Mariana Mortágua: Opinião – Marques Mentes

Marques Mendes fez esta semana uma fervorosa defesa do modelo em que recursos públicos são canalizados para financiar colégios privados, apesar de existir oferta do Estado nessas áreas. Para ilustrar a ideia, escolheu o exemplo de Santa Maria da Feira, opondo à escola pública de Paços de Brandão (“que tem vindo a perder alunos”) o exemplo do Colégio Liceal de Santa Maria de Lamas (que, sendo financiado pelo Estado, “está a rebentar pelas costuras”).

A conclusão de Marques Mendes é simples: as escolas privadas são por natureza melhores (“não é por acaso que nos rankings as escolas públicas vêm todas cá para baixo”) e o corte do financiamento público deixará o acesso à melhor educação apenas ao alcance dos ricos. Se a referência aos rankings reduz ao absurdo a defesa do indefensável, o exemplo escolhido prova a falácia do argumento. É que o Agrupamento de Escolas de Paços de Brandão recebeu em 2015, pela mão do ex-ministro Nuno Crato, um crédito de horas “pela eficácia educativa” e “redução do abandono escolar”. Foi mesmo, de entre todos os agrupamentos do país, um dos oito que receberam a distinção máxima.

O caso de Santa Maria da Feira, a que se poderiam juntar tantos outros, é a imagem do assalto aos recursos públicos que este modelo representa. A lei é clara: os contratos de associação só se justificam se servirem para suprimir as insuficiências da rede pública. Não servem para financiar o negócio da educação privada. Qualquer outra interpretação significa apenas que pagamos duas escolas para a mesma população escolar.

Numa única coisa Marques Mendes tem razão: a discussão deve ser feita “retirando daqui o preconceito partidário e ideológico”. Se assim fosse, certamente não assistiríamos ao triste espetáculo de uma direita para quem o Estado só é despesista quando está em causa o pagamento de prestações sociais.

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2016/05/mariana-mortagua-opiniao-marques-mentes/

1 comentário

    • Horácio Pinto on 10 de Maio de 2016 at 23:27
    • Responder

    O ensino privado só devia ser admitido como algo como serviço tipo “explicações”. O ensino público, pelo menos, o ensino de escolaridade obrigatória, sendo um pilar fundamental de defesa dos direitos humanos, num estado laico, devia ser uma obrigação exclusiva a cargo do Estado. Mesmo na ditadura os alunos dos sistemas privados para concluir um ciclo de estudos tinham de prestar provas na Escola pública. – assim se asseguravam os interesses de um Estado totalitário da extrema-direita.
    O ensino é um encargo exclusivo do Estado que o deve assegurar a toda a população e deve assumir-se como função equivalente ao exercício de funções de soberania como as das forças armadas, forças de segurança ou da Justiça…
    Sendo tida como função social, não interessa a natureza que lhe atribuem, é a primeira das primeiras competências estaduais. É estruturante para toda a sociedade, no presente e para o futuro! Não pode estar a cargo de entidades privadas!

Deixe um comentário

Your email address will not be published.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Discover more from Blog DeAr Lindo

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading