagógicos (docente de Cidadania e docente de Desenvolvimento)
    devidamente certificados
    pela OCDE e pelo Secretário de Estado João Costa.
    Já viram o que era
    esta disciplina ser lecionada por pessoas…
    como eu?
    Têm de ser educadores.
    Isto não é ensino.
    Estamos a falar de educação.

      • elma on 27 de Julho de 2020 at 14:37
      • Responder

      Alecrom tens noção que ninguém ja te liga?
      vou des ligar

        • Alecrom on 27 de Julho de 2020 at 14:45
        • Responder

        Elma,
        como conseguiste
        fazer-te
        sem teres tido Desenvolvimento e Cidadania na escola?
        Foi no partido?

    • Alecrom on 27 de Julho de 2020 at 14:42
    • Responder

    Tens razão, Elma,
    hoje ainda ninguém me ligou.

    • Tiago on 27 de Julho de 2020 at 16:12
    • Responder

    Os temas de Cidadania devem manter-se e a formação pessoal a cargo da família.
    Perfilho a ideia dos temas de Cidadania serem abordados nas disciplinas que mais se relacionem com os mesmos.
    A extinção da disciplina permitia a diminuição da carga horária dos alunos.
    Pode-se colocar a possibilidade da substituição do currículo por disciplinas por um currículo temático e interdisciplinar, o que implicaria codocência, e outros ajustes que, penso eu, o projeto de flexibilidade e autonomia não contempla.

      • Paulo Pereira on 28 de Julho de 2020 at 19:21
      • Responder

      A disciplina de Cidadania e Desenvolvimento é, no contexto do programa, uma disciplina de doutrinação política de viés bem definido, ou seja, tendencialmente conotada com o Marxismo Cultural.

      Porém, no oposto, concordo, em teoria, que os valores para a Cidadania devam ser praticados num contexto transdisciplinar, sem qualquer vínculo a programas ideológicos mas de princípios humanistas.
      A sensibilização para as atitudes de cidadania, activa e participativa, não se trabalha facilmente em família, mas nas instituições onde há confronto de ideias e exposição à diversidade de pensamento e de pontos de vista (de pluralidade).
      Ora o melhor meio para iniciar as crianças e adolescentes no processo de interacção social e consciencialização cívica é na Escola.

      Não me parece que seja em contexto familiar que isto aconteça facilmente, ou que seja minimamente universal. Bem pelo contrário.
      Porém, cabe às famílias o papel de Educar, de dar educação no trato, e de sensibilizar para o respeito mútuo entre membros da família, ou seja, à escala familiar. Julgo que ainda é consensual dizer que a Família é a célula-base de todas as sociedades.

      Se se parte do pressuposto que a família é incapaz de desempenhar esse papel, e que deve ser a instituição Escola a substituir a a Família, estaremos a fazer um remendo a toda a estrutura social, e não a resolver o problema de fundo. A não ser que a intenção seja essa mesmo, de forma perversa, promovendo um novo paradigma de sociedade em que o trabalho é mais importante que a Família (não só fazendo cedências ao ultraliberalismo como ao ideário marxista de organização familiar).

      Por outro lado, e sem cair em concepções simplistas e algo retrógradas, análogas ao antigo prgrama curricular de Economia Doméstica, muito comum um pouco por todos os países ocidentais ao longo da primeira metade do séc. XX, há temas porventura importantes para abordar numa disciplina deste teor, como todos aqueles que é sabido que não se aprendem na Escola, mas que também não se aprendem em lado nenhum, a não ser pela dolorosa experiência enquanto cidadão.

      E dou alguns exemplos de propostas:
      – Consciencialização para os Direitos Cívicos, exemplos práticos e o modo como os mesmos devem ser acautelados e defendidos;
      – Conhecer as instituições públicas e o modo como funcionam (tribunais, sistema de governo, constituição da República, Parlamento, ONG’s, IPSS’s, voluntariado, serviços de bombeiros, serviços de polícia, Forças armadas, etc.);
      – Desenvolver a literacia para a cidadania, dando a conhecer as estruturas de apoio à sociedade e o modo como aceder a elas em caso de necessidade (como fazer uma queixa na polícia, conhecer instituições que defendem, concretamente, direitos pessoais a diversos níveis; análise de contratos e cláusulas jurídicas, saber reconhecer instrumentos financeiros, etc…);
      – Sensibilização para o cumprimento da Lei e conhecimento de casos praticos em que o cumprimento da Lei é necessário para a vida em sociedade (circulação na via pública, comportamentos sociais diversos, etc…
      – Promover a capacidade de comunicação formal por diversas vias, particularmente no discurso oral e escrito, para a exposição de problemas ou mesmo para se envolver civicamente sem constrangimentos…
      – Etc…

    • Ave Rara on 27 de Julho de 2020 at 17:30
    • Responder



    ———————————————————————————————————

    OMS alerta: Escolas só devem reabrir com transmissão comunitária controlada
    A Organização Mundial de Saúde recomendou hoje que só se reabram as escolas quando a transmissão comunitária do novo coronavírus esteja controlada, admitindo que falta saber muito sobre o papel das crianças na pandemia.

    —————————————————-

    • Pirilau on 27 de Julho de 2020 at 18:07
    • Responder

    Lá tinha de vir o escriba dizer que o problema está no facto de os docentes serem impreparados para lecionar os temas da CD.
    Faz-me lembrar um certo ditador que dizia que o povo não estava preparado para a Democracia.
    O verdadeiro problema é acharem que a escola serve para tudo o que vos dá na real gana, até para ensinar as crianças a andar de bicicleta…

      • Paulo Pereira on 28 de Julho de 2020 at 20:11
      • Responder

      A Liberdade não se deve promover em abstracto, mas em casos concretos.
      Foi, aliás, esta a grande falha que o pós-25A não acautelou, pois foi incapaz de ensinar o povo a exercer conscientemente o seu direito à Liberdade.
      Não é, portanto, de estranhar, que, após 45 anos, ainda haja tanta gente que não percebe que o exercício da Liberdade acarreta inerentemente a Responsabilidade.

      No caso particular da leccionação de Cidadania e Desenvolvimento, não é, com certeza, um fulano qualquer com o título de professor que vai pegar na disciplina, lê na diagonal o programa da mesma e acaba, no fim, por tecer “achismos” pessoais sobre determinados assuntos. Isso é extremamente perigoso, pois estamos a falar de formação de jovens.

      O seu discurso acaba por entrar em contradição, pois o que escreveu na primeira frase contradiz o que escreve na última.
      Qual é o fundamento científico para atribuir aos docentes de História e Filosofia, preferencialmente, a leccionação de CD? É uma inferência baseada em lugares-comuns assumir tal pressuposto, mas é o que alguns directores fazem em alguns agrupamentos.
      Com estas decisões, muitos directores acabam por colocar “as mãos no fogo” por docentes com essa formação.
      O irónico é que, ao longo dos meus anos de carreira, conheci muitos docentes de História e de Filosofia. E a muitos deles questiono a idoneidade ética e moral para dar conselhos sensatos a alunos. Muito embora esta observação não se esgote apenas aos docentes de História e Filosofia.
      A disciplina de CD é muito muito mais permeável à sua adulteração por pontos de vista pessoais que praticamente as demais disciplinas.
      Até para leccionar EMRC tem de haver a aprovação da idoneidade do docente por parte do bispo para que exte seja professor dessa disciplina.

      No fundo, isto tudo para dizer que não se deve brincar aos professores.
      É um assunto demasiado sério para levar com ligeireza, mas só lamento que muitos docentes não entendam a sua profissão com a seriedade que esta exige.
      E, convenhamos, nem o próprio MEC tem sequer essa sensibilidade.

