Sol doirado beijando a pele

 

Sol doirado beijando a pele.
Areia granulada mordiscando os dedos dos pés.
O odor imaculado da maresia fresca poisado no rosto.
E o azul acetinado a desenhar uma linha infinita entre o mar e o céu.
Não me importuna a vizinhança irrequieta dos cães que correm, das bolas que devassam com sofreguidão o espaço, os risos das crianças dos outros, as garotas namoradeiras enlaçando línguas de sonho e de desejo.
É domingo e deixei a sacola de livros em casa. Comigo, apenas uma bagagem pesada: o meu filho adolescente, aborrecido por o ter obrigado a trocar as tecnologias por este lugar suspenso.
Contudo, sucumbe ao enamoramento que o mar nos causa a ambos. Há uma espécie de harmonia absoluta quando quebramos a rotina imparcial dos dias grosseiros.
A dado momento, estamos prestes a abandonar a praia e a regressar a casa. O miúdo aproxima-se do meu ouvido e sussurra delicadamente: “gosto muito de ti, mãe.” Como se todo o seu corpo pequeno, subitamente, se agigantasse sobre o meu dando-me doce colo.1
Lembro-me, agora que o domingo passou, deste pequeno presente que me deixou assombrada.
Temos andado em quase permanente quezília, os dois. Na verdade, parece-me que nos últimos tempos foi crescendo o meu exaspero com as suas pequenas falhas que testam a minha paciência.
Inesperadamente, toca a campainha e regresso, novamente, ao real. As mochilas agitam-se na ansiedade da saída e as passadas aceleradas dos alunos fazem estremecer todo o edifício, soçobrando na minha mesa uma pilha desajeitada de testes.
À minha frente, o Julião sustém-se com as folhas presas na mão. Estão completamente em branco, à exceção do seu nome.
Tem os olhos vermelhos de um silêncio cerrado. Não necessito insistir muito para que a sua verdade aflore os lábios.
No domingo a polícia foi lá a casa. A mãe levou tareia do companheiro e, ele próprio, apanhou quando a tentou proteger.
Abraço-o e encaminho-o para o gabinete da psicóloga. Vejo a porta fechar-se à minha frente e oiço, de novo, as palavras agora ténues de meu filho: “gosto muito de ti, mãe.”
Ontem foi Dia da Mãe, mas nem todas as mães receberam flores.
Algumas, por entre o ódio, receberam o verdadeiro amor de seus filhos.
Esse laço imperfeito e ziguezagueante de amor eterno que nos desfaz, nos ameniza e nos torna mulheres impossíveis.

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2 comentários

  1. Fiquei abismado pela derrota inclusa.

  2. Bom texto
    https://oduilio.wordpress.com/2016/05/03/13765/

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