    • Joaquim Ferreira on 28 de Julho de 2020 at 0:23
    • Responder

    Creio que esta é uma “área” transversal que deve ficar nas mãos de toda a comunidade e não apenas nas mãos de um professor… Se fica na mão de um pode ser fácil ocorrer uma formatação dos indivíduos, dependendo das orientações do partido que governa… ou até do próprio docente. Este “endoutrinamento” pode ser político, sexual, social… etc… etc…!

    • Cristina on 28 de Julho de 2020 at 0:47
    • Responder

    Um casal de professores vai lecionar a disciplina de Cidadania. O marido milita no CHEGA e a mulher milita no Bloco de Esquerda. Cada um leciona temas como a Interculturalidade e a Sexualidade exatamente de acordo com o que se encontra escrito nos programas dos partidos em que militam. Ao procederem assim verifica-se que o marido viola constantemente o programa aprovado para a disciplina pelo ME enquanto a mulher se encontra sempre dentro do que esse programa determina que deve ser dito…

    • Maria Inácio on 28 de Julho de 2020 at 11:07
    • Responder

    Peço desculpa mas no meu ponto de vista, Cidadania e Desenvolvimento nada tem a haver com potitiquices, não tem a haver com eu ser de um partido e fulano ser de outro. Tem sim com conversarmos com os alunos sobre certos temas e tentar-lhes transmitir-lhes valores, que hoje em dia já estão a desaparecer na nossa sociedade.
    Ser ou não ser uma disciplina, eis a questão! Eu como professora, no meu dia a dia nas minhas aulas dou sempre Cidadania, mesmo sem ser uma disciplina.

    Mais uma vez peço desculpa, mas como professores que somos e se queremos transmitir valores aos nossos alunos, pois eles também lêem este blog, certos colegas devem devem ter mais cuidado com a linguagem que usam, seja em relação aos colegas, aos alunos, aos encarregados de educaçãoe e até aos nossos governantes, que se estão lá, é porque alguém votou neles.

      • Paulo Pereira on 28 de Julho de 2020 at 19:44
      • Responder

      Parece-me que a maria está a ser algo ingénua, não obstante evidenciar toda a boa-vontade deste mundo para ser veículo de transmissão de ideologias.

      Porventura ainda não deve ter “pegado” em questões fracturantes, como questões de “género”, como os papéis de género e a relativização do que se entende por sexualidade…
      Estes temas são bastante delicados e chocam frontalmente com as concepções da esmagadora maioria das pessoas, particularmente de pais atentos.

      Quanto à transmissão de valores, pergunto-lhe: quais valores? Os que entende serem os “seus” valores?
      Posso até concordar, mas a ser assim, torna-se expremamente perigoso ser apenas um docente (ou ditador) a definir quais os valores de referência, em detrimento de outros.

      Levanta-se a velha questão que existiu durante décadas entre Formação Cívica e Religião e Moral.
      Ambas são passíveis de “pregar” valores, mas pergunto-me se há valores ditos “normalizados” para incutir nas cabeças das pessoas, particularmente na dos alunos.
      A uniformização é um processo bastante perigoso, particularmente quando abordamos temas que podem fazer parte das convicções de certos grupos sociais mas não de outros.
      E o risco real é acabarmos por cair na ditadura dos valores “politicamente correctos” e na, ainda maior bovinização das mentalidades.
      Com a agravante bastante perigoso de que passa a ser obrigatória a disciplina que promove esses valores “programados”.
      Pergunte-se até onde pode haver liberdade de expressão e de pensamento quando o Sistema promove pensamento tendencialmente único?

      Depois, não se admire de haver repressão às dissidências, como aconteceu nos regimes ditatoriais fascistas e comunistas…
      E olhe que já estivemos muito mais longe de uma ditadura em Portugal – uma ditadura de Esquerda, imposta por uma elite minoritária e cosmopolita.

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